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PASSARELA DO ANHEMBI: A OBRA QUE DIVIDIU SÃO PAULO ANTES DO PRIMEIRO DESFILE




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PASSARELA DO ANHEMBI: A OBRA QUE DIVIDIU SÃO PAULO ANTES DO PRIMEIRO DESFILE

12 de setembro de 2026, nº 21


Sambódromo do Anhembi - Foto: Bruno Filandra/SAMBARIO

No dia 1º de fevereiro de 1991, a então prefeita Luiza Erundina inaugurava, às margens do rio Tietê, a passarela do samba de São Paulo: 530 metros de pista de concreto, 14 metros de largura, projetada por Oscar Niemeyer. A cidade ganhava enfim um palco permanente para o seu carnaval de escolas de samba. Mas a obra que se erguia no Complexo do Anhembi não nasceu da unanimidade — pelo contrário, foi resultado de anos de disputas, resistências e críticas que dividiram sambistas, arquitetos, políticos e a própria imprensa.

Para entender essas opiniões, é preciso lembrar de onde vinha o carnaval paulistano. Durante décadas, a festa acontecia no coração da cidade: na avenida São João, para onde os desfiles foram oficialmente transferidos em 1967, e depois na avenida Tiradentes, entre 1977 e 1990. Era um carnaval de rua, de comunidades negras vindas das periferias, em que o público muitas vezes assistia sentado no asfalto, segurando as cordas que delimitavam a pista. A mudança para um espaço fechado, cercado e distante do centro não era, portanto, apenas uma questão logística.

A ideia de um sambódromo paulistano ganhou força inspirada no sucesso do Rio de Janeiro, onde a Passarela Professor Darcy Ribeiro, também de Niemeyer, fora inaugurada em 1984. Durante a gestão do prefeito Jânio Quadros (1986-1989), a discussão sobre um equipamento semelhante em São Paulo tornou-se recorrente. Para viabilizar o projeto, o arquiteto doou o desenho à prefeitura — uma forma de reduzir os custos e acelerar a aprovação. O terreno escolhido foi uma área municipal que servia de estacionamento do Parque Anhembi, e a questão da integração com a cidade e da acessibilidade foi tratada de forma superficial nas justificativas oficiais.

A distância era, de fato, a primeira objeção — e vinha de dentro do próprio mundo do samba. Já no início dos anos 1980, os sambistas haviam recusado uma proposta de levar os desfiles para o Anhembi. O depoimento de Madrinha Eunice, registrado no acervo do MIS-SP em 1981, resume a resistência: "Anhembi? É muito longe, pra lá a gente não vai não." Para as escolas, o centro era um território de convivência e afirmação cultural; retirar a festa dali significava perder visibilidade e presença na cidade.

Apesar das resistências, o projeto avançou em ritmo acelerado. Em agosto de 1990, a Folha de S.Paulo estampava a manchete "Prefeita quer Sambódromo em janeiro", revelando a pressa do poder público em entregar a obra a tempo do carnaval seguinte. A inauguração ocorreu sem as arquibancadas definitivas, por questões burocráticas: foram montadas estruturas provisórias desmontáveis, com capacidade para cerca de 25 mil pessoas e 52 camarotes. A pressa deixou marcas que a imprensa não deixou passar.

O primeiro desfile no novo palco, em 9 de fevereiro de 1991, com as dez escolas do grupo especial, teve sabor agridoce. Só a pista de concreto estava pronta: as arquibancadas eram de madeira, a concentração virou um imenso lamaçal e a iluminação da pista ficou irregular. Ainda assim, a Camisa Verde e Branco sagrou-se campeã, e o carnaval paulistano entrava em uma nova era. Para muitos, era o preço do progresso; para outros, a prova de que a obra fora feita às pressas, mais para a foto do que para o folião.

Os defensores do sambódromo viam nele o reconhecimento das escolas de samba e a profissionalização da festa. Funcionários e dirigentes ligados à Paulistur (atual SPTuris) lembravam que, com a passarela, o carnaval ganhou "mais luxo, mais organização", e que o samba paulistano finalmente se equiparava ao carioca. O discurso oficial falava em institucionalização do concurso, transmissão televisiva e projeção nacional — argumentos que ecoavam um debate antigo, presente na imprensa desde pelo menos 1968, quando a Folha publicava "Desfile fez carnaval melhor".

Os críticos, porém, enxergavam outra face da mesma moeda. Além do custo e da distância, apontava-se o confinamento: a festa que era da rua passava a ser controlada, cercada e transformada em espetáculo comercial. O sociólogo Tadeu Kaçula sintetiza essa leitura ao afirmar que o sambódromo materializa "uma lógica de controle", retirando o carnaval do espaço central e transferindo-o para um local específico, "onde a festa pode ser controlada, comercializada e transformada em espetáculo" — uma perda de centralidade política que reproduziria a segregação racial e social já presente na estrutura de São Paulo.

