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Sambas eliminados

Sambas eliminados

Confira as avaliações sobre sambas-enredo derrotados nas eliminatórias

Anos 70 a 90
2001 a 2010
2011 a 2016

VEM, DINDINHA (Salgueiro - 1972) – A ruptura na estrutura dos sambas enredo proposta pelo Salgueiro no ano anterior com “Festa para um rei negro” resultou numa mudança de mentalidade entre os compositores. Para o enredo “Mangueira, minha querida madrinha”, os compositores Hayblan e Noel Rosa de Oliveira, este último acostumado com o estilo samba-lençol que reinava até o final dos anos 60 (Quilombo dos Palmares, Chica da Silva), tiveram que se adaptar aos novos tempos e apresentaram uma obra com versos mais curtos e uma melodia mais próxima dos blocos carnavalescos. A estrutura é parecida com a do “Pega no ganzê”, com a repetição do refrão principal a cada estrofe cantada. A letra do samba é pura homenagem, a começar no tratamento carinhoso à verde e rosa, chamando a Mangueira de “dindinha” (diminutivo de dinda). Na primeira parte, os compositores salgueirenses se orgulham de serem afilhados de uma escola deste porte (“Mangueira é nossa madrinha/ o Salgueiro faz saber/ está na hora de homenagem/ a quem fez por merecer”). Na segunda estrofe, há uma bonita referência a dois poetas da Estação Primeira, Cartola e Nelson Cavaquinho, que são evocados com dois de seus principais sambas, respectivamente “O sol nascerá (A sorrir)” e “A flor e o espinho” (“Um ensinando a sorrir/ pra melhor levar a vida/ outro a fugir de um sorriso/ com ironia sofrida”). O vencedor da disputa para o carnaval de 1972 foi novamente Adil de Paula, o Zuzuca. Para contemporanizar, o cantor Jair Rodrigues, em seu LP "É isso aí", lançado no final de 1971, gravou tanto o samba que venceu, "Tengo, tengo", quanto o que perdeu, depois denominado "Vem, dindinha". NOTA DO SAMBA: 9,5 (Rixxa Jr). Baixe este samba

O AMIGO DO REI (Portela - 1973) – O sambista Antonio Gilson Porfírio, o Agepê, nascido no Morro do Juramento, ingressou na ala de compositores da Portela anos antes de estourar nacionalmente com o sucesso “Moro onde não mora ninguém”, música lançada em compacto em 1975. Três anos antes, ele e seu fiel e mais constante parceiro, o alagoense Antonio José Feitosa, o Canário, compuseram seu primeiro samba enredo para a águia azul e branca de Madureira na disputa do enredo “Pasárgada, o amigo do rei”, baseado no poema homônimo de Manuel Bandeira e escolhido para marcar o cinqüentenário portelense. A letra representa um universo onírico e pueril, com um certo viés libertário, bem afeito à proposta do poema, como expõe o trecho Procuro a fé na paz que morre / O suor escorre e corre ao vento o meu refrão / Eu quero o dia quero o amor cantar / Correr, nadar em riso e flores. No entanto, em nenhum momento, o samba de Agepê e Canário mencionam o cinqüentenário da Portela. Talvez seja esta uma das razões pelas quais a obra não foi a escolhida. De resto, o samba é muito bonito e vibrante. A obra ficou em segundo lugar, perdendo para a composição de David Corrêa. Agepê gravou “O amigo do rei” em seu LP “Canto de esperança” (1978), o primeiro do cantor pela gravadora CBS (atual Sony Music). NOTA DO SAMBA: 9,8 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba - Baixe este samba

