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A PASSARELA QUE NASCEU DE UM CARNAVAL PROIBIDO - Como a imprensa de Florianópolis narrou — e disputou — a construção do Sambódromo Nego Quirido, entre o cancelamento dos desfiles de 1988 e a obra "recorde" inaugurada em 1989



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A PASSARELA QUE NASCEU DE UM CARNAVAL PROIBIDO
Como a imprensa de Florianópolis narrou — e disputou — a construção do Sambódromo Nego Quirido, entre o cancelamento dos desfiles de 1988 e a obra "recorde" inaugurada em 1989

18 de outubro de 2026, nº 24

Série especial | Victor Raphael

Florianópolis, 1989. No fim do Aterro da Baía Sul, onde antes funcionava um parque de diversões, erguia-se em ritmo de emergência uma estrutura de concreto e arquibancadas que mudaria para sempre a geografia do carnaval da capital catarinense. A Passarela do Samba Nego Quirido não nasceu de um consenso: nasceu de um carnaval cancelado, de uma eleição municipal, de sete empresários da construção civil e de uma imprensa local que, entre elogios e desconfianças, registrou cada capítulo da polêmica.

É essa cobertura — preservada nos arquivos de jornais da época e resgatada pela pesquisa acadêmica — que permite reconstruir hoje o que os órgãos de imprensa de Florianópolis pensaram, publicaram e defenderam quando a cidade ganhou seu sambódromo.


Passarela Nego Quirido - Foto: Divulgação

1985: a primeira aposta no papel

A ideia não nasceu em 1988. Já em 1985, o jornal O Estado noticiava a proposta do recém-empossado secretário de Turismo da gestão Edson Andrino: fixar arquibancadas perto do parque de diversões do Aterro da Baía Sul e criar um espaço oficial para os desfiles. O nome mais apropriado, segundo o secretário, seria simplesmente "Passarela do Samba".

Naquela matéria, a mais antiga referência ao tema encontrada nos arquivos, já aparecia o que se repetiria nos anos seguintes: para a prefeitura, a passarela não seria apenas o palco do desfile, mas fonte de arrecadação e instrumento de promoção turística. O discurso da modernização — e do carnaval como negócio — estava plantado antes de qualquer bloco de concreto ser erguido.

1988: o carnaval sem desfiles e a imprensa na oposição

O estopim veio na noite de 10 de fevereiro de 1988, quando o prefeito Edson Andrino anunciou que a prefeitura não financiaria o desfile das escolas de samba na Avenida Paulo Fontes. A decisão, apresentada como ruptura com os "erros do passado" e como apoio à "parcela mais sacrificada da sociedade", explodiu na imprensa.

O Diário Catarinense reagiu com um editorial intitulado "Lições Populares do Carnaval", no qual desaprovava os métodos da prefeitura para lidar com a festa popular. O jornal entendia que cancelar o desfile não era proteger os mais pobres — era retirar deles a própria festa.

Andrino contra-atacou no mesmo campo: encomendou uma pesquisa à empresa Perfil para, segundo ele, "confirmar" que a população apoiava a decisão. E, tentando explicar por que não existia mais carnaval de rua oficial na cidade, o prefeito confessou publicamente sua adesão à "febre do sambódromo" que, naquele momento, atingia as principais cidades do país — do Rio de Janeiro de Niemeyer às réplicas provinciais que brotavam pelo Brasil.

Foi nesse clima de polêmica que a construção da passarela efetivamente começou, em 1988 — de forma, como reconheceriam depois os próprios aliados do projeto, "tímida" e subfinanciada.

1989: Amin, os empresários e a obra "a toque de caixa"

A eleição de Esperidião Amin para a prefeitura, no início de 1989, selou o destino da obra. Ainda como candidato, de acordo com artigo publicado em 12 de fevereiro de 1989, Amin assegurou que, se eleito, Florianópolis voltaria a ter carnaval — e que para isso seria preciso concluir a passarela iniciada pelo adversário.

A virada prática veio com a matéria do Diário Catarinense de 26 de janeiro de 1989, intitulada "Empresários garantem Passarela do Samba". O texto registrava a visita do prefeito Amin, do secretário de Turismo Ênio Branco e do coordenador do Carnaval Airton de Oliveira às obras, e o acordo fechado com sete empresários da construção civil para concluir a estrutura até o carnaval, diante da falta de verbas municipais. A nota de rodapé da pesquisa acadêmica que resgatou a matéria remete ao arquivo da Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina (Diário Catarinense, 27/01/1989, p. 13).

A correria foi tamanha que, um dia antes da inauguração oficial, a passarela ainda recebia retoques finais enquanto servia de teste: o desfile da Escola de Samba Protegidos da Princesa, previsto para as 8h30, só começou perto das 23h. "Foi uma obra recorde, quase impossível de ser realizada", avaliou o assessor técnico da Secretaria de Turismo, José Nicodemus Ribeiro.

