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22 de maio de 2026, nº 116 Leia as colunas anteriores de Carlos Fonseca JUNÇÕES DE SAMBA QUASE NUNCA LEMBRADAS
'Um recurso que voltou à tona ao Rio de Janeiro no carnaval que passou foi a junção de sambas. No Grupo Especial, três escolas usaram do artifício – Beija-Flor, Salgueiro e Imperatriz, que em 2024 venceu o Estandarte de Ouro com uma obra originada de uma fusão de dois concorrentes. Na Série Ouro, a Em Cima da Hora foi a única agremiação a juntar. A versão que se passou a história foi a de que a Academia do Samba realizou a primeira fusão de sambas-enredo em 1975 (O Segredo das Minas do Rei Salomão, bicampeonato salgueirense), mas já nos anos 1960 a Portela utilizou-se desse formato, conforme detalhou uma coluna recente de André Poesia neste SAMBARIO '
A Marquês de Sapucaí durante os desfiles do Carnaval 2026 – ano de três junções de samba no Grupo Especial (Foto: Carlos Fonseca/SAMBARIO)
Responsável direto pela primeira experiência salgueirense, Laíla (1943-2021), o gênio do ouvido perfeito, consagrou-se como um exímio articulador de junções. E na maioria das vezes, com resultados bem sucedidos. Nesta coluna, vamos listar alguns sambas poucos lembrados ou que quase não se imagina se tratar de uma junção de duas (ou até mais) obras concorrentes.
Beija-Flor 2002 (O Brasil Dá o Ar de Sua Graça: De Ícaro a Rubem Berta, o Ímpeto de Voar) Começamos pela Baixada Fluminense, um berço frequente desse expediente. O desfile da Beija-Flor sobre o ato de voar foi embalado por um samba-enredo fruto da fusão de duas obras, cuja montagem foi praticamente idêntica a que foi feita em 2026. A base era a composição de Wilsinho Paz e parceria, a exceção de uma única parte: o refrão principal. O “Meu Beija-Flor espacial / Cruzou o espaço sideral” foi incorporado da obra assinada por Tom-Tom e Igor Leal.
Tradição 1994 (Passarinho, Passarola, Quero Ver Voar) Talvez essa informação caia de uma forma um tanto surpreendente para o leitor deste espaço. O clássico samba do condor do Campinho sobre a aviação, que embalaria o desfile melhor colocado da agremiação na Sapucaí, nasceu da fusão de duas obras: uma, de Jajá Maravilha e parceiros; a outra, assinada por Jorge Makumba e Lourenço. Até o fechamento deste texto não encontramos informações sobre quais trechos de cada obra foram incorporados à versão tão conhecida. Mas, uma coisa é fato: “Os foliões aprovaram a decisão dá comissão de carnaval e saíram pelas ruas de Campinho para comemorar”, conforme noticiou à época do Jornal O Globo.
Inocentes de Belford Roxo 2014 (O Triunfo da América: o canto lírico de Joaquina Lapinha) Retornando à segunda divisão após a (até aqui) única passagem pelo Grupo Especial, a Caçulinha da Baixada desfilou sua homenagem à primeira cantora lírica do Brasil a ganhar destaque internacional juntando a base da obra concorrente de Altamiro, Tico do Gato e parceria com o refrão central de Abílio Mestre Sala e companhia. Uma junção, aliás, considerada surpreendente, já que o favorito daquela final era outro – o da parceria de Billy Coutry, autoria do samba de 2013. O responsável por essa junção, adivinha quem foi? Laíla, à época consultor da direção da escola.
Viradouro 1995 (O Rei e os Três Espantos de Debret) Esse é um caso clássico de junção que não seria junção. Na disputa de 31 anos atrás, a escola de Niterói escolheu a obra assinada por José Antonio, Oliverio, Gonzaga, Rico Medeiros (intérprete da agremiação à época) e Wilsinho para representa-la no desfile oficial. Tudo muito certo... até Joãosinho Trinta ordenar a troca do refrão principal na semana seguinte à decisão na quadra, quando o trecho final da obra então-derrotada de Fabrino, PC Portugal, Bernardo, Gilberto e João Sergio foi incluído na versão definitiva. As junções realizadas após a final da disputa em quadra seriam um tanto frequentes no carnaval a partir dos anos 2000...
Acadêmicos do Sossego 2015 (Banananás - O Encontro da Rainha Mariola Banana Pacova do Congo e d’Angola com o Rei Amazônico Ananás Ibá-Cachi, da Corte dos Abacaxis de Serpa) Aqui está um exemplo de uma junção que colheria frutos pra depois dali. Ainda desfilando na Intendente Magalhães, a escola de Niterói uniu as obras das parcerias de Felipe Filósofo e Gegê Fernandes pra narrar o encontro tropicalista entre os abacaxis e as bananas – enredo desenvolvido pela dupla Gabriel Haddad e Leonardo Bora, atualmente na Vila Isabel. Pelo resultado final, logo se percebeu que as linhas seguidas pelas duas parcerias claramente foram distintas. O samba virou um tremendo Frankenstein. Não deu certo. Mas a junção malsucedida de 2015 foi o ponto de partida para a agremiação apresentar obras diferenciadas a partir do ano seguinte, levando a azul e branco à Marquês de Sapucaí – onde desfilaria até sua extinção, em 2022.
Águia de Ouro 2019 (Brasil, Eu Quero Falar de Você! Que País é Esse?) Em seu retorno ao Grupo Especial paulistano (passagem que duraria até 2026), a azul-e-branca da Pompéia se reforçaria com nomes de peso do quilate do intérprete Tinga e de uma pessoa que seria a responsável pela junção. Trazendo um enredo crítico à situação política do país, o Águia não fez apenas uma junção, criou um megazord: quatro sambas concorrentes – exatamente isso, quatro sambas – foram condensados em um só ao final da disputa interna. No fim das contas, o samba foi assinado pelo time a seguir: Rafael Prates, Russo, Turko, Silas, Rafa Malva, Maracá, Fabio Souza, Wagner Rodrigues, Ivanzinho, Jairo Limozine, Carioca, Peu, Fernandão, Zanza Simão, Silva Oliveira, Waltinho, Salles, Fernandinho SP, Paulo Senna, Léo Rocha, Rodolfo Centenaro, Renne Campos, Márcio Filhos da Águia, Nando do Cavaco, André Ricardo, Filosofia, Tuca, Rafael Babú, Leandro Batas, Dico, Diley Machado, Jacopetti e Portella – ufa! 33 autores, recorde absoluto até os dias atuais. Ah, e sabe a pessoa que foi responsável pela junção quádrupla? Laíla...
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Carlos Fonseca | ||