A polêmica alcançou também o campo da arquitetura. O projeto original de Niemeyer previa cobertura e arcos sobre a avenida, mas a obra construída desviou-se do desenho: banheiros de alvenaria e torres para jurados foram erguidos sem autorização do arquiteto, e as luminárias em meio-arco não constam de seus desenhos. Em 2012, quando a SPTuris procurou o escritório de Niemeyer para autorizar reformas, recebeu a resposta de que o arquiteto não reconhecia o sambódromo construído como projeto seu. O editorial da Folha "Niemeyer no Anhembi" classificou a passarela como "órfã" e cobrou: "Falta passar essa história a limpo."

A imprensa da época acompanhou cada capítulo dessa disputa. A Folha de S.Paulo cobrou o prazo apertado e o gasto público; O Estado de S. Paulo e o Jornal da Tarde acompanharam as obras, os custos e a engenharia; os jornais populares, como Diário Popular e Notícias Populares, deram destaque ao espetáculo e aos percalços do primeiro desfile — o lamaçal, as arquibancadas de madeira, o atraso das obras por causa das chuvas. As revistas semanais, por sua vez, trataram a inauguração sob o ângulo do dinheiro público e da grife Niemeyer, enquanto a Manchete celebrava o carnaval com grandes ensaios fotográficos.

Com o tempo, a estrutura foi se completando: os módulos de concreto chegaram em 1992, com 10 mil lugares, e em 1995 a capacidade saltou para 20 mil. Em 1993, o equipamento foi batizado de Polo Cultural e Esportivo Grande Otelo, em homenagem ao ator falecido naquele ano. Hoje, o Sambódromo do Anhembi é o palco oficial do carnaval paulistano, um dos maiores do país. Mas a pergunta que dividia os jornais em 1991 permanece: a passarela foi reconhecimento do samba ou seu confinamento? A resposta, página por página, está guardada na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, onde as opiniões da época seguem disponíveis para quem quiser reconstruir essa história.

Comentários sobre a imprensa da época

Jornais e suas linhas editoriais

Folha de S.Paulo — Jornal moderno, crítico e independente, reformulado nos anos 1980 pelo "Projeto Folha". Na cobertura do sambódromo, cobrou a pressa e o dinheiro público (manchete de agosto de 1990) e, anos depois, no editorial "Niemeyer no Anhembi" (2012), tratou a obra como "órfã" e pediu transparência sobre os desvios do projeto. Sua linha: jornalismo profissional, cético em relação ao poder público.

O Estado de S. Paulo — Fundado em 1875, é o jornal de referência da elite paulista, de linha conservadora-liberal. Pela sua tradição institucional, tendia a abordar a obra pelo ângulo do custo, da engenharia e da imagem da cidade, com tom sóbrio.

Jornal da Tarde — Vespertino do Grupo Estado (1966-2017), mais ágil e popular, com forte cobertura da cidade e do carnaval; tendia a equilibrar a crítica com a cobertura festiva.

Diário Popular — Jornal popular (1884-2001), de leitura da classe trabalhadora; via o carnaval como festa do povo e noticiava os problemas práticos do primeiro desfile.

Notícias Populares — Sensacionalista, do Grupo Folha (1963-2001); explorava o lado espetacular e os percalços — lama, arquibancadas de madeira, atrasos.

Correio Paulistano — O mais antigo da cidade (1854), por muito tempo órgão oficial do governo estadual; tom institucional e favorável às obras públicas.

Revistas, articulistas e jornalistas

Veja (Editora Abril) — A mais influente revista semanal, de linha conservadora-liberal; em 1991 tinha Mário Sérgio Conti como editor. Pela sua linha, tendia a ver a inauguração com ceticismo quanto ao gasto público e à "grife Niemeyer".

IstoÉ (Editora Três) — Concorrente de Veja, de linha mais oposicionista; mais atenta à dimensão social e às críticas das comunidades de samba.

Manchete (Bloch Editores) — Revista de apelo popular e glamouroso, com cobertura carnavalesca farta em fotos; celebrava a festa sem grandes questionamentos.

Articulistas de destaque da época — Na Folha, nomes como Janio de Freitas (colunista político afiado, na casa desde 1991), Clóvis Rossi (internacional) e Carlos Heitor Cony (cronista) marcavam o tom crítico do jornal, embora a cobertura específica do carnaval fosse feita por repórteres de seção. Nas revistas, a análise econômica e política ficava a cargo de editores e colunistas das editorias de Brasil e Cidades.

BONUS: Como verificar na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Uma observação importante: este artigo foi construído a partir de pesquisa histórica em fontes confiáveis (a tese de doutorado da USP "Sambódromo do Anhembi: confinamento físico e transbordamento simbólico", acervos institucionais e arquivos de imprensa). Para ler as opiniões no texto original dos jornais e revistas, o caminho é a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional (memoria.bn.br), que digitaliza as páginas históricas. Sugestão de busca: período de 1989 a 1991, termos como "sambódromo", "Anhembi", "passarela do samba" e "Erundina", nos títulos Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Diário Popular, Veja, IstoÉ e Manchete.

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Victor Raphael
Ex-presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de Corumbá (LIESCO)