Na inauguração, em 4 de fevereiro de 1989, desfilaram as Grandes Sociedades Trevo de Ouro e Granadeiros da Ilha e escolas como Consulado do Samba e Embaixada Copa Lord. Ênio Branco estimou 25 mil espectadores nas arquibancadas — sem contar os que pularam o cercado — assistindo a outros 25 mil sambistas. As transmissões dos desfiles daquele carnaval ficaram registradas pela TV local: a RCE TV veiculou o desfile do Consulado e a RBS TV o da Protegidos da Princesa, imagens que hoje circulam resgatadas em arquivos audiovisuais.

O que cada órgão de imprensa disse

A leitura conjunta dos recortes mostra um espectro de opiniões bem definido:

O Estado foi o jornal que primeiro deu projeção ao projeto, em 1985, e acompanhou a obra com tom predominantemente institucional, dando voz aos secretários e ao discurso da modernização turística.

O Diário Catarinense teve dupla atuação: criticou duramente o cancelamento dos desfiles em 1988 (editorial "Lições Populares do Carnaval") e, em 1989, deu destaque à solução empresarial — mas também abriu espaço para as ressalvas à infraestrutura, já que a passarela foi entregue "faltando pequenos detalhes" e com problemas reconhecidos de acesso.

As notas jornalísticas publicadas na cobertura do carnaval de 1989 foram, na avaliação da pesquisa que as sistematizou, em sua maioria favoráveis ao novo carnaval. Uma delas elogiava sem meias-palavras: "A passarela do samba que leva o nome de Nego Quirido merece todos os elogios, em primeiro lugar porque foi terminada a toque de caixa por um grupo de sete empresários que resolveram completar a obra deixada praticamente a zero pela administração do senhor Edson Andrino" — um recorte claramente alinhado à leitura de que a gestão anterior havia abandonado a obra.

Outras notas registraram o consenso raro daquele domingo: "ninguém tinha nada a reclamar na Passarela Nego Quirido a respeito da organização do carnaval".

Na imprensa, também se registrou a cena simbólica do período: Andrino e Amin, os dois prefeitos que reivindicaram a autoria da passarela, acompanharam as escolas do mesmo camarote, "dividindo a glória do primeiro carnaval no sambódromo". A disputa de paternidade da obra — iniciada por um, concluída pelo outro — foi, ela própria, um tema da cobertura.

Entre os personagens ouvidos pela imprensa na época, destacou-se André Schmitt, entusiasta do projeto: "Vejo com satisfação esta conquista de novas definições para o carnaval de Florianópolis". Já o secretário Ênio Branco projetava o futuro com ambição comercial — transformar os 32 camarotes em "salas de aula de hotelaria", construir um centro de promoções e até instalar um circuito de Fórmula Ford e Fórmula 3 na passarela — mas admitiu: "Deficiências existem", referindo-se ao acesso ao sambódromo.

Nego Querido, com "E": a briga pela grafia e a homenagem

A imprensa da época também registrou a polêmica do nome. A passarela chegou a ser batizada em homenagem ao vice-prefeito Pedro Medeiros, mas vereadores e carnavalescos preferiram homenagear alguém ligado de fato à festa: Juventino João dos Santos Machado, o Nego Querido, sambista e fundador da escola Copa Lord, falecido pouco antes da construção.

O cronista carnavalesco Aldírio Simões publicou artigo defendendo a grafia correta — "Nego Querido, com E" — contra a forma errada que acabou consagrada no imaginário popular e, curiosamente, no nome oficial pelo qual o sambódromo é conhecido até hoje: Nego Quirido, com "I".

Epílogo: 37 anos depois, o fantasma de mais uma remoção

A passarela que nasceu de uma polêmica pode estar vivendo o início de um novo capítulo — e, de novo, com a cidade dividida. Desde 2011 circula o projeto de uma Cidade do Samba no Aterro da Via Expressa Sul, logo após o túnel Antonieta de Barros, em área pertencente à União e à UFSC. A versão atual, apresentada ao governo do Estado em março de 2026, prevê investimento de R$ 200 milhões, 10 barracões para as escolas, arquibancadas cobertas — as primeiras do país, segundo a LIESF —, museu do Carnaval, bar temático, estacionamento e uso do complexo durante o ano inteiro.

A LIESF (Liga das Escolas de Samba de Florianópolis), que lidera a proposta junto ao governo estadual, prometeu que a gestão do novo equipamento será das próprias escolas, nos moldes da LIESA carioca. "O carnaval só sai da Nego Quirido quando o projeto estiver pronto", garantiu Joel Costa Júnior, ex-presidente da Liga e atual presidente da ALIESSC. Ele reconhece, porém, o desafio: "Não tem como ter um equipamento para 70 mil pessoas sem pensar na mobilidade" — a nova área fica mais longe do Terminal Central e do coração do carnaval no Centro. "Toda mudança traz desconforto e incertezas", resume.

