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A OUTRA SUPERCAMPEÃ: JORNAIS DE 1953 E A POLÊMICA QUE DESAFIA A EXCLUSIVIDADE DA MANGUEIRA NO SUPERCAMPEONATO




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A OUTRA SUPERCAMPEÃ: JORNAIS DE 1953 E A POLÊMICA QUE DESAFIA A EXCLUSIVIDADE DA MANGUEIRA NO SUPERCAMPEONATO

19 de setembro de 2026, nº 22

O senso comum repete há quatro décadas: a Estação Primeira de Mangueira é a única supercampeã do carnaval carioca, coroada em 1984, no ano de inauguração do Sambódromo da Marquês de Sapucaí. A frase "primeira e única supercampeã" virou bordão verde e rosa, estampado em camisas, faixas e matérias de aniversário. Mas uma investigação em registros de jornais de 1953 conta outra história — e coloca a Portela, de Oswaldo Cruz, como a primeira escola de samba a ostentar o título de supercampeã do carnaval do Rio de Janeiro, mais de três décadas antes da famosa conquista mangueirense.


A polêmica, que volta e meia esquenta as redes e os fóruns de sambistas, tem duas camadas: uma histórica, documentada em jornais da época; e outra conceitual, que separa o que foi o "supercampeonato" em 1953 e o que ele significou em 1984. Entender a disputa exige voltar ao início dos anos 1950.

 

O ano em que o carnaval não teve campeã

Tudo começa em 1952. Naquele ano, o desfile do grupo principal — realizado na Avenida Presidente Vargas e já chamado de "Supercampeonato" — reunia escolas filiadas a três entidades diferentes: a Federação Brasileira das Escolas de Samba (FBES), a Confederação Brasileira das Escolas de Samba (CBES) e a União Geral das Escolas de Samba do Brasil (UGESB). Mas uma forte chuva caiu sobre a cidade na noite dos desfiles. A comissão julgadora abandonou seus lugares sem atribuir notas a todas as escolas — o Império Serrano, por exemplo, desfilou sob o temporal e não foi avaliado. O próprio Império pediu ao Departamento de Turismo e Certames a anulação do concurso. Portela e Mangueira, que haviam desfilado antes da chuva e sido julgadas, protestaram contra o cancelamento. Ainda assim, os envelopes foram descartados sem sequer serem lidos.

Pela primeira vez na história dos desfiles oficiais, o carnaval carioca não teve campeã. Foi o único ano, desde o início dos concursos em 1932, em que não houve vencedor.

No mesmo período, o samba vivia uma reorganização institucional. Em 1952, a fusão da Federação com a União Geral deu origem à Associação das Escolas de Samba do Brasil (AESB), que passou a reunir as principais agremiações da cidade. Com a unificação das ligas e a criação da segunda divisão, o grupo principal passou a se chamar oficialmente Supercampeonato — e o grupo secundário, Campeonato. Foi nesse contexto que o carnaval de 1953 chegou com uma promessa: como o ano anterior não teve vencedor, a escola que vencesse o certame seria consagrada Supercampeã do carnaval carioca.

 

1953: a Portela e o desfile perfeito

No domingo, 15 de fevereiro de 1953, na Avenida Presidente Vargas, a Portela entrou no tablado para apresentar o enredo "Seis Datas Magnas" (também registrado como "As Seis Datas Magnas"), idealizado pelo artista Lino Manuel dos Reis. O samba, de autoria do jovem Candeia — então com apenas 17 anos — e Altair Prego, exaltava seis datas fundamentais da História do Brasil: o Enforcamento de Tiradentes (21 de abril), a Batalha do Tuiuti (24 de maio), a Batalha do Riachuelo (11 de julho), o Grito do Ipiranga (7 de setembro), a Proclamação da República (15 de novembro) e o Dia da Bandeira (19 de novembro).

A chuva, mais uma vez, ameaçou a festa: o desfile, marcado para as 21h, só começou às 23h50. Mas nada tirou o brilho da apresentação. Em frente ao palanque da comissão julgadora, a Portela hasteou a bandeira nacional, num momento que emocionou o público. Quando os envelopes foram abertos, a azul e branca sagrou-se vencedora com 400 pontos — e fez história: foi a primeira vez que uma escola de samba foi campeã com nota máxima em todos os quesitos, sem exceção, de todos os jurados. Era o 11º título da Portela, e para muitos, o maior desfile da história da escola e do carnaval carioca até então.

A conquista, porém, veio com um adjetivo a mais. Por ter vencido o primeiro campeonato depois da anulação de 1952 — um título que "valeu por dois" — e sob a chancela da recém-unificada AESB, a Portela foi declarada Supercampeã do carnaval carioca de 1953.


Jornais da época destacaram o "supercampeonato" da Portela em 1953 - Foto: Reprodução


 

As fontes que sustentam a tese portelense


A reivindicação portelense não se apoia apenas na memória oral. Há um conjunto de registros documentais e bibliográficos que tratam a Portela como supercampeã de 1953:

A Wikipédia. A página Resultados do Carnaval do Rio de Janeiro em 1953 abre com a afirmação: "A Portela venceu o Supercampeonato, conquistando seu décimo primeiro título de campeã do carnaval carioca." A mesma enciclopédia, na Lista de campeãs do carnaval do Rio de Janeiro, registra que, entre 1952 e 1961, a primeira divisão foi denominada "Supercampeonato", organizado pela AESB — ou seja, o termo não foi invenção de 1984.

O site oficial da Portela. Na seção de história da agremiação, o relato do carnaval de 1953 descreve a conquista com nota máxima em todos os quesitos, o 11º título e o contexto da anulação de 1952. A ficha técnica do desfile registra o resultado: "Campeã do Grupo 1, com 400 pontos".

