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Mwene Kongo - O Reino Europeu na África que se tornou Folclore no Brasil (Acadêmicos de Vigário Geral - 2019)

Mwene Kongo - O Reino Europeu na África que se tornou Folclore no Brasil (Acadêmicos de Vigário Geral - 2019)

Todos sabem que Folclore é um conjunto de tradições e manifestações populares constituídos por lendas, mitos e costumes que são passados de geração em geração. Muitos desses costumes são criados por arte e graça do Destino e do Acaso, que muitas vezes andam de mãos dadas, criando cenários que séculos mais tarde dão origem a eventos, à primeira vista, nada relacionados entre si.

Pois bem, é sobre isso que o G.R.E.S. Acadêmicos de Vigário Geral irá versar no Carnaval de 2019: Como uma disputa político-religiosa do século XII ajudou a criar uma celebração que se tornou uma tradição folclórica no Brasil.

Nossa história começa com o mundo dividido em dois: os Reinos europeus cristãos e os Reinos africanos muçulmanos. Essa situação sufocava comercialmente Portugal, pois o monopólio das rotas marítimas no Mediterrâneo pelos árabes impedia a expansão econômica e comercial do Reino Português. A solução encontrada seria buscar um ponto ainda não submetido à influência Islã muçulmano na costa ocidental da África.

Para por em prática esse ousado plano de expansão era necessário antes resolver dois problemas: criar uma ciência marítima para se jogar no desconhecido (até então o Mundo abaixo da linha do Equador era um mistério) e formação de capital para desenvolvimento da indústria naval.

Para conseguir o acumulo de capital para um investimento desse porte, o Rei de Portugal (D. João I) criou uma engenhosa e astuta montagem de providências de ordem político-econômico, como a união entre a nobreza (com uma política de concessões e de acumulo de capital pelo Estado), a burguesia comercial, que lucraria muito com as oportunidades comerciais no exterior e a Igreja, pois afinal a expansão comercial portuguesa significaria também a expansão da Santa Fé na luta contra os “infiéis” (nome dado pelos cristãos aos muçulmanos na época), autorizando Portugal a criar em 1418 a Ordem dos Cavaleiros de Cristo, Ordem essa que nacionalizava em Portugal os bens da Ordem dos Templários (extinta em 1312 pelo Papa Clemente V).

O desenvolvimento da ciência marítima era imprescindível, pois o mero conhecimento do Norte Magnético oferecido pela bússola não seria suficiente para o tamanho das pretensões da Coroa Portuguesa. Uma moderna cartografia nasceu com as “cartas-portulanos”, a navegação astronômica foi introduzida, dando uma maior precisão à determinação da posição dos navios e uma modificação nas velas para sempre buscar o melhor aproveitamento dos ventos coroou o avanço tecnológica-científico da navegação. Essas inovações levaram Portugal no decorrer de apenas um século da África e América ao Extremo Oriente.

Coube ao Infante D. Henrique, filho do Rei D. João I, dar inicio efetivo ao envio de “navios em busca daquela terra” (a costa da África) e os primeiros frutos foram as descobertas da ilha de Porto Santo e o arquipélago da ilha da Madeira. Um grande marco na História das navegações deu-se com a ultrapassagem do temível cabo do Bojador, conhecido como cabo do Medo. O encalhe e destruição dos navios na região criaram histórias que monstros marinhos habitavam o local. Os encalhes na verdade eram causados pelo assoreamento da região provocados por tempestades de areia do deserto do Saara (a 25 km da costa do cabo, a profundidade, em alto mar, era de 2 metros).

Após várias tentativas frustradas de abordagem e vendo cada vez mais a viagem alongar-se para o Sul da África, enfim em 1483 o navegante Diogo Cão adentra pela Foz do Rio Congo e encontra um povo, que se não era cristão pelo menos também não era adepto ao islamismo. Os portugueses encontraram uma sociedade organizada, adepta ao culto aos ancestrais e regida por um soberano conhecido como Mwene Kongo (Senhor do Congo) também chamado de Manicongo.