TERRA AZUL (Portela – 1973) - Foi uma disputa de sambas acirrada na Portela para o carnaval do cinqüentenário da escola em 1973. A qualidade reconhecida de sua ala de compositores gerou obras belíssimas, como a do campeão David Corrêa e das parcerias finalistas de Catoni e de Joel Meneses, além dos sambas de Agepê/Canário e Evaldo Gouvêa/Jair Amorim, dupla responsável por “Terra azul”. Vale um parênteses especial sobre Jair e Evaldo, compositores conhecidos pela autoria de boleros que se tornaram clássicos da MPB nas vozes de Altemar Dutra (Brigas, O trovador), Ângela Maria (Tango para Tereza) e Anísio Silva (Alguém me disse), entre outros: em 1969, Jair e Evaldo compuseram “O conde”, samba gravado por Jair Rodrigues. A música homenageava a porta-bandeira da Portela, Wilma Nascimento, o “cisne da passarela”. A partir daí, começou o namoro dos compositores com a escola de Natal. E, ao contrário do que muita gente pensa, foi, sim, “Pasárgada, o amigo do rei” o primeiro enredo que a dupla disputou. A convite da direção da Portela, ambos ingressaram na respeitadíssima e cobiçada ala de compositores da escola. O samba tem letra simples e direta, como rezava a nova fase de sambas enredo pós-Pega no ganzê, apresentado pelo Salgueiro em 1971. A primeira parte, em menor, faz referência de forma lírica, à obra e ao autor de Pasárgada (o poeta modernista Manuel Bandeira) e um refrão com três versos repetidos. Na segunda parte, a tonalidade da música vai para maior e a letra é cantada como se Pasárgada, o lugar ideal, fosse a própria Portela, única razão de viver do personagem do enredo, e novamente um refrão com três versos repetidos. “Terra azul” foi gravada por Jair Rodrigues, no disco Orgulho de um sambista (1973), e também pela cantora jovem-guaridista Joelma (não confundir com a loira da banda Kalypso), em seu LP lançado no mesmo ano. No ano seguinte, Jair e Evaldo estiveram no olho de um furacão. Em parceria com o compositor Velha, disputaram no concurso de samba-enredo para o carnaval de 74, cujo enredo era “O mundo melhor de Pixinguinha” e, como se sabe, foram vitoriosos, e o samba, é sempre lembrado com um clássico do gênero. A dupla voltou a concorrer em 1978 – no enredo “Mulher à brasileira” – derrotando, na final, a favoritíssima composição de Luiz Ayrão. O ingresso e a conseqüente vitória de Evaldo e Jair na Portela gerou uma insatisfação em baluartes da escola, como Zé Ketti, que pediu afastamento definitivo da ala de compositores da escola, além de Candeia e Paulinho da Viola, que deixaram de comparecer na quadra da Portela. Anos depois, Jair e Evaldo compuseram “Perdão, Portela”, no qual ambos pediam desculpas à comunidade: Me perdoa Portela querida / se um dia na vida tentei te exaltar / se meu samba sem nada de novo / na rua esse povo, botou pra cantar / me perdoa eu não ter as raízes / raízes que dizem que devo portar.... NOTA DO SAMBA: 8,8 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba - Baixe este samba

MENINO BOM (Portela - 1974) - Gravado no primeiro LP de David Correa, também chamado de “Menino Bom”, o samba de Romildo e Carlito tem um refrão simples e de pegada, como era característico nos sambas da época “Ê, batuta, ê ê ê ê/ Sou Portela toda prosa / carinhosa por você”. A letra é muito poética e, apesar de deixar claro que o homenageado está morto, não é fúnebre. Inclusive, tem uma sacada muito interessante - “Abra uma porta no céu / Volte de novo pra cá / Bar do Gouvêa é casa cheia / de saudade e esperar”. Lindo o trecho em que compara as músicas de Pixinguinha com forças da natureza: “Ensinou a lira ondular suave / a canção foi sua nave / a natureza chorou / o orvalho virou pranto / rolado com mais encanto / molhado com mais amor”. David Corrêa, durante as eliminatórias de o “Mundo Melhor de Pixinguinha”, sofreu um acidente de carro que impediu sua participação. Não sei se ele tinha um samba em seu nome ou se defendia este - o encarte do disco é um pouco vago ao descrever os acontecimentos. O fato é que, em seu disco, não há seu nome nos créditos. O samba é bonito, apesar de inferior ao polêmico campeão. NOTA DO SAMBA: 8,8 (João Marcos). Baixe este samba

