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Tybyras (Unidos da Ponte - 2027)

Tybyras (Unidos da Ponte - 2027)


"No norte do Brasil - nas terras tupinambás,
Terra das Tybyras, onde canta a jacu,
As parentes indígenas contam histórias de antigamente,
E, com a magia do petun, falam das encantadas que existem neste lugar.

Dizem:"

O PRAZER VERMELHO

Este relato é um fino fio de chama sobre um mundo que ainda está em curso. Nestas terras do avermelhado Pau-Brasil, o prazer era o que aquecia a vida. Havia um fogo daqueles que sobe e queima dos pés à cabeça e que exala de todos os poros do corpo. Fogo celebrado em sua sagrada dimensão. A vida se lançava sem receios às labaredas do desejo. Auá, abá!

Contam que para os habitantes desse caloroso paraíso a natureza tinha infinitas formas e que o deleite recebia a proteção dos espíritos guardiões. Não havia mal no êxtase de abraçar e beijar. Os juruás que aqui aportaram no início se assustaram com Anhangá, pois viam nele a aparência de um outro conhecido que eles chamavam de demônio.

Mas que tontos! Depois aprenderam que aqueles olhos ardentes só brilhavam para quem agia contra a beleza e o equilíbrio da vida. Quando isso acontecia, o espírito transformava-se em bicho e defendia as suas crias com garras e chifres de veado. Anhã, Anhã, tată!

Abaixo do equador, o couro do corpo ardia como o roçar dos pelos de urtiga ao livre tocamento de suas naturas. A boca, os pequenos lábios e o céu da cabeça coravam-se em tons incandescentes como os de Bixa orellana. Os de além-mar, acostumados a terras secas e frias, ao chegar aqui se aproveitavam que na terra úmida, entre galhos e folhas, moitas e baitos incendiavam-se com o atrito do fazer cunin. Antes cobertos até os pés, agora suavam despidos ao fazer cunin e mais cunin, serpenteando na toca um do outro para ter cumprimento...

Os estrangeiros se entregavam à luxúria como quem comia o fruto proibido oferecido por uma cobra, só que nos mundos de cá ela nunca enganou ninguém. Pelo contrário, admirar o balanço da jiboia era aprender com a sua sabedoria. O vai e vem de sucuris, caninanas e surucucus era um sibilar de alegria. Em algumas línguas, os viajantes ouviram que aqueles que desfrutavam a união de suas cobras que chacoalhavam pelos vasos traseiros tinham como som tybyra.

NA MIRA DO CANHÃO

Falam que apesar do prazer, não demorou muito para o tal pecado aqui chegar com cabelos ao redor da boca. Não satisfeitos em apenas levar em suas caravelas as nossas cores, riquezas e sabores, começaram a trazer na bagagem a culpa, o medo e as suas prisões de papel. A brancura dos europeus nada tinha de candura, pois nos depenaram para aplicar as suas duras penas. Suas visitas eram carregadas de más intenções disfarçadas em trajes angelicais.

O triste Narciso aqui se instalou e tentou fazer desta O triste Narc terra um espelho de sua feiura. Via nos povos daqui o reflexo do seu desejo, mas espalhava terror para fazer do outro a sua própria imagem. A ordem era roubar o brilho, a missão era apagar as estrelas. As escuras, os hipócritas se lambuzavam e usufruíam dos prazeres originários, mas perante a luz da cruz os condenavam e maldiziam.

O poder da terra livre e desnuda não se ajoelhou para rezar. Permaneceu altivo. Foi então que as crenças de lá entraram em conflito com as de cá e uma disputa que atravessa os tempos teve início. Os inquisidores provocaram dor e tormento semelhantes ao ferimento de um escorpião. O tribunal da fé picou e envenenou os povos com as leis do seu ofício.

Os visitantes trouxeram dois pequenos potes chamados de "homem" e "mulher" e tentaram aprisionar todos os mundos de gente dentro deles.

Tybyras, no entanto, ali não aceitaram entrar. Elas sabiam moldar com delicadeza seus 000 próprios potes. Ao massagear o barro, tocavam o universo dos sonhos. Podiam transitar entre as cuias e entre os vasos sem distinção. Teciam e fiavam adornos para enfeitá-los como o próprio corpo. Com o sumo das plantas, grafavam suas própriasno histórias. Sua natureza era muito maior do que a da terra prometida e suas raízes eram tão longas quanto os seus cabelos lavados em doces águas.

Testemunham que na "terra das palmeiras", os capuchinhos infringiram a própria lei e tentaram destruir todas as tybyras com o corpo de uma só. O colonizador nunca teve humanidade.

Tybyra, uma pessoa que não poderia se adequar à imposição.

Uma pessoa cuja natureza era imensurável. Uma pessoa. Foi amarrada à boca de um canhão.

Um curto pavio foi aceso pelo fogo que outrora era sagrado.

