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PENDÊNCIAS
                 

2 de fevereiro de 2026, nº 43

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PENDÊNCIAS

Amigos do Sambario! Quem vos escreve é Túlio Rabelo, do canal no YouTube TR - Sambas de Enredo. Nesta coluna, vou trazer as PENDÊNCIAS mais notáveis da discografia das agremiações cariocas. Não vou negar que é uma coluna muito específica, pois só a partir da visão ampla da discografia de cada escola, é possível observar o que não tem gravação disponível e que, pelo momento que a escola passava ou pelo peso do enredo, faz muita falta não ter o registro fonográfico. Pode até ter existido gravação em compacto, ou outras mídias, destes sambas, mas até o momento não há registro disponível na internet. As letras aqui mostradas, foram encontradas nos arquivos da Censura. A maioria das lembranças desta coluna, curiosamente, advém do Carnaval de 1978. 

 

Em Cima da Hora 1978 - O Samba é Embaixador 

A Em Cima da Hora vinha de uma década gloriosa. Com sambas como “Bahia, Berço do Brasil (1972)”, “O Saber Poético da Literatura de Cordel (1973)”, “Festa dos Deuses Afro-Brasileiros (1974), o antológico “Os Sertões (1976)” e “Heitor dos Prazeres, um Artista Carioca (1977)”, é natural imaginar que o samba de 1978 deve ter mantido a qualidade que a agremiação apresentou nos anos anteriores. Tanto que, ao voltar aos discos oficiais em 1979, ela apresentou o bonito samba “Do Astro-Rei à Rainha das Flores”, dos compositores Dodo Marujo e Zeca do Varejo. Sendo assim, o samba de 1978 “O Samba É Embaixador”, desta mesma dupla de compositores, desperta curiosidade. Não só por todo esse contexto, mas pelo enredo fascinante, que levava o samba a Paris. A agremiação foi a campeã do Grupo 3, dando, de imediato, a volta por cima. Confira a letra abaixo. Antes, vale mencionar, outras pendências da escola: “Vida e amores de [Dona] Beija (1967)”, “Anita Garibaldi, Amor e Revolução (1968)”, “Bahia, Bahia, Tradicional Bahia (1980)” e “Samba-ô (1988)”. 

 

TRANSCRIÇÃO DA LETRA DE 1978: O samba quando na França chegava / O céu parisiense se transformava / O Sena estava espelhado se encapelou / Pra receber o mais novo Embaixador // A partir daquele dia / Foi aquela euforia / Sambou alunos e mestres / Sambou Rei, sambou Rainha // O francês não conhecia / Esse ritmo envolvente / A cuíca e o pandeiro / Empolgou aquela gente / No Arco do Triunfo / Um minuto ele parou / Genoveva, na colina / Do samba participou // Sambou Rei, sambou Rainha / A partir daquele dia / A partir daquele dia / Sambou Rei, sambou Rainha 

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Unidos de Lucas 1978 - Preta, preta... Pretinha 

Outra agremiação que vinha de uma boa década, em sambas, é a Unidos de Lucas. Fruto da junção entre Aprendizes de Lucas e Unidos da Capela, a agremiação começa sua jornada em 1967, apresentando sambas marcantes e antológicos, como “Sublime Pergaminho (1968)”, "Mulata Maior - A Divina Elizeth Cardoso (1974)”, "Cidades Feitas de Memórias (1975)" e "Mar Baiano em Noite de Gala (1976)". O samba de “Insurreição do Queimado (1977)”, até pouco tempo atrás, não era encontrado facilmente por aí, pois foi gravado em um raro compacto. Isso até faz pensar que o samba de 1978 “Preta, preta... Pretinha”, pode ter sido gravado em compacto também, embora ainda não tenhamos o encontrado. Considerando esse histórico, até então recente da escola, e também considerando que ao voltar aos discos em 1979, com enredo sobre Debret, bem como nos anos seguintes, seguiu com ótima discografia, é natural despertar curiosidade quanto ao samba de 1978, de Altair Cardoso e Erodilson de Oliveira, que pela letra e título de enredo, parece bom. Confira a letra abaixo. Antes, vale mencionar, outra pendência da escola: “Arte barroca (1970)”. A agremiação só possui essas duas pendências. 