TRIBO DOS CARAJÁS (Vila Isabel - 1974) – Em 1974, a Vila Isabel realizou um dos desfiles mais trágicos de sua história. A razão vem das próprias eliminatórias do samba-enredo com o qual a agremiação desfilaria naquele ano. Martinho da Vila novamente estava concorrendo em sua escola, com uma grande chance de ganhar e ver seu samba ser tocado na avenida. Só que o célebre compositor não contava com um lastimável imprevisto: a bela letra do samba, exaltando a liberdade indígena, que não havia se deixado escravizar pelo homem branco, incomodou a famigerada ditadura militar, ainda muito influente no Brasil no início da década de 70. A ditadura já havia interferido no mundo do samba em outras ocasiões, como, por exemplo, ocorreu no Salgueiro, em 1967, e no Império Serrano, em 1969, carnavais cujos temas falavam sobre liberdade. A censura proibiu a Vila de desfilar com um samba contraditório aos ideais militares e pressiondada, a escola fora obrigada a escolher outro samba para o carnaval de 1974. A diretoria da agremiação optou então por uma pequena mudança no tema do desfile: ao invés de homenagear os povos indígenas do alto Xingu, a Vila Isabel se aproveitou do mesmo título do enredo para exaltar a integração nacional entre índios e brancos oriunda da criação da Rodovia Transamazônica (um dos "feitos" do regime militar). A escola de Noel não só havia deixado de incomodar os militares, como agora também estava "puxando o saco" deles, algo que é, na minha opinião, lamentável. O samba cantado não era mais composto pelo Martinho, mas sim da autoria de Rodolpho e Paulinho da Vila (que aliás, para mim, é uma obra pavorosa). Toda essa confusão também irritou os componentes da escola, que, por fim, se revoltaram e fizeram um desfile pífio, completamente atravessado. O resultado foi a 10º lugar do Grupo 1, a última colocação no placar geral. Para sorte da escola, o então governador do Rio de Janeiro, Chagas Freitas, determinou que nenhuma escola seria rebaixada para o Acesso, como "agradecimento" a homenagem feita pela agremiação na avenida a Transamazônica. Quanto ao samba do Martinho que fora eliminado em decorrência a esse tumulto, ele é realmente excepcional. A letra é extremamente bonita, pois narra de forma poética e compreensiva o enredo inicialmente proposto pela escola. Durante a primeira parte da obra, a letra insiste em falar da felicidade sentida pelos índios em viver numa terra tão rica e fértil como o Brasil, local onde eles eram livres para ter suas próprias manifestações culturais. Tal liberdade exaltada no samba, a mesma que antes já havia incomodado o regime militar, é lindamente descrita no trecho "Tribo dos Carajás/Noite de lua cheia, Aruanã/Menina moça é quem manda na aldeia/A tribo dança/E o grande chefe pensa em sua gente/Que era dona deste imenso continente". Seguida dessa primeira parte, vem o refrão central que tenta mostrar poeticamente a ligação existente entre os povos indígenas e os recursos naturais abundantes no ecossistema brasileiro ("Respeitando o céu/Respirando o ar/Pescando nos rios/E com medo do mar"). A partir desse trecho do samba, a obra sofre uma mudança de ângulo, pois deixa de ser uma homenagem ao estilo de vida dos índios e torna-se um alerta ao destruição maciça das comunidades indígenas. Um exemplo disso é o refrão "E o índio cantou/O seu canto de guerra/Não se escravizou/Mas está sumindo da face da Terras", que é, na minha opinião, um do mais inteligentes já compostos para um samba-enredo. Para finalizar, o samba possui uma melodia leve, discontraída e empolgante, além de um animadíssimo refrão principal. "Tribo dos Carajás" pode ser encontrado no LP do próprio compositor, "Canta canta, minha gente", onde o coro o entoa aos mais plenos pulmões. NOTA DO SAMBA: 10 (Gabriel Carin). Clique aqui para ver a letra do samba - Baixe este samba