Tybyra foi dividida na Ilha da Assombração.

Metade de seu corpo foi abraçada pela terra e nela entranhou para fertilizar. A outra metade foi engolida pelo mar e dele subiu para se transformar. O que os capuchinhos não sabiam é que ali era a terra das encantarias e que Tybyra nunca deixaria de estar.

Aquele canhão seria virado para outra direção.

REFLORESCENDER

Tybyra do Maranhão se encantou e fez do vento sua morada. A fumaça do canhão, nociva como xawara, foi por ela dissipada para que prevalecesse ka'atimbó, a consagrada fumaça das matas.

Desde então, em noites quentes ela sai para dançar em meio à névoa. Atrás dela seguem outras parentes que se encantaram, formando entre as nuvens um emplumado rio suspenso pelos ares.

Vão tibiras, kudinas, çacoaimbeguiras... Bailam pelas terras de Tupinambás, Potiguaras, Guaranis, Guaicurus, Botocudos, Coerunas, Kadiwéus, Kraôs, Xavantes...

Os povos espalham sementes para que a pluralidade de flores de ser continue brotando. Em todos esses anos, ela nunca deixou de florescer.

Em cada ramo que se divide para multiplicar a vida, o poder das ancestrais é renovado com a baba da chuva. Elas, que carregam em si mais do que um espírito e por isso gozam de grande prestígio em suas comunidades, repassam seus poderes xamânicos e o conhecimento sobre cada folha e cada erva. Tibiras, kudinas, çacoaimbeguiras... morubixabas e curandeiras da magia que desabrocha com a ensolarada sensualidade.
Nessas terras, nunca houve apenas dois tipos de árvores, pois uma floresta é formada por diferenças. São elas que atraem. Por isso os seres se entrelaçam, se confundem em meio às pintas e às peles pintadas. Em um voo de liberdade, como pássaros abrem suas asas para cantar um gemido no tronco do juremá. Mergulham dentro um do outro e como um peixe fazem borbulhas de amor à luz da lua.

Piração de pirarucu! Grunem, gritam, rugem em uma sinfonia de bichos e bichas que orgulhosamente soltam a franga sem nenhuma vergonha. Ao balançar seus volumosos rabos, libertam suas feras para ecoar o esturro de que tudo vale naturalmente.

Dizem que por onde o rio de Tybyra passa, os corpos são reflorestados com o fruto do sonho. O Brasil é território indígena e terra de florestas que clamam, dançam e nunca deixaram de experimentar o prazer de viver molhada. Esse rio não banha apenas um ou outra, mas corre para que toda a sociedade possa se umedecer livre do medo e da culpa. É um desejo coletivo. coletivo.

Contam que esse rio se encontrará com a Sapucaí, o rio que canta, onde a fantasia há de se tornar vida e borboletará,

"Recordando aquelas TYBYRAS que tanto deitaram-se e deleitaram-se em nossa Terra".

GLOSSÁRIO
ABÁ / AUÁ: pessoa indígena.
ABRAÇAR E BEIJAR: na linguagem codificada da Inquisição, eram variantes eufemísticas para a penetração anal.
ANHÃ: em tupi, é o espírito protetor dos animais.
BAITO: para o povo Bororó, é uma casa dos homens, onde só se permitia a entrada após severas provas de iniciação.
BIXA ORELLANA: nome científico do urucum.
ÇACOAIMBEGUIRA: termo utilizado para se referir à "mulher homoafetiva", considerando os conceitos ocidentais.
CAPUCHINHO: missionário da Ordem dos Frades Menores do ramo de São Francisco.
CUNIN: para o povo Kraô, significa relação sexual de troca-troca.
JACU: nome popular no Brasil para aves do gênero Penelope, comuns em zonas de florestas.
JURUÁ: em tupi-guarani, significa "boca com cabelo" e era utilizada para nomear os colonizadores europeus.
KA'ATIMBÓ: fumaça benéfica do mato e das ervas, associada aos ritos da Jurema sagrada.
KUDINA: entre o povo Kadiwéu, eram "homens" lidos como "mulher" sob o conceito de gênero ocidental. Eram pessoas absolutamente integradas ao grupo social, que os reconhecia como grandes artistas.
MORUBIXABA: em tupi, termo para chefe/cacique da comunidade indígena.
NATURAS: na linguagem codificada da Inquisição, termo para pênis e vagina.
PETUN: fumo, tabaco.
TATÁ: fogo.
TER CUMPRIMENTO: na linguagem codificada da Inquisição, significava ter orgasmo.
TYBYRA: termo utilizado pelos Tupinambás para se referirem ao "homem homoafetivo", considerando os conceitos acidentais.
VASO TRASEIRO: na linguagem codificada da Inquisição, era um termo para ânus.
XAWARA: para os Yanomami, força maléfica e invisível associada à fumaça do garimpo que espalha doenças.