 

TRANSCRIÇÃO DA LETRA DE 1978: Quando os brancos chegavam com quinquilharias / As mães pretas eram levadas / Pras fazendas e não sabiam / Preta pretinha / Pega no estandarte da tristeza e dor // Despeja as mágoas na avenida / Do cativeiro que simbolizou // Mãe preta no calor dos seus braços, ela agasalhava / E nos seus negros seios ela amamentava // O filhinho do senhor // Sob o som dos atabaques / O misticismo se alastrou / E surgiram as mães de santo / Em Umbanda e Nagô // Saravá preto velho ôô / Quero ouvir o toque do atabaque nagô // Pretinha você não é mais aquela / Vem mostrar na passarela / Que a liberdade chegou // Já raiou a liberdade / Pretas velhas e mães pretas / Choram de felicidade

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Caprichosos de Pilares 1977 - Maria Quitéria, Heroína de Uma Raça 

A Caprichosos de Pilares aproximava-se dos seus tempos áureos. Em 1977, ficou em terceiro lugar no Grupo 3 com uma homenagem à heroína Maria Quitéria, enredo muito rico, que desperta curiosidade, ainda mais pela bonita letra, que vocês vão conferir mais abaixo. O samba é de Alcino Correia (Ratinho). Fica de curiosidade o fato de que a Maria Quitéria já tinha sido enredo da Caprichosos de Pilares em 1954. Não se sabe se é o mesmo samba, ou um novo. A agremiação tem bastante samba sem gravação disponível (de 1950 a 1970, todos; e 1974, 1976 e 1977).  

 

TRANSCRIÇÃO DA LETRA DE 1977: Mais uma vez a Bahia nos dá / Um fato histórico é bom lembrar / A Heroína da Independência / Sua história nos fascina / Os Caprichosos vêm contar / "Gente" muita gente assistiu / Maria Quitéria combatendo de fuzil // Hoje a batalha se repete / Entre fogos e confetes no Carnaval do Brasil // O ideal de Liberdade / Desde sua mocidade, já demonstrava / Com Gabriel queria se casar / Mas seu pai não permitiu / "Do Algodão" fugiu, resolveu se alistar / Usando o sobrenome do cunhado / Disfarçada de soldado, defendeu a artilharia / Mais tarde seu disfarce revelado / "Medeiros" não era soldado / Foi então pra Infantaria // Ô ô Maria / Foi condecorada pelo Imperador / Ô ô ô ô Maria / Anistia, o seu pai lhe perdoou // E dando prosseguimento apoteose / Quitéria "Mais uma vez se casou" / Contrariando seu pai / Casou com quem tanto amou 

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Lins Imperial 1978 - Viagem do Tio Benjamim pelo Vale da Esperança 

A agremiação vinha de sambas fascinantes, como “Dona Flor e Seus Dois Maridos (1975)” e “Folia de Reis (1976)”. O samba “Cruz Credo, Eta Diabo (1977)” até pouco tempo atrás não tínhamos, até que o compacto raro apareceu, o que desperta a possibilidade, neste caso, de ter havido gravação de 1978. No ano seguinte, em 1979, o bonito samba “A Guerra do Reino Divino”, na voz de Carlinhos de Pilares, chegou até a render um documentário. E pelos anos seguintes, a escola seguiu com sambas fortes, tendo a oportunidade de voltar ao Grupo Especial no fim dos anos 80. Então fica a curiosidade, a respeito deste samba de 1978, que parece um enredo bem bacana. Existe a revista do enredo, com logo e sinopse, disponível por aí na internet. Outras pendências da escola são os sambas de 1964 a 1970 e os sambas de 1972 e 1973. Confira a letra abaixo, dos compositores Waldir Ferreira e José de Paula: 

