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Quero”: a história por trás do samba que
transformou os desejos de um país em um grito de liberdade no
Carnaval de 1986
1º de novembro de 2026, nº 25 Como nasceu a obra vencedora da disputa do Império Serrano, o contexto político de sua criação e as histórias que cercam uma das composições mais lembradas da redemocratização brasileira. Há sambas-enredo que atravessam o tempo pela beleza de sua melodia. Outros permanecem na memória pela força de seus versos, pela qualidade de sua construção poética ou pela maneira como conseguiram traduzir o espírito de uma época. E existem aqueles que ultrapassam a própria dimensão carnavalesca para se transformar em documentos históricos de uma sociedade. “Eu Quero”, samba que conduziu o Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano no Carnaval de 1986, pertence a essa última categoria. Construído a partir de uma sucessão de desejos individuais e coletivos, o samba capturou um Brasil que acabava de sair de 21 anos de regime militar e começava a experimentar, ainda com muitas contradições, a expectativa de reconstruir sua democracia. Sua mensagem era simples na aparência, mas profundamente política: o povo queria alimentação, educação, moradia, saúde, salários dignos, liberdade, esperança e, sobretudo, a possibilidade de decidir o próprio futuro. A obra é identificada nos registros fonográficos e carnavalescos consultados como composição de Aluísio Machado, Luiz Carlos do Cavaco e Jorge Nóbrega. O verso “Me dá, me dá, me dá o que é meu / Foram vinte anos que alguém comeu” sintetizou, com extraordinária capacidade de comunicação popular, o sentimento de uma geração que acreditava ter chegado a hora de recuperar direitos, oportunidades e dignidade. Mas a história de “Eu Quero” não se resume à interpretação política de sua letra. Há também uma dimensão propriamente carnavalesca: a escolha do enredo, a construção musical, a disputa interna entre compositores, a tradição da ala de compositores da Serrinha e o desafio de transformar uma proposta conceitual em um samba capaz de funcionar na avenida. É nesse encontro entre história política, memória musical e cultura popular que se encontra a importância dessa composição.
1. A Serrinha e uma tradição que fazia da composição uma questão de honra Para compreender a dimensão de “Eu Quero”, é necessário voltar um pouco no tempo e compreender o ambiente cultural em que a obra foi produzida. Fundado em 23 de março de 1947, o Império Serrano nasceu de uma dissidência da antiga Prazer da Serrinha, agremiação que reunia sambistas e moradores da região de Madureira, na zona norte do Rio de Janeiro. A ruptura envolveu divergências sobre a condução da escola, a participação dos sambistas nas decisões e a autonomia artística dos compositores. Um episódio emblemático ocorreu em 1946, quando uma composição de Mano Décio da Viola e Silas de Oliveira foi preterida pela direção da Prazer da Serrinha, que decidiu apresentar outro samba. O episódio contribuiu para o rompimento que culminaria na fundação do Império. Essa origem ajuda a explicar por que a escola construiu uma identidade fortemente associada à qualidade de seus sambas-enredo. A Serrinha não era apenas uma agremiação que precisava encontrar uma música para acompanhar seu desfile: sua ala de compositores constituía um patrimônio artístico, uma instituição de memória e uma das principais expressões de sua identidade. Ao longo das décadas, nomes como Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, Dona Ivone Lara, Aniceto do Império, Manoel Ferreira, Beto Sem Braço, Aluísio Machado, Arlindo Cruz e Luiz Carlos do Cavaco contribuíram para consolidar uma tradição musical que ultrapassou os limites do carnaval. Entre as obras que marcaram a história da escola estão “Aquarela Brasileira”, “Os Cinco Bailes da História do Rio”, “Heróis da Liberdade” e “Bum Bum Paticumbum Prugurundum”. Essa herança estabelecia um nível de exigência elevado para qualquer parceria que pretendesse representar a escola na avenida. A geração que preparou o caminho para 1986 Na década de 1980, o Império Serrano atravessava um período de renovação artística sem abandonar suas raízes. O campeonato de 1982, com “Bum Bum Paticumbum Prugurundum”, de Beto Sem Braço e Aluísio Machado, havia reafirmado a capacidade da escola de produzir sambas de enorme força popular. Nos anos seguintes, o Império continuou apostando em propostas artísticas relevantes. Em 1983, apresentou “Mãe Baiana Mãe”; em 1984, “Foi Malandro, É”; e, em 1985, “Samba, Suor e Cerveja, o Combustível da Ilusão”. Em 1986, a escola voltou a apostar em uma proposta de grande amplitude temática, desenvolvida por Renato Lage e Lílian Rabelo. 