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HISTÓRIAS DO CARNAVAL DO QUARTO CENTENÁRIO


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26 de abril de 2026, nº 8

HISTÓRIAS DO CARNAVAL DO QUARTO CENTENÁRIO


Dona Ivone Lara, uma das compositoras do antológico "Os Cinco Bailes da História do Rio", que o Império Serrano cantou em 1965 - Foto: Divulgação


VI, LI OU OUVI - V

Veio o quarto centenário do Rio de Janeiro em 1965 e o estado impôs que todas as escolas desfilassem falando da cidade, mas com liberdade para em qualquer âmbito, seja histórico, cultural ou turístico.

A Unidos da Capela, uma das sementes junto a Aprendizes de Lucas a fundar a Unidos de Lucas, escolheu falar de "Rio de Ontem e de Hoje".

Os sambas foram postos em disputa com Oriesser, Tolito, Hinhá, Jorginho Pessanha, entre outros em disputa.

Antonio Alves, que foi vencedor em sua Portela em 1964, tentava o bi em 1965. Mas seu samba, numa concorrência com Ventura, Mano Décio da Viola e Monarco; Ary Guarda; Candeia e Valdir 59 (campeão); Picolino e Walter Rosa, entre outros magos, não foi muito longe e logo cortaram.

O autor portelense registrou o mesmo samba para a disputa na Unidos da Capela e lá o samba cresceu, ficou mais valente. Mesmo com os protestos dos compositores da escola, que no momento o viam como um invasor.

Numa concorrência acirrada, chegou a final contra Tolito e parceiros. A Capela deu a vitória a Antonio Alves e a escola desceu com seu samba preterido pela Portela.


VI, LI OU OUVI - VI

No quarto centenário do Rio, a Pérola da Serrinha escolheu "Os Cinco Bailes da História do Rio" como enredo, um tema rico e tradicional. A diretoria do Império Serrano não quis disputa de samba, optando que os compositores se unissem e fizessem um samba. Então Silas de Oliveira, Fuleiro, Osório de Lima, Nina Ribeiro, Airton Negão, Maneco, Hélio dos Santos, Aniceto, Campolino, Aldo Sá, Alcir Pimentel, Bacalhau e outros se uniram.

O samba foi feito com a base de Silas e todos gostaram do resultado. Menos Silas, que o achou uma colcha de retalhos, sem uma cara própria, mas aceitou. A escola divulgou a letra nos jornais, mas Silas, insatisfeito, chamou Bacalhau para recompor a obra.

Meio cismado, Bacalhau foi tentar fazer outra composição. Os dois começaram a fazer e pararam na melodia num ponto do samba. Nesse momento, Dona Ivone Lara entrou na sala onde os dois estavam e, durante a conversa, ela, que estava com seu cavaco, pediu que eles cantassem o samba. Enquanto ouvia, a compositora consertou a melodia do samba, mas eles não ficaram com a melodia na mente para passar para Dona Elaine, esposa e cantora de Silas, gravá-lo.

Silas falou com a diretoria do Império sobre o samba e cantou ao pé de ouvido dos integrantes que gostaram, levaram a quadra, mas não fixaram a melodia. O samba ficou meio capenga e só foi aceito quando Dona Ivone Lara o cantou, pois só ela tinha decorado a melodia completa. Na semana seguinte, o samba já vinha com o nome dela, assinatura que até então não havia. Fuleiro impôs com razão e todos respeitaram.

VI, LI OU OUVI - VII

Veio 1966 e com ele Júlio Mattos para a Mangueira. O carnavalesco apresentou um enredo sobre Heitor Villa-Lobos, que ele já tinha apresentado na Paraíso do Tuiuti em 1960.

Villa-Lobos seria algo diferente para a ala, algo para explorar o talento de uma ala que mesclava seus integrantes. Não era mais só o morro e sim a cidade. Eram do morro: Pelado, Cícero, Nelson Sargento, Marreta, Jorge Zagaia, Padeirinho, Leleu, Hélio Turco, Ney João, Geraldo das Neves, Jurandyr e Tantinho. Do asfalto: Comprido, Darcy da Mangueira, Hélio Cabral, Brogogério, Preto Rico, entre outros muitos. A ala cresceu e aconteceu.

A Manga ficou tão em voga que fizeram um LP com os sambas da disputa para seu Villa-Lobos.

Jurandyr, desde quando foi aconselhado por Cartola, nunca mais deixou de concorrer. Mas Pelado, Comprido e Hélio Turco desde 1957 eram os inimigos a serem derrotados. Afinal, unidos ou separados, eles não perdiam. Pelado, de 1952 até 1966, só perdeu cinco vezes.

Os sambas estavam no terreiro e despontam os do trio Pelado, Turco e Comprido; Jurandyr e Cláudio; e Sargento e Marreta.

A disputa era comentário geral no mundo do samba, afinal estava pegando fogo.

Hélio Turco não estava satisfeito com o andamento da disputa, pois achava que a diretoria estava fazendo lobby para o samba de Jurandyr e Cláudio. Será que o trio perderia? À boca miúda a ala torcia, mas a verdade era uma: os sambas estavam em força reconhecida de talentos mil.

Numa reunião dos compositores, Hélio Turco, prevendo a derrota, retirou o samba sem o consentimento dos parceiros Comprido e Pelado, que não estavam na reunião. O comentário foi um só: ele estava com medo de perder. Os parceiros, quando souberam, se revoltaram, tentaram repor o samba na disputa sem êxito e acabaram com a parceria com Hélio Turco.

Na final, deu o que se via como óbvio. Jurandyr e Cláudio campeões do Villa-Lobos mangueirense de 1966.


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André Poesia
Compositor, assina os sambas de Independentes de Cordovil em 1993 e 1995, além de ter disputado concursos de sambas-enredo oficialmente em Santa Cruz, Tupy de Brás de Pina, Unidos de Lucas e Imperatriz Leopoldinense