ESTRELA DE MADUREIRA (Império Serrano - 1975) - O samba de Acyr Pimentel e Cardoso, de derrotado pela obra de Avarese no concurso que definiu o hino oficial do enredo "Záquia Jorge", se tornou um dos maiores clássicos do samba e também da MPB graças à antológica gravação de Roberto Ribeiro em seu primeiro disco solo, de 1975. O Império, para o desfile de 1975, optou por um samba mais leve e animado (a obra de Avarese), preterindo "Estrela de Madureira", de melodia lírica e emocionante. Embora o samba vencedor do concurso imperiano de 1975 seja empolgante, "Estrela de Madureira" para mim é muito mais bonito e figuraria facilmente na lista dos melhores sambas-enredo da história, tamanha a beleza de sua melodia, bem como a poesia de sua letra. NOTA DO SAMBA: 10 (Marco Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba - Baixe este samba

IMPÉRIO DOS ARUÃS (Portela - 1976) – Faixa do disco “Menino Bom”, de David Correa, é de autoria de David, Norival Reis e Joel Menezes. A letra deste, em comparacação com o samba campeão, de Noca da Portela, é mais didática em determinados aspectos, sendo mais específico em relação, p.ex., à Catarina de Palma, filha de Manuel Breves Fernandes, que recebeu em testamento a sesmaria de Breves. Como observa-se na sinopse de 1976 da escola, que está no portal PortelaWeb (www.portelaweb.com.br), “Em BREVES é que existem os fantásticos FUROS de BREVES, labirintos extraordinários de mil fios ligados entre os flancos de Marajó e rochas do continente e que foi tecido pela ação intermitente das águas, pelo dinâmico trabalho do rio.”. O samba de David exalta a beleza de Catarina, muito ressaltada na sinopse, no setor da colonização: “Catarina de Palma encantava corações / Seu sorriso seduzia / a própria valsa nos salões”. O refrão – e o samba só possui um único refrão - é bem simples, como quase todos os dos anos 70: “Bumba, sinhô / Bumba, sinhã! / É de Marajó / e cuidado com Boi Bumbá”. No entanto, é um samba inferior ao campeão, desconsidera pontos importantes da sinopse (como os gaiolas, p.ex.) e tem menos força melódica que o de Noca. Porém, é sempre interessante escutar um samba concorrente desconhecido de um grande compositor, que vivia a sua melhor época criativa. NOTA DO SAMBA: 8,2 (João Marcos). Baixe este samba

