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nº 76 TOP 10 SAMBARIO - ESSÊNCIA POÉTICA DAS HOMENAGENS - PARTE 2
Salve, salve, senhoras, senhores e povão carnavalesco! O carnaval de 2026 do Rio de Janeiro está sendo apelidado de “o Carnaval das Homenagens” devido ao grande número de enredos dedicados a personalidades importantes da cultura e da história do Brasil. Entre as homenagens confirmadas no Grupo Especial estão Rita Lee (Mocidade Independente), Ney Matogrosso (Imperatriz Leopoldinense), Carolina Maria de Jesus (Unidos da Tijuca), Heitor dos Prazeres (Vila Isabel), Rosa Magalhães (Salgueiro) e Príncipe Custódio (Portela). A Série Ouro também não fica atrás, com exaltações a Xande de Pilares (Jacarezinho), Leci Brandão (Bangu), Burle Marx (Botafogo Samba Clube), Tata Tancredo (Estácio de Sá) e Conceição Evaristo (Império Serrano).
O fato de a Beija-Flor ter conquistado o carnaval de 2025 com uma homenagem ao eterno diretor de harmonia Laíla pode ter influenciado na escolha de várias escolas em louvar as personalidades brasileiras. Na coluna 67, escrevi um Top 10 Sambario dos sambas enredo que foram poéticos e captaram a essência dos homenageados não sendo meros “copia-e-cola” e nem se restringiu ao confortável recurso de descrever suas timelines. Vamos agora à segunda parte desta série de sambas que não se limitaram a ser uma colcha de retalhos descritiva de referência às obras dos homenageados. Confira: 10º lugar: CHICO BUARQUE – UNIDOS DO CABUÇU (1970) e ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA (1998)
Chico Buarque, acompanhado de Marieta Severo (de óculos escuros) e da filha Silvia (no colo), no desembarque do Galeão em 1970. Crédito: Folhapress.
Chico Buarque deve ser uma das primeiras personalidades culturais a receber homenagem em vida no carnaval. Desde muito jovem, Chico conquistou reconhecimento de crítica e público tão logo os primeiros trabalhos foram apresentados. Tornou-se um consagrado artista na segunda metade dos anos 60, participando (e saindo vitorioso) de vários festivais da canção popular. Autoexilou-se na Itália em 1969, devido à crescente repressão do regime militar do Brasil nos chamados “anos de chumbo”, tornando-se, ao retornar, em 1970, um dos artistas mais ativos na crítica política e na luta pela democratização no país. No mesmo ano, o cantor dos olhos cor de ardósia foi homenageado pela Unidos do Cabuçu, que desfilou com o enredo “As Musas de Chico Buarque de Hollanda”. O mote eram mulheres que serviram de inspiração para canções como “A Banda”, “Januária”, “A Rita”, “Será que Cristina Volta” e “Carolina”. O homenageado não desfilou com a escola e a azul e branco terminou em 11º lugar no Grupo 2. Historiando a vida de um compositor Dos nomes idos hoje é o sucessor Chico Buarque de Holanda Músico, poeta e cantor Em seu mundo de talento e poesia De cadenciada melodia Revivendo o cancioneiro Dando novo raio de luz (Iba Nunes e Jorival de Moraes)
Vinte e oito anos depois, Chico era homenageado na Marquês de Sapucaí pela Mangueira, junto à velha guarda da escola, com os baluartes Carlos Cachaça, Dona Zica, Dona Neuma e Serginho do Pandeiro. A verde e rosa se sagrou campeã naquele ano, empatada com a Beija-Flor.