O arquivo da Folha de S.Paulo. No especial de carnaval do UOL/Folha, o registro de março de 1953 confirma: "A Portela se apresentou com muita gana e venceu o confronto, obtendo nota 10 em todos os quesitos, fato inédito até então na história das escolas."

 A bibliografia de Sérgio Cabral. O livro "As escolas de samba do Rio de Janeiro" (Lumiar, 1996), de Sérgio Cabral, um dos maiores cronistas do carnaval, registra o Supercampeonato de 1953 no depoimento de Alvaiade, um dos grandes nomes da Portela. Como observaram os participantes do fórum da Galeria do Samba, o episódio "está registrado em alguns livros", mas "faltavam-nos as provas documentais" — lacuna que a pesquisa em jornais de 1953 teria preenchido.

A polêmica pública. A disputa também circulou em veículos e páginas de samba. Uma publicação da rádio Point Web, de maio de 2020, resume o embate: "Polêmica no mundo do samba. A Portela se considera a primeira super campeã do carnaval, num desfile realizado em 1953, já a Mangueira conquistou o super campeonato no desfile fantástico de 1984, quando a escola foi e voltou pela apoteose."

 

1984: o supercampeonato do Sambódromo


A versão que virou senso comum nasceu 31 anos depois. Em 1984, o Rio inaugurava a Passarela do Samba — o Sambódromo —, projeto de Oscar Niemeyer idealizado por Darcy Ribeiro, construído em tempo recorde sob o governo de Leonel Brizola. Com a nova passarela, os desfiles do grupo principal passaram a ser divididos em duas noites, cada uma com seus próprios jurados. E o regulamento, jamais repetido, previu duas campeãs e uma supercampeã.

No desfile de domingo, 3 de março, a Portela venceu com "Contos de Areia", de Edmundo Braga e Paulino Espírito Santo, homenagem a Paulo da Portela, Natal e Clara Nunes — 203 pontos, o 21º título da escola. Na segunda-feira, 4 de março, a Mangueira quebrou um jejum de onze anos (o último título era de 1973) com "Yes, Nós Temos Braguinha", de Max Lopes, homenagem ao compositor João de Barro — 208 pontos, o 13º título. No desfile das campeãs, no sábado, 10 de março, as três primeiras colocadas de cada noite (Portela, Império Serrano e Caprichosos de Pilares; Mangueira, Mocidade e Beija-Flor) mais as duas primeiras do Grupo 1-B (Unidos do Cabuçu e Acadêmicos de Santa Cruz) disputaram o Supercampeonato. A apuração, no Maracanãzinho, deu à Mangueira 139 pontos contra 137 da Portela — e consagrou a verde e rosa supercampeã, com direito ao histórico retorno "na contramão" pela Praça da Apoteose.

Foi desse episódio que nasceu o bordão. Como registrou o UOL em 2017: "A turma verde e rosa até hoje ostenta, com orgulho, o título de única Supercampeã do Carnaval Carioca. Mas a Portela também celebra este título, a despeito de ter ficado com o vice-campeonato no desfile decisivo. 'Nós fomos campeões em 1984.'"

Duas leituras, dois supercampeonatos

É aqui que a polêmica se acirra. Os defensores da exclusividade mangueirense argumentam que o Supercampeonato de 1984 foi uma disputa extra, um "tira-teima" entre campeãs, à parte dos campeonatos regulares — enquanto, em 1953, "Supercampeonato" era apenas o nome oficial da primeira divisão, num contexto comemorativo de unificação das ligas. Sob essa leitura, o título portelense de 1953 contaria como um campeonato comum, e não como um supercampeonato no sentido de 1984.

Os portelenses rebatem com dois argumentos. Primeiro: mesmo que o nome designasse a divisão, o título de 1953 "valeu por dois", porque o campeonato do ano anterior não foi apurado — algo que nunca mais aconteceu. Segundo: o regulamento de 1984, que criou duas campeãs e depois um supercampeonato, foi considerado esdrúxulo até por contemporâneos, e "jamais se repetiria", como lembra o pesquisador Pedro Migão em seu Ouro de Tolo. No ano seguinte, os mesmos jurados julgaram os dois dias e voltou a haver um só campeão.

Há ainda um terceiro dado que embaralha a narrativa: o próprio O Globo, em seu acervo sobre a história da Portela, registra que "em 1984, a Portela dividiu o título com a Mangueira — a fórmula da disputa daquele ano, porém, deu à verde e rosa o troféu de supercampeã". A revista Veja, no mesmo sentido, concluiu: "Para os portelenses, porém, não há discussão: eles foram campeões do carnaval carioca de 1984, mesmo que tenha havido um campeão dos campeões. Tecnicamente, ambas as escolas detêm o título daquele ano."

O veredito dos arquivos

Diante dos registros, a síntese mais aceita entre pesquisadores é a que circulou no próprio fórum da Galeria do Samba: "Portela, a primeira supercampeã do samba. Mangueira, a primeira supercampeã do Sambódromo." As duas frases podem conviver sem apagar a grandeza de nenhuma das escolas.

O que os jornais de 1953 mostram é que o conceito de supercampeã não nasceu na Sapucaí. Ele nasceu na Avenida Presidente Vargas, sob chuva, num carnaval que precisou valer por dois para compensar um ano sem campeã. A Portela, com seu desfile de notas perfeitas, foi a primeira a carregar esse título. A Mangueira, 31 anos depois, foi a primeira a conquistá-lo na era do Sambódromo — e a única até hoje a vencer um supercampeonato disputado nos moldes de 1984.

A história, como sempre no carnaval, tem mais de um samba para contar. E os arquivos, desta vez, estão do lado de quem ouve os dois.

 


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Victor Raphael
Ex-presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de Corumbá (LIESCO)