AI, QUE SAUDADES QUE EU TENHO (Vila Isabel - 1977) – Na minha singela opinião, a derrota do Martinho mais imbecíl que já aconteceu na Vila Isabel. Imbecíl não porque o samba campeão era ruim. Nem porque a escola fez um mal desfile. Simplesmente, porque a escola do Boulevard desprezou por completo a oportunidade que bateu a sua porta. E o nome dessa oportunidade é antológico: Arlindo Rodrigues. Após vários anos de experiência na Mocidade Independente, o célebre carnavalesco preparou o desfile da Vila Isabel de 1977, cujo enredo seria uma espécie de reedição de um tema já apresentado pelo artista em 1970, quando ainda estava no Salgueiro: uma emocionante recordação de antigos carnavais. O título do enredo já passava bem a idéia proposta pelo Arlindo: "Ai, que saudades que eu tenho". A Vila Isabel fez um dos carnavais mais lindos de tua sua história, com fantasias e alegorias deslumbrantes, todas nas cores da escola (azul e branco), além da tradicional bateria, sempre muito bem cadenciada. Tudo era bonito e empolgante... No entanto, infelizmente, faltou algo explosivo, para imortalizar de vez o desfile da agremiação e quem sabe até talvez consagrar o primeiro campeonato da Vila Isabel mesmo 11 anos antes de antológico "Kizomba, a festa da raça". Enfim, faltou um SAMBA! Mas o que me irrita é que esse samba existiu, só que acabou não indo para o desfile da escola. Esse samba foi composto pelo Martinho e possui o mesmo nome do enredo do Arlindo, "Ai, que saudades que eu tenho". Trata-se do que é, para mim (e também para a maioria), o melhor samba-enredo derrotado do Martinho. A obra é extremamente animada, empolgante, de melodia mágica e de letra inteligentíssima. Tudo nele é, sem exagero, surpreendente! A começar pelo refrão de cabeça, que consegue empolgar até quem não gosta de samba, sem ser oba-oba ou apelativo. Falo do extraordinário "Minha Vila tá legal/Sempre brigando pra ganhar o carnaval", que fora composto com um felicidade sem par. Durante a primeira parte da obra, Martinho faz simples, porém certeiras citações as antigas tradições do carnaval carioca, que despareceram para sempre da cultura popular. Isso deixa o samba com um ar didático, mas que em momento mostra de forma explícita a tentativa de abordar o enredo da Vila Isabel, pois Martinho elaborou nada mais que uma nostálgica recordação dos saudosos tempos de Noel Rosa. Por isso, o samba flui tão levemente nos ouvidos dos sambistas, já que ele aborda todo enredo da escola discontraidamente. Em relação ao refrão central, tão comentado por ter sido praticamente repetido do samba salgueirense de 1970, não me adimira em nada sua presença. Como já foi até retratado em uma crônica do colunista Rixxa Jr. aqui no Sambario, Arlindo Rodrigues era o verdadeiro "Rei das reedições", pois é famoso por ter carnavalizado novamente diversos enredos já abordados pelo Salgueiro nos tempos em que ele ainda era parceiro de Fernando Pamplona. É óbvil e evidente que o artista deveria ter gostado do refrão "Abre a roda, meninada/Que o samba virou batucada" e decidiu constá-lo na sinopse do enredo, o que foi depois reaproveitado pelos compositores da Vila Isabel. Só que Martinho da Vila é um gênio e decidiu incorporar o refrão ao tema polêmico: "Sai da roda, meninada/Que o samba virou batucada". Afinal, para que ficar na roda, se o samba já não é mais o que era antes, não passando de uma simplória batucada? As demais partes do samba são críticas mais que diretas a crise que o mundo samba vivia (e ainda vive). Porém, tais críticas ainda sim não tornam o hino pesado, pois elas não passam de meras perguntas sobre o desaparecimento das tradições do carnaval cujas respostas, obviamente, não existem. A obra, como um todo, é um grande lamento, mas que não perde o ar de humor e empolgação. Um samba excepcional, que, como já disse antes, poderia ter rendido um inédito título a escola caso fosse para a avenida. Infelizmente, isso não aconteceu e a Vila amargou uma mera 5ª colocação. Que pena! A obra consta no LP "Rosa do povo" e a belíssima interpretação de Martinho, aliada ao alto astral proporciondo pela bateria da escola, aumenta ainda mais o balanço do samba. NOTA DO SAMBA: 10 (Gabriel Carin). Clique aqui para ver a letra do samba - Baixe este samba

IEMANJÁ, DESPERTA (Vila Isabel - 1978) – O ano de 1978 é verdadeiro senão em matéria de samba-enredo. No LP oficial, produzido pela célebre Top Tape, encontramos uma das mais bizarras safras da história do carnaval. Um dos piores sambas presentes nesse disco hediondo veio, por mais incrível que pareça, da grande escola do Boulevard, a Vila Isabel. Trata-se de uma marcha-enredo pavorosa, o pior samba da história da escola, pois possui uma letra pobre e uma melodia chatíssima. Porém, numa gigantesca contradição, o samba do mestre Martinho da Vila, concorrente derrotado nas eliminatórias da agremiação, é, sem dúvida, fascinante. "Iemanjá, desperta", denominação depois dada a obra pelo próprio compositor, está anos-luz a frente do hino campeão, levado pela escola na avenida. É um samba de letra riquíssima, tratando do belo enredo em homenagem a Iemanjá de forma magistral. Interessante a como Martinho prefere mais fazer uma exaltação carinhosa a orixá do que abordar rigorosamente todas as crenças e tradições constadas no enredo da escola, já que ele aborda as grandes interligações existentes entre África e Brasil. O tema, segundo o departamento cultural da Vila Isabel, falava de várias manifestações culturais afro-brasileiras e Iemanjá era apenas uma das personagens do enredo, no entanto Martinho prefiriu santifica-lá e tranforma-lá numa verdadeira protagonista. Isso tornou o samba uma grande oração, uma prece em devoção a orixá. A melodia é uma das mais líricas que o sambista já compusera para sua escola. Durante a primeira parte do samba, ela é leve, delicada, mas ao mesmo tempo, imponente, toda estruturada para despontar no delicioso refrão "Iemanjá, Iemanjá/Iemanjá, Iemanjá". Já na segunda parte, onde o compositor cita os presentes que serão entregues a Iemanjá, ela é mais discontraída, animada, embora ainda não perca o lirismo inicial. Enfim, "Iemanjá, desperta" é um samba sensacional e saber que ele fora derrotado por um que diz horrorosidades do tipo "Lendas e crenças/Vamos mostrar pra vocês/Oh vovô, por favor, conte outra vez" é mais que revoltante. É odioso! Como de praxe, o samba eliminado fora gravado pelo próprio autor e consta no disco "Presente" (1977). NOTA DO SAMBA: 9,8 (Gabriel Carin). Clique aqui para ver a letra do samba - Baixe este samba