É o Chico das artes... O gênio Poeta Buarque... Boêmio (bis) A vida no palco, teatro, cinema Malandro sambista, carioca da gema (Nelson Dalla Rosa, Vilas Boas, Nelson Csipai e Carlinhos das Camisas)
Homenageado em 1998, Chico Buarque desfila ao lado de Carlos Cachaça (sentado) e Nelson Sargento no carro alegórico destinado aos baluartes da Mangueira. Crédito: Ivo Gonzalez | Agência O Globo
9º lugar: ENEIDA – SALGUEIRO e IMPÉRIO DE SAMBA QUEM SÃO ELES (1973) / TUIUTI (1990 e 2010)
Eneida de Moraes, uma figura central para a compreensão da cultura popular, sendo pioneira ao registrar a memória da nossa maior festa no livro "História do Carnaval Carioca" (1958).
Eneida de Moraes (1904 - 1971), uma escritora, jornalista e militante paraense que marcou a literatura, a política e o Carnaval brasileiro. Autora de 11 livros, destacou-se pelas crônicas que exaltavam a cultura popular e defendiam um Brasil mais justo. Ativista cultural, criadora do tradicional Baile do Pierrot, no Rio de Janeiro e em Belém, baile carnavalesco que durou de 1958 a 1968, ela também foi jurada de desfiles de escolas de samba.
Eneida no Baile dos Pierrôs, com Fernando Pamplona (de camisa escura), e abraçado a ela o filho Octávio de Moraes. Foto provavelmente de 1965.
Primeira intelectual a escrever uma obra de fôlego sobre a festa, com “História do Carnaval Carioca” (1958), referência até hoje ao definir categorias como cordões, ranchos e sociedades, e que serviu de inspiração para Fernando Pamplona (1926 - 2013) e Arlindo Rodrigues (1931 - 1987) criarem o enredo da Acadêmicos do Salgueiro no carnaval do Quarto Centenário da cidade do Rio de Janeiro, em 1965. Ela própria desfilou pela escola, na ala dos pierrôs.
Salgueiro, campeão do 4º Centenário, com “História do Carnaval Carioca” (1965), enredo inspirado na obra de Eneida.
Em 1967, Eneida também desfilaria na recém-criada Banda de Ipanema (1965), sendo antecedida no posto de rainha por Leila Diniz (1945 - 1972). Comunista e feminista, enfrentou prisões durante o Estado Novo por sua atuação política. Amiga de grandes modernistas, incentivou novos escritores e rompeu barreiras para a afirmação da mulher como intelectual. Sua obra segue atual, viva e essencial para compreender o Carnaval e a cultura brasileira. Em 1973, os carnavalescos Joãosinho Trinta (1933 - 2011) e Maria Augusta (1942 - 2025) desenvolvem o carnaval do Salgueiro baseado na tríade “Eneida, Amor e Fantasia”. A vermelho e branco fica em terceiro lugar no desfile.
Os pierrôs salgueirenses de “Eneida, Amor e Fantasia” e a decoração da Av. Presidente Vargas ao fundo, imagem nostálgica do Carnaval de 1973. Crédito: Acervo Tantos Carnavais | Marcelo Guireli. . Expoente jornalista Suas crônicas são imortais Foi amiga dos sambistas Fato que não esquecemos jamais (coração) Coração puro e nobre, foi benquista Entre ricos e pobres É famoso o seu Baile do Pierrô Onde a Colombina procura o seu amor A escritora de lirismo invulgar Enriqueceu o folclore nacional Hoje o mundo a conhece Através da história do carnaval (Geraldo Babão e Valdevino Rocha)
As escolas de samba Império de Samba Quem São Eles (a Quenzão, de Belém-PA), também em 1973, com o tema “Eneida Sempre Amor”, e Paraíso do Tuiuti em duas ocasiões: uma em 1990 e outra em 2010, com o título “Eneida, o Pierrot Está de Volta”, mas, em ambas as ocasiões, com sambas distintos, também prestaram homenagens à jornalista no carnaval.