 

TRANSCRIÇÃO DA LETRA DE 1978: Foi assim que começou / Ainda guardo na lembrança / "A Viagem do Tio Benjamim / Pelo Vale da Esperança" / Quantas riquezas encontrou / As margens do Rio São Francisco / Ele lembrou as estórias / Do Velho Chico e contou // Da Iansã Deusa do Vento / Um Orixá respeitado / Minhocão caboclo d'água / E o peixe dourado // Oh que beleza… / O barco em forma de gaiola / De lá ouvia-se as festanças / Cantorias ao som de viola / A festa do divino / Importante e tradicional / Cavalhadas e vaquejadas / São folclore nacional // Como era lindo / Aquela paisagem sem fim  / No Vale da Esperança / Dizia o Tio Benjamim 

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Império da Tijuca 1978 - O Calendário Carioca 

A Império da Tijuca tem uma discografia com a maioria dos sambas gravados, exceto os do período inicial de 1943 a 1967 e os de 1969 e 1978. Até um tempo atrás, a lacuna era maior, pois apareceu raros compactos do Marinho da Muda com os sambas de 1973 e 1976. A agremiação vinha de boa década em samba, com destaque pra “O Misticismo da África ao Brasil (1971)”, “O Samba do Morro à Sociedade (1972)”, “Guerreiro das Alagoas (1976)” e “O Mundo de Barro de Mestre Vitalino (1977)”. A escola vinha, portanto, de um título do Grupo 2 em 1976 e de um desfile no Especial em 1977, causando estranheza em 1978 não aparecer no disco oficial. Nos anos seguintes, o Império seguiria com bons sambas. Confira a letra abaixo, de autoria de Wilmar Costa e Jorge Domingos da Silva.  

 

TRANSCRIÇÃO DA LETRA DE 1978: O Calendário Carioca / Nos versos do poeta popular / A Império da Tijuca / Vem para a avenida festejar / Ano novo, é Janeiro / Salve o nosso padroeiro / Fevereiro é genial // Ôba, ôba moçada é tempo de Carnaval // Março, alegria mocidade / Voltam às escolas da cidade / E vem a mentirinha sutil / Caiu, caiu no 1º de Abril // Meu piriquitinho verde / Tira a sorte por favor / Olha a minha mão cigana / Onde está o meu amor // Maio as donzelas vão casar / Mês de Maria como é lindo o altar / Junho e Julho são de grande animação / Viva São Pedro, Santo Antônio e São João / Dizem que Agosto, traz desgosto / Porém Setembro é primaveril / Doces pra meninada, jogos infantis / Outubro a Igreja iluminada / Festa da Penha barraquinhas enfeitadas / Novembro a saudade esperada // Papai Noel o bom velhinho do Natal / Já é Dezembro, Calendário no final 

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Unidos da Tijuca 1977 “Paraíso dos Sonhos” e 1978 “A Praça dos Sonhos, Amor, Alegria e Fantasia” 

A Unidos da Tijuca começou a viver grande fase por volta de 1980, quando foi bem e ascendeu ao Especial de 1981, acumulando bons desfiles daí em diante. A agremiação teve boas fases em suas primeiras décadas, depois nos anos 60 e 70 firmou presença no Grupo 2, onde a partir de 1971, somente não tem registro fonográfico disponível de três sambas (1972 “Ganga Zumba”, 1977 “Paraíso dos Sonhos” e 1978 “A Praça dos Sonhos, Amor, Alegria e Fantasia”). Eu não encontrei a letra de 1972, então mais abaixo vou trazer as letras de 1977 e 1978, que ao meu ver são bem bonitas. O samba de 1977 é de Nelson de Moraes, Ditão, Juquinha, Miguel e o samba de 1978 é de Nelson de Moraes e Ditão. Confira as letras abaixo.  