FLOR MULHER (Portela - 1978) - Belíssimo samba da parceria Joel Menezes, Carlito Cavalcanti e Noca da Portela para o enredo portelense de 1978 "Mulher à Brasileira". É bem superior ao samba vencedor, com dois refrões de explosão (o que o hino oficial da Portela de 1978 não tem) mais duas partes bem líricas - bem como o tema sugeria -, além de envolventes. É um samba do estilo David Corrêa: lírico e animado. Quem esteve naquela final de samba-enredo garante que a torcida por esta obra era muito maior e que a decepção foi grande quando a contestada obra de Jair Amorim e Evaldo Gouveia foi anunciada vencedora. Embora o samba oficial tenha rendido bem no desfile, com certeza este samba seria muito mais cantado. Regravado por Roberto Ribeiro com o nome "Flor Mulher" em seu LP de 1978. NOTA DO SAMBA: 9,8 (Marco Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba - Baixe este samba

SAUDADE COLORIDA (Portela – 1981) - Agepê já era um nome consagrado entre os cantores de sucessos populares, presença freqüente em programas televisivos (Buzina do Chacrina, Clube dos Artistas) e percorria o Brasil inteiro com shows quando resolveu concorrer novamente com um samba enredo para a disputa na sua Portela. O tema era “Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite”, um delírio carnavalesco assinado por Viriato Ferreira. Nos anos 1970 e 1980, a disputa de samba na Portela era ferrenha, porque além dos chamados compositores tradicionais (Noca, Colombo, Dedé, Norival Reis, Ary do Cavaco), havia um setor formado por artistas de sucesso radiofônico que sonhavam emplacar um samba na Portela (o próprio Agepê, Luiz Ayrão, Evaldo Braga, Jair Amorim). Desta vez reforçados por Ivancoé, Agepê e Canário deram formato musical ao delírio carnavalesco de Viriato, que conforme a sinopse, sugeria um “cortejo irreal”, “sereias mulatas miscigenadas”, “príncipes submarinos” e o “azul do mar misturado com o branco das espumas”. Agepê optou por um samba mais interpretativo do que descritivo, como era a tônica da época, com dois refrões arrasta-povo e uma melodia bem suingada. No entanto, a composição foi insuficiente para desbancar o empolgado samba de David Corrêa e Jorge Macedo, considerado o melhor do carnaval de 1981 e um dos mais bonitos da história da Portela. “Saudade colorida” é uma das faixas do no LP Agepê, de 1981. NOTA DO SAMBA: 9 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba - Baixe este samba