Com dez metros de saudade Fiz a minha fantasia Vai um guiso de tristeza Na camisa da alegria Quem São Eles, quem foi ela? Que a voz do povo anuncia? Eneida segue livre Eneida segue flor Eneida segue viva Eneida sempre amor (Simão Jatene e João de Jesus Paes Loureiro)
É carnaval, é alegria É manifestação popular A emoção que alegra a vida Folclore e fantasia O povo quer cantar Eneida, O seu amor foi carnaval E na arte e na cultura Marco da literatura foi sem igual Deslumbrando as escolas de samba Raízes de gente bamba Que faz a passarela delirar (Aldir, Parim, Jorge Neguinho e Fernando Jota)
Guerreira mulher Um marco na história Estrela em meus versos vou dizer Seu brilho está guardado na memória Quis assim um deus menino Ao traçar o seu destino Contar o que o tempo não levou (Aníbal, Júnior Fionda, Luís Caxias, Marcio de Campos Novos, Reza e Ceí)
8º lugar: DALVA DE OLIVEIRA – ACADÊMICOS DE SANTA CRUZ e UNIÃO DE JACAREPAGUÁ (1974) / IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE (1987)
Dalva de Oliveira, o “rouxinol da canção brasileira”, em foto de 1955, em seu auge da Era do Rádio.
Dalva de Oliveira (1917–1972) foi uma das vozes mais marcantes da música brasileira no século XX, consagrada como a “Rainha da Voz”. Com interpretações potentes e emocionantes, tornou-se ícone da era do rádio nas décadas de 1940 e 1950, com sucessos como “Bandeira Branca”, “Ave Maria do Morro” e “Tudo Acabado”.
Dalva de Oliveira no filme brasileiro “Tudo Azul” (1952), dirigido por Moacyr Fenelon, onde ela aparece em uma cena memorável com integrantes do Império Serrano, cantando “Estrela do Mar”. Reprodução | YouTube.
Após o fim do casamento com o cantor e compositor Herivelto Martins, em 1949, consolidou uma carreira solo de enorme relevância. Nesse período, escolheu Jacarepaguá, na Praça Seca, como refúgio pessoal, onde viveu momentos importantes de sua trajetória. A região foi um polo de artistas nos anos dourados da música e da televisão. Em 1974, dois anos após sua morte, duas escolas de cores verde e branco da Zona Oeste e que estavam no Segundo Grupo homenagearam sua ilustre moradora. A Acadêmicos de Santa Cruz prestou-lhe um tributo com o enredo “O Rouxinol da Canção Brasileira”, um lindo samba lírico, poético e sem refrão, que rendeu o 8º lugar.
Minha alma chora, senhora, Vem ficar de fora é hora, Madrugada chegando, Não pode mais ficar Tenho dor no peito, agora, Mas não tem direito Senhora, vá embora em paz, O céu é teu lugar (Luiz e Waldir Cruz)
No mesmo ano, outra “arroz com couve” da região também louvou a cantora: a União de Jacarepaguá obteve a nona colocação com “Bandeira Branca – Homenagem a Dalva de Oliveira”, um samba de letra curta, mas direta no recado.
Vindo para o Rio de Janeiro A estrela de Dalva brilhou Sua voz de ouro e canto brejeiro Pelo mundo inteiro excursionou Teatro, rádio e televisão A rainha da voz era sensação Como lembramos tempos atrás As marchas dos passados carnavais (Jorge Lucas e Waldeir)
No Carnaval de 1987, a Imperatriz Leopoldinense transformou a Sapucaí em um palco para exaltar a trajetória de Dalva de Oliveira com o enredo “Estrela Dalva” – quem sabe uma “resposta” ao enredo da Unidos da Ponte, no ano anterior, quando a escola de São João do Meriti homenageou o compositor Herivelto Martins, com quem a diva foi casada. Sob a batuta magistral do carnavalesco Arlindo Rodrigues, em seu último trabalho na escola, a narrativa visual inovou ao utilizar a estética das histórias em quadrinhos em suas alegorias. Um dos momentos mais emblemáticos foi a comissão de frente, que reuniu a realeza da música brasileira, com nomes como Beth Carvalho, Alcione, Ellen de Lima e Elizeth Cardoso em um preito inesquecível à Rainha do Rádio.