 

TRANSCRIÇÃO DA LETRA DE 1977:  Abriu-se novamente a passarela / Delira o povo, lá vem ela / Na avenida para apresentar / Uma história fascinante / De uma época distante / Que no “Paraíso dos Sonhos”, aconteceu / E foi assim, no Reinado de Morfeu / Um casal de Deuses desapareceu // Por mares encantados navegou / A Deusa da Fortuna e o Deus do Amor // Avistaram uma colina deslumbrante / E seguiram para lá / Ficaram encantados com o luxo e a riqueza / Que imperava o lugar / Bailarinas e suas danças sensuais / Oferecia ao Deus Pagão um ritual / Ao ver o sinal da Rainha / Sentiam que vinha o castigo final / Usando o poder de sua mente / Transformou um pesadelo / Na Paz de um amor universal // Aí Morfeu! Aí Morfeu / Não existe lugar melhor que o seu 

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TRANSCRIÇÃO DA LETRA DE 1978: Mais uma vez… / A Unidos vem apresentar / Um tema de origem tradicional / Falando da Praça faz seu Carnaval / Relevo de amor e fantasia / Onde tudo é alegria / No recanto sem igual / E ao raiar do dia / É Domingo matinal / As crianças se irradiam / Em brincadeira de roda / Fazendo um coro vocal // Ciranda, cirandinha / Vamos todos cirandar / Vamos dar a meia volta / Volta e meia vamos dar // Oh! Que noite tão bonita / Neste palco iluminado / Seguindo a rotina da vida / Os casais de namorados / Poeta delirante faz suas canções / Amante nostalgia esquece a solidão / E neste ambiente alegria é geral / Canta meu povo porque hoje é Carnaval // E aquele pipoqueiro / Sempre muito animado / Fazia o seu sustento / Vendendo milho torrado 

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Outros Sambas 

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Várias pessoas citaram para mim, o sucesso que era, em rádio, o samba da União de Rocha Miranda 1985 “Taí, Carmem Miranda”, que levou a escola ao vice-campeonato do Grupo 2B. Muitos têm a curiosidade de conhecer como era o último samba da antiga Grande Rio, que no Carnaval de 1988 homenageou o radialista Adelzon Alves, que muito contribuiu ao mundo do samba. O enredo tinha o título de “O Amigo da Madrugada Contra as Feras Multinacionais”. Um samba que desperta curiosidade ao presente colunista, é Paraíso do Tuiuti 1987, cujo enredo “Força Viva do Samba, Pagode”, levou a escola ao título do Grupo 3. Também gostaria de conhecer o samba da Vigário Geral 1995, que homenageou o Mestre Marçal e foi vice-campeã do Grupo B, bem como sambas da Acadêmicos do Dendê, dentre os quais destaco 1993 “Tem Cupido no Samba”, que relatos apontam forte nostalgia para este samba e desfile. Não' possuo a letra de nenhum dos sambas citados acima.  

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A discografia de Bloco/Escola do Canários das Laranjeiras também desperta a curiosidade, com inúmeros enredos fascinantes, alguns com letra disponível, outros não. As lacunas de escolas, como Império do Marangá, Unidos de Padre Miguel, Unidos de Bangu, Unidos da Vila Santa Tereza e Tupy de Braz de Pina, também fazem falta aos sambistas. Não dei tanta ênfase em agremiações do Grupo Especial, pois elas, em maioria, têm uma discografia robusta, com quase tudo gravado. 

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Podem haver bem mais pendências que não lembrei aqui, mas trata-se de uma lista pessoal, a partir do que durante minhas pesquisas, senti falta. Vale destacar, por fim, que experimentei nesta coluna, o uso de artes gráficas parcialmente criadas por IA. As letras, entretanto, foram anexadas em edição por mim mesmo.   


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Túlio Rabelo
E-mail: tuliorabelo972@gmail.com
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