TÔ QUE TÔ (União da Ilha - 1984) - Interessante a diversidade de estilos que marcou a disputa da União da Ilha do Governador para o enredo “Quem pode, pode, quem não pode...”, em 1984. De um lado, a tradição e a experiência de dois legendários sambistas: Aurinho da Ilha e Didi. Do outro, a juventude e a emergência musical de um médico e sambista nas horas vagas chamado José Franco Lattari (1952-2008). Com esse samba concorrente, Franco – que já havia vencido pela primeira vez na Ilha com "1910 - Burro na Cabeça", em 1981 – desenvolvia um estilo de samba enredo mais próximo ao samba de bloco, mais picado, mais acelerado, antagonizando com o estilo clássico de Didi e Aurinho. Nesta obra, já se percebe algumas características bem marcantes da obra carnavalesca de Franco: samba acelerado, em tom maior, mas sempre com uma estrofe caindo para menor (Se você quer amor... vou dar/ se você quer me dar... me dê/ venha ver que saudade/ louca, vou beijar sua boca/ só você não vê), que o compositor imprimiria sua marca em hinos posteriores, como “Extra Extra” (1987), “Festa profana” (1989), “De bar em bar, Didi, um poeta” (1991), “Abracadabra, o despertar da magia” (1994), etc. O enredo “Quem pode, pode...” abordava os ditos populares. No entanto, ao invés de enfileirar ditados (como fizeram Aurinho e Didi), Franco procurou colocá-los estrategicamente: “quem pode, pode”; “nem tudo, moreno, que balança cai”; “a voz do povo é a União” (este último numa alusão ao nome da entidade). Após perder a disputa na quadra, “Tô que tô” foi gravado por Alcione, no LP “Da cor do Brasil”, numa espécie de compensação e rapidamente se tornou um sucesso comercial, sendo um campeão de execuções nas emissoras de rádio e de televisão e nos bailes de carnaval. Caso tivesse ganhado, esse samba teria tudo para ser um verdadeiro sacode naquele primeiro ano do sambódromo e, sem dúvida, teria sido um dos mais cantados na passarela do samba. O samba é bastante comunicativo e cairia como uma luva para uma voz tipo Aroldo Melodia, apesar de que o intérprete da União da Ilha naquela ocasião fora Quinzinho. NOTA DO SAMBA: 9,6 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba - Baixe este samba

VIDA BOA (Imperatriz Leopoldinense - 1984) – Logo após o término do desfile de 1983, a Imperatriz Leopoldinense resolveu deixar de lado seus enredos culturais e barrocos desenvolvidos entre 1980 e 1983 por Arlindo Rodrigues para entrar na onda dos chamados enredos críticos que começavam a contagiar o carnaval brasileiro no período pré-Nova República. Com a ida de Arlindo para o Salgueiro, a escola de Luizinho Drummond chamou a dupla Rosa Magalhães e Lícia Lacerda – que fora campeã dois anos antes pelo Império Serrano – para desenvolver “Alô, mamãe”, um carnaval que pretendia fazer uma crítica à então conjuntura político-econômica brasileira. Sem o poderio financeiro característico dos anos anteriores, a verde e branco de Ramos passou por dificuldades, a começar pela escolha do samba, considerado um dos mais fracos da história da Imperatriz (e olha que levou a assinatura de craques como Guga, Velha e Tuninho Professor). Mesmo não apresentando a força e o favoritismo dos anos anteriores, a escola conquistou o 4º lugar. O samba derrotado, de autoria de Serjão e do campeoníssimo Zé Catimba, que foram parceiros em “O teu cabelo não nega (Só dá Lalá)”, do bicampeonato de 1981, tinha uma levada animada bem típica das obras da União da Ilha do Governador, beirando o marcheamento. A letra era cheia de ironias (alô mamãe/ a vida aqui tá um colosso/ tô andando só de tanga/ tô com a corda no pescoço) e procurava, de uma maneira gaiata, mostrar que o cenário brasileiro estava difícil, mas com fé e bom humor, o povo brasileiro teria como superar as dificuldades. Um dos refrões era bem forte e poderia causar um ótimo efeito na avenida (vou gozar com a cara dele, mãe... vou gozar). Por refletir exatamente um momento da realidade brasileira, a obra mereceu gravação da cantora Alcione, em seu LP “Da cor do Brasil”. Só para lembrar, o título do enredo, era uma referência ao discurso proferido pelo cantor Agnaldo Timóteo em sua chegada na Câmara Federal. O artista simulou um telefonema dado a sua mãe logo após sua diplomação como deputado, em 1983. O discurso começava com a frase “alô, mamãe”, e tornou-se uma espécie de bordão de Timóteo. NOTA DO SAMBA: 8,5 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba - Baixe este samba