2. O Brasil que inspirou o samba: o fim da ditadura e a expectativa de reconstrução nacional O Carnaval de 1986 aconteceu em um momento particularmente significativo da história brasileira. Em 1985, o país havia encerrado duas décadas de regime militar. A eleição indireta de Tancredo Neves, em janeiro daquele ano, representou um marco da transição democrática. Sua morte, em abril, antes de assumir efetivamente a Presidência, levou José Sarney ao comando do país. A chamada Nova República começava cercada de expectativas, mas também de incertezas. O Brasil estava longe de resolver os problemas estruturais que haviam se agravado durante os anos de autoritarismo. A inflação corroía os salários, a desigualdade social permanecia profunda, os serviços públicos enfrentavam dificuldades e a população ainda carregava as consequências políticas e sociais de um período marcado pela repressão. A liberdade política retornava gradualmente, mas a liberdade, por si só, não colocava comida na mesa, não garantia moradia e não assegurava educação de qualidade. É justamente nessa contradição que se encontra a força histórica do samba do Império Serrano. A obra não tratava a redemocratização como uma vitória suficiente. Pelo contrário: apresentava a liberdade política como o primeiro passo de uma transformação muito mais ampla. A população queria participar da vida democrática, mas também queria recuperar aquilo que lhe havia sido negado. Em 1985, a Emenda Constitucional nº 26 convocou a Assembleia Nacional Constituinte, que começaria seus trabalhos em fevereiro de 1987. A discussão sobre uma nova Constituição já ocupava o imaginário político nacional. A memória dos 21 anos de regime militar O samba utiliza a expressão “vinte anos” para denunciar o período em que os direitos e as oportunidades da população teriam sido consumidos por aqueles que estavam no poder. Historicamente, o regime militar brasileiro começou em 1964 e terminou em 1985, totalizando aproximadamente 21 anos. A escolha de uma referência temporal arredondada não diminui a precisão da mensagem artística. Pelo contrário, torna a denúncia mais acessível e musicalmente contundente. O verso não precisava mencionar presidentes, ministros, atos institucionais ou nomes de militares. A força de sua construção estava em apresentar o período autoritário como alguém que havia consumido aquilo que pertencia ao povo. A imagem era simples e devastadora: alguém havia comido o que era nosso. A referência pode ser compreendida a partir das restrições às liberdades individuais, da censura à imprensa, às manifestações artísticas e à circulação de ideias, além das perseguições políticas. O Carnaval como espaço de manifestação política A redemocratização abriu espaço para que as escolas de samba explorassem com maior liberdade temas relacionados às contradições sociais, à política, à desigualdade e aos problemas nacionais. Estudos sobre os sambas-enredo da década de 1980 observam a ampliação dos temas críticos e sociais durante o processo de abertura política. O Império Serrano encontrou uma maneira particularmente interessante de trabalhar essa temática. Em vez de construir um discurso exclusivamente de denúncia, desenvolveu uma narrativa baseada na esperança. O povo não aparecia apenas como vítima do passado: aparecia como protagonista de um futuro que desejava construir. 3. A concepção do enredo: um país diante do gênio da lâmpada O enredo “Eu Quero”, desenvolvido por Renato Lage e Lílian Rabelo, partia de uma referência imaginativa bastante popular: a figura do gênio capaz de realizar desejos. A proposta aproximava o universo fantástico das histórias orientais, especialmente a imagem tradicional do gênio da lâmpada, dos problemas concretos da sociedade brasileira. Se um povo tivesse a oportunidade de pedir aquilo que realmente desejava, quais seriam seus pedidos? A pergunta permitia que o enredo percorresse diferentes dimensões da vida social, sem ficar limitado a um único assunto. A população desejava felicidade, mas também precisava de alimentação. Queria desenvolvimento, mas precisava de moradia. Sonhava com um futuro melhor para seus filhos, mas também queria saúde, educação, segurança e dignidade no trabalho. O gênio funcionava como elemento de ligação entre os desejos. O povo brasileiro era o personagem central. E o futuro era o grande território a ser conquistado. “Eu Quero” não é uma afirmação de poder individual, tampouco uma declaração de ambição pessoal. É uma frase que, repetida coletivamente, transforma-se em reivindicação social. A primeira pessoa do singular se converte em uma voz coletiva. Não é apenas o compositor que quer. Não é apenas o personagem do enredo. É uma população inteira que passa a expressar seus desejos. 4. A disputa de samba-enredo: quem foram os vencedores e o que sabemos sobre a criação da obra?