Oh! Saudade, ô Hoje você é Carnaval No palco do amor O teu papel é o esplendor, ô ô A Estrela Dalva brilha E ilumina o meu cantar É a luz, é a poesia É a vontade de cantar (Zé Catimba, Niltinho Tristeza, Bil Amizade e Guga)
7º lugar: HERIVELTO MARTINS – UNIDOS DA PONTE (1986)
Herivelto Martins, deixou uma marca revolucionária no Carnaval: coautor de “Praça Onze”, transformou o protesto das escolas de samba em poesia, lutando contra a destruição de seu solo sagrado. O compositor também inovou ao introduzir o apito como instrumento rítmico nas gravações, dando nova textura ao samba de terreiro.
Herivelto Martins (1912 - 1992) foi um dos maiores compositores da música brasileira, autor de mais de 700 canções e figura central da era do rádio, entre as décadas de 1930 e 1940. Autodidata, oriundo das camadas populares, ajudou a moldar a identidade musical do país ao lado de nomes como Pixinguinha e Noel Rosa. Sua trajetória se confunde com a história do Carnaval, desde a convivência com sambistas do Estácio até a criação de sambas marcantes. Ao lado de Dalva de Oliveira e Nilo Chagas, formou o consagrado Trio de Ouro, presença constante nos cassinos, rádios e gravações carnavalescas. Em 1942, lançou com Grande Otelo (outro homenageado que vamos falar em seguida) o samba “Praça Onze”, hino de protesto contra a destruição do principal reduto do samba carioca e dos desfiles de Carnaval. A obra inovou ao incorporar o apito como elemento rítmico. Herivelto também foi dirigente sindical, lutando pelos direitos autorais dos compositores. Em 1986 foi homenageado pela Unidos da Ponte com o enredo “Tá na Hora do Samba, Que Fala mais Alto, Que Fala Primeiro”, referência ao grito de guerra de Herivelto à frente de sua escola de samba de salão, outra inovação muito copiada depois, que consistia em levar para os palcos passistas e ritmistas das escolas, no que hoje se chamaria de pocket show. A Ponte abriu o desfile do Grupo Especial na noite de domingo. O amigo e parceiro Grande Otelo só não participou porque receberia homenagem semelhante da Estácio de Sá, que entraria na avenida imediatamente a seguir. O samba foi composto por David Corrêa, que não assinou o samba e creditou a autoria à sua filha Denise.
Hoje sou luz ao luar Verso que a Ponte seduzia Vento de marola vim contar Meu canto brinquei de Bahia Um bolero envolvente Gardel num tango a cantar Sou eu, sou eu, ribalta Que no tempo ficou Sou eu de volta à boemia Minha Mangueira, amor (David Corrêa, Grilo, Freitas, Dilsinho e Denise Corrêa)
Autor de mais de 700 canções, Herivelto Martins recebe homenagem no desfile da Unidos da Ponte, em 1986. Crédito: Folha da Tarde | Acervo.
6º lugar: GRANDE OTELO – ESTÁCIO DE SÁ (1986)
Grande Otelo em cena no filme “Rio Zona Norte” (1957), de Nelson Pereira dos Santos.
O “pequeno notável” Grande Otelo (1915 – 1993) já havia sido ovacionado na Sapucaí no carnaval de 1983, no enredo “A Grande Constelação das Estrelas Negras”, homenagem coletiva feita pela Beija-Flor a várias personalidades negras do país. Otelo foi descrito como “homem-show, com talento e que dava olé”. Em 1986, a Estácio de Sá levou para a passarela um tributo solo ao artista Sebastião Prata, sob a assinatura do carnavalesco estreante Oswaldo Jardim (1960 - 2003). O desfile foi marcado por um profundo sentimento de luto, devido ao assassinato do presidente Antônio Gentil poucos meses antes, lembrado logo no início do cortejo. Superando a dor, a escola apresentou soluções criativas, como uma comissão de frente composta por meninos negros que dividiam a mesma estatura do artista – 1m58. A narrativa percorreu as raízes mineiras e africanas de Otelo, além de exaltar sua passagem pelo circo, pelo Cassino da Urca e sua imortal atuação como Macunaíma no cinema. No auge da apresentação, o próprio homenageado desfilou em uma alegoria que reproduzia a casa de shows Scala, acompanhado por mulatas. A condução musical ficou a cargo de Dominguinhos do Estácio, que deu voz ao samba “Prata da Noite”, uma obra que equilibrava valentia e saudade.
