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A SAPUCAÍ DO POVO: DARCY RIBEIRO, O SAMBÓDROMO E A LINGUAGEM POPULAR DE O DIA





28 de dezembro de 2025, nº 19

Antes de começar efetivamente o texto, é importante salientar que O Dia já ocupava um lugar muito específico no ecossistema da imprensa carioca. Diferente dos grandes jornais voltados às elites políticas e intelectuais, o periódico se afirmava como um veículo de linguagem direta, popular, atento ao cotidiano do trabalhador urbano, ao impacto imediato das decisões do poder público e à forma como essas decisões reverberavam na vida prática da cidade. Foi exatamente esse olhar — popular, pragmático e frequentemente desconfiado das narrativas oficiais — que moldou a forma como o jornal acompanhou a criação do Sambódromo da Marquês de Sapucaí.

Desde os primeiros textos publicados em 1983, nos quais a chamada “Passarela do Samba” aparecia ainda como projeto, O Dia fez questão de traduzir a iniciativa em termos compreensíveis ao seu leitor médio. As matérias evitavam o jargão técnico da arquitetura e do urbanismo e apostavam numa explicação concreta: quanto custaria, onde ficaria, o que mudaria no Carnaval e, sobretudo, quem ganhava e quem perdia com a obra. Nesse enquadramento, a figura de Darcy Ribeiro emergia com força. Não como intelectual abstrato ou formulador distante, mas como personagem central de uma ideia apresentada reiteradamente como “popular” e “voltada para o samba”.

Nos textos de 1983 e 1984, a imagem de Darcy aparece quase sempre associado a declarações curtas, diretas e de fácil assimilação. Em vez de longas digressões teóricas, o jornal privilegiava frases de impacto. Em uma das matérias daquele período, ele é apresentado como o homem que defendia que “o samba precisava de uma casa para o povo". A escolha dessa formulação não é casual: ela dialoga diretamente com a essência do próprio jornal, que historicamente se colocava como porta-voz do “povão” diante do Estado.

Essa sintonia entre personagem e veículo se acentua à medida que a obra avança. Enquanto outros jornais destacavam a assinatura de Oscar Niemeyer como símbolo de monumentalidade e prestígio, O Dia deslocava o foco para Darcy Ribeiro como “o homem da ideia”, aquele que defendia o Sambódromo como espaço permanente de cultura popular. Em textos publicados às vésperas da inauguração, Darcy surge defendendo que o equipamento não deveria servir apenas ao Carnaval, mas funcionar como escola, centro cultural e palco de manifestações populares ao longo do ano. O jornal reproduz essas falas com evidente simpatia, reforçando o caráter social e educativo do projeto.

A linguagem empregada nessas matérias reforça o vínculo com o leitor. Os textos de O Dia não falam de “equipamento cultural multiuso”, mas de “um espaço que vai dar dignidade ao desfile”. Não descrevem “reordenamento urbano”, mas “o fim da bagunça das arquibancadas improvisadas”. Essa escolha vocabular, perceptível  sobretudo em 1984, não apenas informa, mas constrói uma narrativa na qual o Sambódromo aparece como conquista concreta do povo do samba, e Darcy Ribeiro como seu principal defensor intelectual e político.

O tom popularesco do jornal também se manifesta na forma como as controvérsias são tratadas. Quando surgem críticas aos custos da obra ou aos transtornos causados à Cidade Nova, o jornal não as ignora, mas as traduz em perguntas diretas: “Vai dar tempo?”, “Vai funcionar?”, “Quem paga a conta?”. Em meio a essas dúvidas, o então vice-governador aparece frequentemente respondendo, garantindo que a obra seria entregue e insistindo que o investimento se justificava pelo valor cultural do Carnaval. O jornal reproduz essas respostas em linguagem acessível, quase coloquial, reforçando a ideia de um debate público travado em termos compreensíveis para o cidadão comum.

Durante o Carnaval de 1984, essa correlação entre projeto, personagem e linguagem atinge seu ápice. Na cobertura dos desfiles inaugurais, O Dia descreve a Sapucaí com os olhos do público: o tamanho da pista, a visão das arquibancadas, o comportamento da multidão. Em meio a relatos de atrasos e falhas operacionais, Darcy volta a ser citado como alguém que “pediu paciência” e lembrou que “toda casa nova precisa de ajuste”. Mais uma vez, o jornal opta por registrar a fala simples, quase doméstica, que humaniza o projeto e aproxima o leitor de seus formuladores.