5. A arquitetura musical: por que “Eu Quero” funciona tão bem? Uma das características mais interessantes da composição é a maneira como sua estrutura acompanha a evolução do próprio enredo. A letra não apresenta uma sequência aleatória de desejos. Existe uma progressão narrativa que começa no plano da felicidade individual, passa pelas necessidades coletivas, chega à denúncia política e termina com a celebração da liberdade. Primeiro movimento: a felicidade como ponto de partida A composição começa com uma declaração de intenção: o desejo de alcançar a felicidade em sua plenitude. A referência ao gênio e à travessia de uma ponte introduz o elemento fantástico do enredo. Em vez de iniciar diretamente com uma denúncia social, os compositores apresentam o desejo como uma condição humana universal. Segundo movimento: o amanhã precisa começar hoje A ideia de um amanhã melhor é mais profunda do que uma simples manifestação de otimismo. O Brasil precisava enfrentar problemas econômicos e sociais acumulados, e a população não queria apenas promessas de um futuro distante: queria mudanças concretas e imediatas. Terceiro movimento: alimentação, desenvolvimento, paz e moradia A reivindicação por um povo bem alimentado coloca a fome no centro da discussão. A defesa do desenvolvimento nacional aparece associada à paz e à moradia. Não se trata de desenvolvimento abstrato, medido exclusivamente pelo crescimento econômico, mas de uma transformação que deveria alcançar a vida cotidiana da população. Quarto movimento: o refrão que se tornou uma denúncia histórica O trecho mais conhecido concentra a maior carga política. A reivindicação por aquilo que pertence ao povo, seguida da referência aos vinte anos consumidos, transformou o samba em uma manifestação de memória coletiva. A metáfora permite diferentes interpretações: direitos, oportunidades, salários, liberdade, participação política e qualidade de vida. Quinto movimento: educação e valorização do conhecimento A passagem sobre formação profissional, informação e educação dos filhos apresenta um desejo que atravessa gerações: o direito de estudar e proporcionar aos filhos uma formação melhor. A educação aparece como instrumento de emancipação e possibilidade de romper ciclos de desigualdade. Sexto movimento: liberdade, esperança e amor A conclusão modifica o ambiente emocional da composição. Depois de apresentar necessidades sociais e denunciar injustiças, o samba anuncia o fim da tempestade e a chegada de um período de bonança. A liberdade ganha características humanas e a celebração do amor surge como consequência de uma nova realidade. 6. Quinzinho e a gravação que eternizou a composição O intérprete registrado na ficha técnica do desfile de 1986 foi Quinzinho. Seu nome aparece nos registros históricos da escola e na documentação da gravação original do samba para o Carnaval daquele ano. O fonograma integra o álbum “Sambas de Enredo das Escolas de Samba do Grupo 1A – Carnaval 1986”, lançado pela RCA Victor. A ficha catalográfica do acervo do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular identifica escola, enredo, compositores e intérprete.
Na coletânea “Escolas de Samba Enredos – Império Serrano”, lançada pela Sony Music em 1993, a composição aparece novamente, dessa vez interpretada por Roberto Ribeiro, com produção e regência creditadas a Rildo Hora. A existência de gravações posteriores demonstra que “Eu Quero” não permaneceu restrito à memória do desfile de 1986: passou a integrar também o repertório histórico e fonográfico da escola.
7. O desfile de 1986: a materialização dos desejos na avenida O Império Serrano apresentou o enredo em 9 de fevereiro de 1986, sendo a quarta escola a desfilar na Passarela do Samba. A ficha técnica daquele carnaval registra uma operação de grande dimensão:
A dimensão do desfile demonstra que o samba não era uma obra isolada. Ele integrava um projeto artístico que mobilizou milhares de componentes, profissionais e integrantes da comunidade. O enredo exigia uma tradução visual dos desejos da população. Renato Lage e Lílian Rabelo tinham o desafio de transformar um conceito amplo em um espetáculo carnavalesco compreensível para quem assistia à apresentação. O terceiro lugar e a permanência histórica O Império Serrano terminou o desfile na terceira colocação do Grupo 1A, com 209 pontos. A campeã foi a Mangueira, seguida pela Beija-Flor. A classificação é um dado importante, mas não deve ser confundida com a dimensão histórica da obra. O carnaval brasileiro possui inúmeros exemplos de sambas que alcançaram reconhecimento muito superior à posição obtida por suas escolas na apuração. “Eu Quero” é um desses casos. A composição alcançou posição de destaque na memória do carnaval, sendo frequentemente lembrada entre os grandes sambas da década de 1980. O reconhecimento de Aluísio Machado com o Estandarte de Ouro de 1986, na categoria samba-enredo, reforça a importância artística da parceria.