Grande Otelo (de branco) na alegoria que representava a boate Scala, de propriedade do empresário espanhol Chico Recarey (à direita). Crédito: Sebastião Marinho | O Dia.
Apesar do impacto visual e da força do enredo, a agremiação terminou na 10ª colocação, um resultado que não refletiu a expectativa da comunidade e o vigor artístico daquele projeto.
Seu nome criou fama Seu talento corre chão Construindo seu castelo Vem surgindo Grande Otelo O rei da ilusão (Darcy do Nascimento e Dominguinhos do Estácio)
5º lugar: VINÍCIUS DE MORAES – UNIDOS DE LUCAS (1987) e UNIÃO DA ILHA DO GOVERNADOR (2013)
Graças a um “porre dionisíaco”, o Poetinha não compareceu ao batismo da Unidos de Lucas, escola que o convidou para ser o padrinho, juntamente com a cantora Elizeth Cardoso.
Em 1987, a Unidos de Lucas entrou para a história do Grupo de Acesso ao apresentar um dos sambas-enredo mais marcantes da década de 1980. A escola levou para a Avenida um tributo ao poeta Vinícius de Moraes (1913 - 1980), exaltando sua obra e sua ligação com a música brasileira. Vinícius foi um dos maiores nomes da cultura brasileira, atuando como poeta, dramaturgo, compositor, diplomata e jornalista. Essencialmente lírico, ganhou o apelido de “Poetinha” e construiu uma obra marcante na literatura e na música, com parcerias históricas com Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell, João Gilberto, Chico Buarque e Carlos Lyra. Boêmio assumido, teve uma vida intensa e se casou nove vezes. Com o enredo “Olha que Coisa Mais Linda, Mais Cheia de Graça”, o Galo de Ouro da Leopoldina apostou em um samba à altura do homenageado. A composição foi assinada por Geraldo Santa Rita, Gustavo e Antônio Gaúcho, com interpretação de Cosmar e cacos (gritos de empolgação) de Adilson Quirino, recurso comum na época. O samba se destacou pela linha melódica refinada e grande apelo popular. O desfile foi amplamente elogiado por comentaristas de carnaval e permanece na memória como inesquecível.
Em 1987, a Unidos de Lucas protagonizou um dos momentos mais marcantes do Grupo de Acesso ao apresentar um tributo a Vinícius de Moraes.
No Carnaval, Vinícius manteve forte ligação com a Unidos de Lucas (fundada em 1966), sendo cogitado como padrinho da escola ao lado de Elizeth Cardoso (1920 - 1990). Graças a um porre dionisíaco que prejudicou o poeta, o batismo não se concretizou, e o posto acabou assumido por Hermínio Bello de Carvalho. Elizeth Cardoso, cantora refinada e referência no samba-canção e na bossa nova, tornou-se madrinha da escola em 1968. Ambos foram homenageados pela agremiação: a “Divina” em 1974 e o Poetinha em 1987.
Olha que coisa mais linda Mais cheia de graça Quanta imaginação A beleza, a poesia Cantada em forma de canção Sensível para o clássico e o popular O piano, o bar, a esquina E o papo com as meninas à beira-mar (Geraldo Santa Rita, Gustavo e Antônio Gaúcho)
Vinícius de Moraes, profundamente ligado ao samba e ao Carnaval, voltou a ser homenageado anos depois, pela União da Ilha, em 2013, no centenário de seu nascimento.