A aliança com os portugueses trouxe, no início, benefícios ao Congo, pois o apoio militar dos portugueses foi crucial para o monarca congolês derrotar seus inimigos. Os portugueses, que como todos os conquistadores nunca deram nada de graça a ninguém, exigiram uma contrapartida para essa cooperação: a conversão dos africanos ao cristianismo. O início do estabelecimento de relações entre um país europeu e uma parte da África fora do controle religioso-econômico do Islão se deu primeiro com o batismo do Manicongo Nzinga-a-Nkuwu em João I, mesmo nome do Rei de Portugal, fazendo crer que o Reino do Congo seria um espelho do Reino de Portugal e em seguida com um Regimento do Rei português que impunha um modelo europeu ao reino do Congo.

A aliança entre os reinos começou a se dissolver com a instabilidade política causada pela imposição da monogamia cristã em uma sociedade poligâmica e quando a ganância portuguesa percebeu que obteria lucros muito maiores incluindo entre os escravos comercializados em Portugal os negros que habitavam no Congo.

À medida que o sonho da criação de um reino à maneira dos brancos ia se dissolvendo no Congo, Portugal passava a conviver com a transformação de suas cidades em verdadeiras terras de negros com a chegada de quase 15 mil africanos entre os séculos XV e XVI.

Os negros do Congo escravizados em Portugal, devido às suas condições de cristãos oriundos de um “reino” considerado “irmão”, gozavam de uma pretensão de superioridade pessoal em relação aos demais submetidos à mesma posição de cativos. E foi devido a essa proximidade com a fé cristã que, ao defrontaremse com a imagem de Nossa Senhora do Rosário exibindo seu rosário de contas comparam-no ao de seu Ifá (Orixá da adivinhação e do Destino). Graças a essa devoção pela Santa, com o apoio do poder real, foi criada a Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

E foi justamente nessa Confraria que, buscando um reconhecimento de sua identidade de africanos oriundo do Congo, surgiu uma festiva teatralidade destinada à recuperação simbólica de uma grandeza perdida: a criação idealizada de um Reinado do Congo.

O auto do Reinado do Congo ocorria dentro das igrejas do Rosário e trazia as figuras do Rei e da Rainha do Congo e representava a coroação do Nwene recebendo não mais o impu (barrete africano representativo do poder), mas sim uma coroa real dourada. À saída das igrejas a encenação ganhava ares festivos com cantos, gingados, simulações guerreiras e alegres bailados.

O surgimento do congado permitiu aos negros cristianizados do Congo o reconhecimento de sua identidade original africana com a coroação pública dos reis do Congo nas igrejas, mas também a sua admissão às atividades religiosas das procissões (como a de Corpus Christi) e dos círios.

E graças à necessidade de mão de obra escrava nas plantações de cana-de-açúcar, essa encenação fantasiosa da realidade africana sob a forma de representação artístico-religiosa atravessou o Atlântico com a expansão colonial portuguesa, transformando-se ao chegar ao Brasil em folclore sob os nomes de congado, congos ou congados.

O Congado tornou-se uma manifestação folclórica muito forte nos locais onde a mão de obra escrava era maior (Pernambuco, Bahia, Minas Gerais).

No século XVII, com a repercussão dos feitos em Angola de sua Rainha negra Ginga (Nzinga Mbandi), um novo fenômeno cultural ganhou força em Pernambuco. Uma celebração cujo personagem principal do auto não era um rei e sim uma rainha: o Maracatu.

O Maracatu acrescentou novos personagens nobres a corte e uma boneca sagrada chamada de Calunga representando o poder mágico-religioso africano capaz de evocar antepassados.

E assim, celebrando a cultura do folclore brasileiro chegamos ao fim de nossa história. História essa que atravessou quase nove séculos, desde a disputa entre mouros e cristãos no Mediterrâneo e na África até a formação de uma forte manifestação cultural no Brasil. Essa história só teve esse desfecho graças ao Negro, que mesmo escravizado, forjou e ainda forja nos dias de hoje o cotidiano do Brasil, seja através das
Irmandades, dos candomblés, dos congos, das macumbas e maracatus. Pois de um modo ou de outro, através das festas do Rosário e das Coroações dos Reis do Congo, o imaginário africano foi colonizando o imaginário europeu no Brasil.

Autores:

Alexandre Costa Pereira

Lino Sales

Marcus Vinicius do Val

 

Bibliografia:

Rei do Congo: A Mentira Histórica que Virou Folclore;

José Ramos Tinhorão;

Editora 34.