8. “Eu Quero” e os outros sambas que traduziram a redemocratização Para compreender a originalidade da composição do Império Serrano, vale observar o que outras escolas estavam apresentando naquele período. O Carnaval de 1985 já havia demonstrado que as escolas de samba estavam recuperando o espaço de crítica social e política. A Caprichosos de Pilares, com “E Por Falar em Saudade...”, utilizou o humor para comentar os problemas econômicos e políticos do país, inclusive a ausência de eleições presidenciais diretas.
O que diferencia “Eu Quero” é sua maneira de reunir reivindicações tão diferentes dentro de uma mesma narrativa. A Portela trabalhava a utopia. A São Clemente denunciava problemas nacionais. O Império Serrano transformava os desejos da população em uma espécie de programa popular de reconstrução do país. Não era um programa partidário, nem uma proposta de governo. Era a expressão de uma sociedade que havia passado por um longo período de restrições e queria recuperar sua capacidade de sonhar. 9. Uma leitura histórica que permanece atual Quatro décadas depois, o samba continua oferecendo possibilidades de interpretação. Sua força está justamente no fato de que os desejos apresentados em 1986 não perderam completamente sua atualidade. Alimentação, educação, moradia, saúde, desenvolvimento, melhores salários e liberdade permanecem no centro das discussões brasileiras. O que os compositores fizeram foi transformar essas reivindicações em uma composição de grande apelo popular, sem sacrificar a qualidade poética. A obra não apresenta o povo como personagem passivo: ele reivindica, deseja, exige e anuncia aquilo que considera justo. Essa postura dialoga com o ambiente de participação popular que antecedeu a Assembleia Nacional Constituinte e a elaboração da Constituição de 1988, promulgada em 5 de outubro daquele ano, consolidando direitos e garantias fundamentais. A liberdade como direito de viver Talvez o maior mérito da composição seja não separar liberdade política de felicidade individual. A obra começa falando de felicidade, percorre as necessidades materiais da sociedade, denuncia os vinte anos de autoritarismo e termina com o desejo de amar. A liberdade não deve ser compreendida apenas como o direito de votar, manifestar opiniões ou escolher representantes. Também significa poder estudar, trabalhar, alimentar os filhos, viver com dignidade, cuidar da saúde e construir um futuro. O samba apresenta uma ideia de democracia que ultrapassa a organização do Estado e alcança a vida cotidiana. 10. O legado de uma composição que entrou para a história do Império Serrano A história do Império Serrano é marcada por obras que se tornaram referências do carnaval brasileiro. “Heróis da Liberdade”, “Aquarela Brasileira”, “Os Cinco Bailes da História do Rio” e “Bum Bum Paticumbum Prugurundum” são exemplos de composições que ultrapassaram o momento de seus respectivos desfiles. “Eu Quero” ocupa um lugar especial nessa linhagem. Sua importância não está apenas na qualidade musical, mas na capacidade de registrar um momento histórico. A composição permite que as gerações posteriores compreendam como parte da sociedade brasileira enxergava o processo de redemocratização. Não é um documento produzido por políticos, historiadores ou jornalistas. É um registro artístico construído por compositores populares, dentro de uma escola de samba, a partir de uma proposta carnavalesca. E talvez esteja aí sua maior riqueza: a história de um país também pode ser contada pelos desejos de sua população. Aluísio Machado, Luiz Carlos do Cavaco e Jorge Nóbrega transformaram uma proposta de enredo em uma composição que reúne poesia, crítica social, memória política e esperança. O samba não precisou citar nomes de presidentes, partidos ou militares para expressar uma crítica contundente ao período autoritário. Bastou falar daquilo que o povo queria recuperar. “Eu Quero” não foi apenas o samba de um carnaval. Foi a tradução musical de um país que voltava a ter o direito de querer. 11. Fontes documentais, bibliográficas e acervos para aprofundamento
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