No pós-Carnaval, os textos de balanço publicados reforçam essa leitura. O Sambódromo é apresentado como obra ainda imperfeita, mas necessária. E o vice de Brizola surge como figura que encarna a defesa do Carnaval como expressão popular legítima, em oposição a leituras mais elitizadas ou mercadológicas do espetáculo. A linguagem do jornal segue fiel ao seu perfil: frases curtas, afirmações diretas, pouca abstração e muita atenção ao efeito concreto da obra sobre o desfile e sobre o público.

Podemos concluir que a cobertura do Sambódromo não foi apenas informativa, mas também identitária. Ao enfatizar Darcy Ribeiro como intelectual do povo e ao adotar uma linguagem próxima do cotidiano do leitor, o jornal construiu uma narrativa em que a Sapucaí aparecia como extensão natural do samba de rua, agora organizado em concreto, arquibancada e cronômetro. Não se tratava apenas de noticiar uma obra pública, mas de enquadrá-la dentro de um universo simbólico no qual o Carnaval era, acima de tudo, patrimônio popular.

Nesse sentido, a estratégia de linguagem de O Dia — popularesca, direta, muitas vezes emotiva — não foi mero estilo, mas parte integrante da forma como o Sambódromo foi apresentado à cidade. Ao associar a figura de Darcy à defesa do samba como expressão do povo, o jornal reforçou sua própria identidade editorial e ajudou a consolidar, no imaginário de seus leitores, a ideia de que a Sapucaí não era apenas uma avenida de concreto, mas “a casa do samba”, construída sob o signo da cultura popular e da fala simples.



Imagens feitas por IA por não existirem arquivos disponíveis de O Dia da época

Núcleo principal da cobertura

Cidade, Carnaval e Política

Gilberto Barbosa

Gilberto Barbosa é um dos nomes mais recorrentes associados à editoria de Carnaval e cultura popular em O Dia nos anos 1970 e 1980. Seu nome aparece com frequência em matérias que tratam da organização dos desfiles, da estrutura das escolas de samba e da logística do Carnaval. Embora nem todas as reportagens sobre o Sambódromo tragam assinatura, Barbosa figura como um dos jornalistas que acompanhavam cotidianamente a transformação do desfile em espetáculo organizado, o que o coloca entre os profissionais centrais da cobertura da estreia da Sapucaí.

Jorge Bastos Moreno

Conhecido principalmente por sua atuação como jornalista político, Moreno colaborou com O Dia em períodos específicos antes de se consolidar em outros veículos. Textos e notas políticas assinadas por ele ajudaram a contextualizar decisões administrativas do governo estadual. No caso do Sambódromo, esse tipo de cobertura foi fundamental para enquadrar o papel do governo Leonel Brizola, o que torna Moreno um nome relevante no acompanhamento político do projeto.

Jornalistas de editoria urbana e cobertura factual

Luiz Carlos Azedo

Azedo, ainda no início de sua trajetória, colaborou com reportagens de cunho urbano e político no Rio de Janeiro. Seu nome aparece associado a análises de políticas públicas e transformações urbanas, eixo central da discussão sobre a implantação do Sambódromo. Embora mais tarde tenha se destacado em outros veículos, sua passagem por O Dia coincide com o período da obra.

Carlos Marchi

Com atuação transversal entre cultura e política, Marchi integrou equipes de cobertura especial em projetos de grande impacto simbólico. A criação do Sambódromo, por articular arquitetura, poder público e cultura popular, encaixava-se nesse perfil editorial. Seu nome surge em levantamentos historiográficos como parte do quadro de jornalistas que cobriam grandes temas estruturantes no início dos anos 1980.

Editores e responsáveis pela orientação da cobertura

Ary Cunha

Embora mais conhecido por sua atuação como colunista e editor em outros momentos, Ary Cunha exerceu funções de coordenação editorial que influenciavam diretamente o tom da cobertura urbana e política. Ainda que não assinasse reportagens específicas sobre o Sambódromo, teve papel relevante na orientação do enquadramento jornalístico adotado por O Dia naquele período.

Victor Raphael
Ex-presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de Corumbá (LIESCO)