PEGUEI UM ITA NO NORTE (Salgueiro - 1993) - A obra que ganhou no Salgueiro nesse ano é um dos sambas mais conhecidos de todos os tempos. Acredito que 70% dos brasileiros sabem cantar o seu refrão: "Explode coração / Na maior felicidade / É lindo o meu Salgueiro / Contagiando e sacudindo esta cidade". Porém, havia uma obra melhor nos concorrentes, ela era de autoria de Luiz Fernando, Fernando Baster, Sereno e Diogo. O seu refrão é muito bom: "Me faz um dengo, meu xodó / Eu sou Salgueiro, nem melhor e nem pior". A primeira parte era bem cadenciada, maravilhosa. Mas a melhor parte desse samba com certeza era o seu refrão central: "A saudade bateu no balanço do mar / Meu olhar, marejou / Marejou, meu olhar", uma melodia interessantíssima. A segunda parte é maravilhosa também. Era uma obra que não ia fazer tanto sucesso, mas este samba era muito melhor que o que ganhou. Tanto é, que na época, muitas pessoas criticaram a diretoria da escola. Fica aí mais um samba excelente que acabou não ganhando. NOTA DO SAMBA: 10 (Vitor Ferreira). Clique aqui para ver a letra do samba - Baixe este samba

O SAMBA É A MINHA ESCOLA (Vila Isabel – 1997) – Primeiro samba enredo composto por Mart’nália como integrante da ala de compositores da Vila Isabel. Para concorrer na disputa para o enredo “Não deixe o samba morrer”, a filha de Martinho se cercou de músicos tarimbados, que são pratas da casa na escola e que, casualmente, formavam a banda de apoio de seu pai, como Claudio Jorge, Agrião e Paulinho da Aba. O samba é simplesmente maravilhoso. Letra inspirada, poética e nostálgica, que decantava os antigos carnavais. No entanto, a obra caiu na semifinal. Mart’nália gravou o samba em seu disco “Minha cara”. Papai Martinho, desclassificado junto com a filha, também gravou o dele, com o nome de Prece ao Sol, presente no disco “Coisas de Deus”. NOTA DO SAMBA: 9,5 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba - Baixe este samba

AO CHICO COM CARINHO (Mangueira - 1998) - Sem palavras. Sambaço, aço, aço... um dos melhores que já ouvi. O samba que ganhou era muito bom, mas esse é muito superior. O refrão principal é de intenso agrado, paracido com os dos anos 70, com o "olê olê". A primeira parte é de intenso agrado. O refrão central - que na verdade não é refrão, pois não é repetido - é bom, mas acho a pior parte desse samba. A segunda parte é maravilhosa, um dos melhores trechos de um samba-enredo que já ouvi na vida. Pena, mas muita pena mesmo esse samba não ter ganho. NOTA DO SAMBA: 10 (Vitor Ferreira). Clique aqui para ver a letra do samba - Baixe este samba

QUEM DESCOBRIU O BRASIL FOI SEU CABRAL... (Imperatriz - 2000) - Sambaço, com todas as letras. Se fosse colocar as melhores partes aqui, colocaria a letra do samba inteiro. A primeira parte é maravilhosa, de começo apoteótico. O refrão central é apenas bom. O começo da segunda parte é a melhor deste sambaço: "foi por acaso, aquele dia / da tempestade à calmaria / foi seu Cabral, sequer sabia / que descobriria o nosso Brasil". O refrão principal também é maravilhoso. Uma coisa tem que ser dita: a decadência dos compositores, que nos anos 90 e o começo dos anos 2000 só traziam obras-primas. E hoje... é melhor nem falar, com todo o respeito. NOTA DO SAMBA: 10 (Vitor Ferreira). Clique aqui para ver a letra do samba - Baixe este samba

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