O debate reavivou o fantasma de mais uma remoção. Vídeos nas redes sociais afirmaram que a prefeitura "confirmou a demolição" da Nego Quirido — informação não corroborada por nenhuma fonte oficial ou jornalística: a versão do projeto de março de 2026 fala expressamente na manutenção da passarela atual, que ganharia ao lado uma estrutura nova. A Câmara Municipal, por sua vez, tramita o projeto de lei 19697/2025, que reconhece a Nego Quirido como bem de interesse histórico, cultural, desportivo e social do município — o desfile já é patrimônio cultural imaterial do Estado desde a Lei estadual 17.505/2018.

Em 2026, cada escola recebeu R$ 200 mil (de um total de R$ 2 milhões liberados pela Alesc via Fundação Catarinense de Cultura) para alugar galpões e tirar os carros alegóricos que se acumulam na passarela desde os desfiles. A expectativa da LIESF é obter as licenças ambientais ainda em 2026, iniciar as obras em 2027 e entregar o complexo em etapas.

Trinta e sete anos depois, a história se repete em estrutura: uma obra grandiosa, uma área em disputa, uma imprensa dividida entre a promessa da modernização e a desconfiança com o abandono do que já existe. Como escreveram os jornais em 1989, quando Andrino e Amin dividiram o mesmo camarote — em Florianópolis, até a passarela do samba é um palco de disputa política.

Fontes consultadas


BUENO, Renato Santiago. Samba, escolas de samba e políticas públicas na Florianópolis (1980–1989) — dissertação (UDESC), capítulo 3: "A construção da Passarela do Samba 'Nego Quirido'". Análise das matérias de O Estado (1985) e Diário Catarinense (1988–1989), com recortes do Arquivo da Biblioteca Pública do Estado de SC. Disponível em:
https://sistemabu.udesc.br/pergamumweb/vinculos/000000/000000000009/0000096B.pdf

Prefeitura de Florianópolis — Secretaria Municipal de Cultura, página oficial "Passarela Nego Quirido":
https://www.pmf.sc.gov.br/entidades/cultura/index.php?cms=passarela%20nego%20quirido&menu=9&submenuid=2107

Hemeroteca Digital Brasileira — Biblioteca Nacional:
https://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/ e coleção temática Carnaval:
https://bndigital.bn.gov.br/carnaval

Hemeroteca Digital Catarinense "João Chrysóstomo Paiva" (UDESC / Biblioteca Pública de SC):
http://hemeroteca.ciasc.sc.gov.br

ND+ — "Depois da fantasia do Carnaval, passarela Nego Quirido volta à ociosidade" (2014, com o projeto original da Cidade do Samba e declarações de Zeca Machado e Cesar Souza Júnior):
https://ndmais.com.br/cultura/depois-da-fantasia-do-carnaval-passarela-do-samba-nego-quirido-volta-a-ociosidade/

Sul 21 — "Florianópolis projeta Cidade do Samba em meio a debate sobre acesso e mobilidade" (ago/2026, com Joel Costa Júnior, Tatiana Carla de Sousa e Renann Inácio Rita):
https://sul21.com.br/noticias/santa-catarina/2026/08/florianopolis-projeta-cidade-do-samba-em-area-que-gera-debate-sobre-acesso-e-mobilidade/

Regente Imóveis / Guia de Mercado — "Passarela Nego Quirido: o que muda com a Cidade do Samba" (set/2026, versão do projeto de março/2026 e negociação do terreno com União e UFSC):
https://regenteimoveis.com.br/guia/mercado-imobiliario/passarela-nego-quirido-cidade-do-samba-2026/

Câmara Municipal de Florianópolis — Projeto de Lei nº 19697/2025 (reconhecimento da passarela como bem de interesse histórico e cultural):
https://www.cmf.sc.gov.br/proposicoes/Projetos-de-Leis-Ordinarias/2025/6/0/108873

Assembleia Legislativa de SC — Lei nº 17.505/2018 (desfile como patrimônio cultural imaterial do Estado):
https://leis.alesc.sc.gov.br/ato-normativo/20158

Arquivos audiovisuais — Desfile do GRES Consulado (1989, transmissão RCE TV):
https://www.youtube.com/watch?v=vt3CWjpv0JE | Desfile da Protegidos da Princesa (1989, transmissão RBS TV):
https://www.youtube.com/watch?v=7XC2Rjh-frA

Wikipédia — verbetes "Passarela Nego Quirido" e "Carnaval de Florianópolis" (verificação de datas e localização):
https://pt.wikipedia.org/wiki/Passarela_Nego_Quirido



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Victor Raphael
Ex-presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de Corumbá (LIESCO)