Logo do enredo da União da Ilha para o carnaval 2013.
Surgiu, ao som do mar, um poeta Que brincava na areia Na Ilha um menino, sempre a sonhar Fez da sua vida um poema Como é bom se apaixonar (Ginho, Júnior, Vinícius do Cavaco, Eduardo Conti, Professor Hugo e Jair Turra)
4º lugar: SINHÔ – IMPÉRIO DA TIJUCA (1988)
José Barbosa da Silva, o Sinhô, um dos pilares do samba carioca.
José Barbosa da Silva, o Sinhô (1888 - 1930), foi um dos principais compositores populares da década de 1920 e figura central na consolidação do samba carioca. Pianista, flautista e violonista, ganhou o título simbólico de “Rei do Samba” pela influência e popularidade de suas obras. Polêmico e irreverente, foi padrinho musical de nomes como Mário Reis, Francisco Alves e Aracy Cortes. Atuou intensamente no Carnaval, compondo sambas e marchas que marcaram a festa nas primeiras décadas do século XX. Frequentador assíduo da casa de Tia Ciata, participou do núcleo fundador do samba urbano no Rio de Janeiro. Envolveu-se na histórica polêmica do samba “Pelo telefone” (1917), contestando a autoria registrada por Donga, o que gerou uma série de sambas de provocação entre os compositores da época. Sua veia satírica rendeu sucessos carnavalescos, mas também problemas políticos. No Carnaval, destacou-se com obras como “Quem são eles”, “Fala meu louro”, “Confessa meu bem” e “Gosto que me enrosco”. Fundou o rancho Ameno Resedá e participou ativamente das festas carnavalescas. Morreu em 1930, pobre, mas deixou um legado fundamental para o samba.
No ano do centenário da Abolição, a verde e branco do Morro da Formiga homenageou os 100 anos de nascimento do Rei do Samba.
O legado de Sinhô foi imortalizado na Marquês de Sapucaí pela Império da Tijuca em 1988, ano do centenário da abolição da escravatura e do nascimento do artista. Com o enredo “Nosso Sinhô, o Rei do Samba”, a escola do Morro da Formiga resgatou sua história desde o nascimento na Lapa até sua paixão pela malandragem e pelas festividades carnavalescas. O desfile, desenvolvido pelos carnavalescos José Félix e Darcy Giorno, garantiu à agremiação a 4ª colocação no Grupo de Acesso, reafirmando a importância do “Pé de Anjo” para as novas gerações de sambistas. No carro de som, a Imperinho colocou as vozes de Hamilton Vital (microfone principal) com o apoio de Rico Medeiros, Pedrinho da Flor, Alcir de Paula, e a voz infantil de Bruninho (na época com 11 anos), filho de Jorge Bellandi, um dos compositores dos sambas tijucanos de 1986 e 1987.
Ressoam os atabaques para festejar O centenário da escravatura Que a Lei Áurea A princesa veio comum Em 1888, quando O negro se libertou Nascia nesta data José Barbosa da Silva, “O Sinhô" (Eddie, Paulo Curupira e Alcir de Paula)
3º lugar: ATAULFO ALVES – ROSAS DE OURO (1977) / LUCAS (1988)
Elegante e musicalmente sofisticado: assim era o “Poeta de Miraí”.
Ataulfo Alves (1909 – 1969), um dos grandes compositores e cantores de samba da música brasileira, nasceu em Miraí, na Zona da Mata de Minas Gerais, e desde cedo demonstrou sua veia poética. Após uma infância humilde no interior, mudou-se para o Rio de Janeiro aos 18 anos, onde consolidou sua carreira musical tocando violão, cavaquinho e bandolim. Sua trajetória artística deslanchou na década de 30, quando Almirante e Carmen Miranda gravaram suas primeiras composições, abrindo caminho para uma obra vasta com mais de 320 canções interpretadas por ícones como Clara Nunes e MPB-4. No universo do Carnaval, Ataulfo iniciou sua caminhada como diretor de harmonia do bloco “Fale Quem Quiser”. Sua história de vida e obra renderam homenagens marcantes nas avenidas. Em 1977, a Rosas de Ouro, em São Paulo, conquistou o 4º lugar com o enredo “O Poeta de Miraí”. O samba-enredo dessa ocasião, que pedia “nada de um minuto de silêncio” em favor do canto, tornou-se a canção favorita do fundador da escola, Eduardo Basílio (1933 - 2003), e foi eternizada na voz de Jair Rodrigues. Confira o samba na interpretação de Royce do Cavaco, intérprete histórico da “Roseira”. Nada de um minuto de silêncio Vamos cantar por aí Rosas de ouro com saudade apresenta O poeta de Miraí É Ataulfo Alves Saudoso compositor Sua voz emudeceu Nós cantaremos em seu louvor Leva meu samba Neste colorido sem igual Numa cadência de bamba Recordando o poeta imortal (Zeca da Casa Verde)
Na Sapucaí, a Unidos de Lucas celebrou o compositor em 1988, no Grupo de Acesso, com o enredo “Na Ginga do Samba, Aí Vem Ataulfo”. O desfile foi marcado por forte emoção e pela presença da viúva e dos filhos do artista. Entre eles estava Ataulfo Alves Júnior (1943 – 2017), que seguiu os passos do pai na música. Sob o comando dos carnavalescos Ney Roriz, Sid Camilo e Sancler Boiron, o “Galo de Ouro da Leopoldina” alcançou a 3ª colocação, reafirmando a importância de Ataulfo como um dos grandes pilares da identidade do samba e da cultura nacional.
Ataulfo Alves, poeta Que a musa iluminou Receba do Galo de Ouro Nossa homenagem Pelas obras que deixou "Na ginga do samba" Lucas vem assim Acenando lenços brancos Saravá Pai Joaquim (Barcelos, Dagoberto e Zeca Melodia)
2º lugar: CLEMENTINA DE JESUS – LINS IMPERIAL (1982)
Rainha Quelé, verdadeira força da natureza e uma das mais potentes vozes da cultura negra e do samba brasileiro.
A cantora Clementina de Jesus (1901 - 1987), a eterna “Rainha Quelé”, foi uma das vozes mais potentes da cultura negra e do samba brasileiro. Neta de escravizados, ela cresceu no subúrbio de Oswaldo Cruz, no Rio, absorvendo jongos, ladainhas e partidos-altos com sua mãe. Sua trajetória carnavalesca começou cedo em blocos de subúrbio, como o Moreninha das Campinas, antes de se tornar figura marcante na Portela e, mais tarde, na Mangueira. Trabalhou como doméstica por décadas, vindo a brilhar nos palcos apenas após os 60 anos, descoberta por Hermínio Bello de Carvalho no icônico restaurante Zicartola. Sua estreia profissional ocorreu em 1964, consolidando-se no antológico show "Rosa de Ouro" ao lado de Paulinho da Viola e Nelson Sargento. Clementina levou a essência do samba rural e dos cantos de trabalho para o mundo, sendo ovacionada em festivais na França e no Senegal. Ao longo da carreira, gravou com expoentes como Pixinguinha, João da Baiana, Clara Nunes e Milton Nascimento, tornando-se um elo fundamental entre a tradição oral e a música popular moderna. Mesmo com o reconhecimento tardio e dificuldades financeiras, sua voz ancestral e sua maestria no partido-alto deixaram um legado imensurável. A nossa Rainha Ginga permanece como um símbolo de resistência e a alma das rodas de samba de todo o país.
“Taí Clementina / eterna menina / que hoje é Rainha pra gente exaltar...” desfilando pela Mangueira em foto de 1970.
No Carnaval, sua grandeza foi imortalizada em enredos memoráveis. Em 1983, a Beija-Flor de Nilópolis a destacou no enredo “A Grande Constelação das Estrelas Negras”. No ano anterior, a Lins Imperial a homenageou com “Clementina, uma Rainha Negra”, de autoria do carnavalesco José Félix. Este enredo, aliás, tem uma sacada incrível: começa narrando a chegada do povo negro escravizado em solo brasileiro e toda a contribuição cultural e os ritmos que as nações africanas trouxeram ao país (caxambu, jongo, lundu, afoxé, candomblé e o samba). Em seguida fazia referência a uma festa, que reproduzia o cortejo da Rainha Negra, simbolizando a nobreza daqueles povos. E finaliza exaltando e coroando Clementina como a “rainha negra do Brasil”. A verde e rosa de Lins de Vasconcellos obteve a 7ª colocada no Grupo 1B.
Clementina de Jesus Com seu porte e sua graça Simboliza a rainha E a grandeza dessa raça Ela hoje vai reinar E nós vamos vadiar Lá vem Clementina Que a todos fascina Que canta e encanta os momentos felizes Lá vem Clementina Que mostra, que ensina A cultura negra e suas raízes Taí Clementina Eterna menina Que hoje é Rainha pra gente exaltar A Rainha Negra de todos os tempos Que até o próprio tempo A quer conservar (Tibúrcio, Antero e João Banana)
1º lugar: LUIZ GONZAGA – LUCAS (1982)
O Rei do Baião inspirou um samba antológico do Galo de Ouro. Crédito da foto: Luiz Alfredo | O Cruzeiro | EM | D.A Press - 17/08/1956).
Olha a Unidos de Lucas novamente aí! O Galo de Ouro homenageou Luiz Gonzaga (1912–1989), o Rei do Baião, no Carnaval de 1982 com o enredo “Lua Viajante”, de autoria de Carlinhos D’Andrade e desenvolvido pelo próprio Carlinhos e pelo carnavalesco Roberto Costa – a dupla, anos mais tarde, faria história com os enredos críticos e irreverentes da São Clemente. O sanfoneiro de Exu (PE) participou do desfile, integrando a comissão de frente com gibão, chapéu de couro e sanfona, em um momento simbólico e marcante. Um dos grandes destaques da escola, então no Grupo de Acesso, foi o samba-enredo, vencedor do Estandarte de Ouro do Jornal O Globo como melhor samba do grupo. A obra foi composta por Zeca Melodia, Dagoberto de Lucas e Dona Gertrudes, com interpretação de Abílio Martins. A gravação contou com a participação especial do próprio Gonzagão, que aprovava os versos durante a execução e encerrou cantando o refrão acompanhado de sua sanfona. O desfile ocorreu em uma Marquês de Sapucaí esvaziada, mas foi considerado digno e correto, com forte valorização da trajetória do homenageado. Exu, cidade natal de Gonzaga, foi lembrada em alegoria dourada, e a narrativa destacou sua consagração no Rio de Janeiro.
O Velho Lua foi o enredo da Unidos de Lucas em 1982.
Apesar do bom desempenho e do samba antológico, a escola terminou em 5º lugar no Grupo 1B, prejudicada por figurinos frágeis e pouco entusiasmo do conjunto.
A força dessa homenagem foi tamanha que a escola decidiu reeditar o enredo “Lua Viajante” no Carnaval de 2006.
Somente as dádivas do céu Poderiam ofertar tanta grandeza Aquela terra iluminada pela própria natureza Em Exu, madrugada linda! O vento soprou pro mar Ao ver Zelação passar Januário delirou (e delirou) Rogando uma boa sorte Prum cabra-macho do norte Sanfoneiro e cantador (Zeca Melodia, Dagoberto de Lucas e Dona Gertrudes)
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Gerson
Brisolara (Rixxa Jr.)
Jornalista, comentarista carnavalesco e colaborador do SAMBARIO desde 2004 rixxajr@yahoo.com.br |
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