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OS ESQUENTAS DO CARNAVAL 2026: UMA ANÁLISE DESPRETENSIOSA DE UM MOMENTO CADA VEZ MAIS IMPORTANTE DA SAPUCAÍ

OS ESQUENTAS DO CARNAVAL 2026
Uma Análise Despretensiosa de um momento cada vez mais importante da Sapucaí


11 de junho de 2026, nº 82


Capa do CD dos Esquentas 2026
Divulgação/Rio Carnaval

O Carnaval de 2025 marcou uma mudança importante na dinâmica dos desfiles do Grupo Especial. O aumento do número de dias de apresentação e a consequente redução do número de escolas por noite ampliaram significativamente o tempo destinado aos chamados "esquentas". Entre aspectos positivos e negativos, a principal consequência foi a possibilidade de cada agremiação explorar melhor esse momento de preparação, valorizando sua história e fortalecendo a comunicação entre bateria, canto e arquibancadas. Esse ano tivemos o primeiro álbum dedicado exclusivamente aos esquentas desde o histórico lançamento de 1998. Diante disso, nos propomos a analisar como cada escola aproveitou esse espaço em termos de repertório, impacto emocional, aproveitamento do tempo e capacidade de mobilização do público.

VIRADOURO - A campeã do Carnaval apresentou um dos melhores esquentas do ano. A abertura com o ponto cantado de Malunguinho (que já parece ter se tornado uma entidade protetora da escola) e o samba-enredo de 2025 criou imediatamente uma atmosfera de identidade e pertencimento. O repertório trouxe ainda sambas históricos da Viradouro e da Estácio de Sá, numa justa homenagem a Ciça, figura central na trajetória de ambas as escolas. Apenas um detalhe: vários dos sambas apresentados não foram originalmente conduzidos pelo mestre homenageado à frente da bateria, caso de "Tititi do Sapoti" e dos sambas de 1997 e 1998 da escola de Niterói. Nota: 9.9

BEIJA-FLOR - A estreia da dupla Nino e Jéssica foi bastante positiva. O samba-exaltação e o hino de 2025 levantaram o Setor 1 logo nos primeiros minutos. A homenagem a Neguinho da Beija-Flor foi um dos pontos altos do esquenta. Já o samba de roda inserido na sequência acabou reduzindo um pouco a intensidade emocional construída até então, provocando uma leve queda de temperatura antes do desfile. Nota: 9.9

VILA ISABEL - A Vila apostou forte nos sambas-exaltação e conseguiu um início extremamente impactante. O público respondeu prontamente, criando um ambiente favorável para a entrada da escola na avenida. Por outro lado, a ausência de sambas-enredo históricos pesou. Ficou a sensação de que o repertório poderia ter explorado mais a rica memória musical da agremiação. Nota: 9.9

SALGUEIRO - O melhor esquenta do Carnaval. O Salgueiro encontrou a combinação perfeita entre seus sambas-exaltação e alguns dos mais importantes sambas-enredo de sua história. Tudo funcionou com naturalidade e intensidade crescente. A coincidência histórica de desfilar na quarta-feira, dia dedicado a Xangô, pela primeira vez em sua trajetória, tornou ainda mais simbólica a execução do samba de 2019, dedicado ao orixá. Esquenta que preparou espiritualmente e emocionalmente a escola para um grande desfile. Nota: 10

IMPERATRIZ - A escola iniciou com o samba de 2024, que, assim como o de 2026, recebeu críticas durante o pré-carnaval, mas funcionou muito bem na avenida. Em seguida, veio o clássico de 2025, que já nasceu histórico graças ao inesquecível "Vai começar!". O resultado foi um esquenta impactante e eficiente. Ainda assim, alguns sambas mais antigos fizeram falta e poderiam ter enriquecido ainda mais a viagem pela memória musical da agremiação. Nota: 9.9

MANGUEIRA - A abertura com "Exaltação à Mangueira" e "Tem Capoeira" era simplesmente obrigatória e funcionou muito bem. Entretanto, a sequência trouxe um samba menos conhecido e uma adaptação oriunda do repertório de torcida organizada, opções que encontraram menor adesão junto ao público. Além disso, a ausência de grandes sambas-enredo históricos da verde e rosa deixou uma lacuna perceptível. Nota: 9.8

UNIDOS DA TIJUCA - Um ótimo esquenta, reunindo sambas-exaltação e sambas-enredo impactantes. O destaque absoluto foi "O Dono da Terra", talvez o maior samba da história da escola. O casamento entre os intérpretes e a bateria foi perfeito, funcionando como um verdadeiro prenúncio da aula de chão que a Tijuca daria logo após. Nota: 10

GRANDE RIO - Embora tenha recorrido a clássicos recentes que ajudaram a elevar o patamar do cancioneiro da escola, o esquenta acabou transmitindo uma sensação de frieza inesperada. Faltou um pouco mais de explosão e envolvimento emocional. A impressão deixada pelo esquenta acabou antecipando algumas características do desfile que seria apresentado em seguida. Nota: 9.8

PARAÍSO DO TUIUTI - A escola optou por um formato enxuto. O tradicional samba-exaltação e o histórico hino de 2018, associado ao maior desfile de sua história, cumpriram bem seu papel. O samba de 2026 foi recitado durante boa parte do esquenta. A estratégia foi inteligente por reforçar a obra junto ao público, mas deixou uma sensação de incompletude para quem esperava ouvir mais sambas históricos da agremiação. Nota: 9.8

PORTELA - A abertura com seus dois maiores sambas-exaltação foi capaz de arrancar lágrimas de muitos portelenses. A sequência de sambas-enredo clássicos manteve o nível elevado. Os pontos de Oxum e Oxóssi, embora legítimos dentro dos fundamentos religiosos da escola, destoaram um pouco do repertório tradicionalmente associado a ela e reduziram momentaneamente a intensidade da apresentação. A retomada veio em grande estilo, com as homenagens a Gilsinho no ponto de Xangô e na emocionante execução de "Maria, Maria", de Milton Nascimento. Nota: 9.9

MOCIDADE - Uma verdadeira aula de construção de repertório. A sequência formada pelos sambas de 1985, 1992, 1991 e 2022 mostrou a força histórica da escola. Houve ainda um bonito componente afetivo quando Igor Vianna iniciou o esquenta interpretando um samba eternizado na voz de seu pai, Ney Viana, durante o campeonato de 1985. Uma pena que tanto o samba-enredo quanto o desfile apresentados em seguida não tenham conseguido sustentar o clima criado. Nota: 10

ACADÊMICOS DE NITERÓI - Fundada em 2022, a escola naturalmente ainda não possui um repertório histórico consolidado para explorar. Diante desse desafio, construiu um esquenta eficiente com a presença de Fafá de Belém, a execução da canção de Gonzaguinha (já incorporada anteriormente ao repertório carnavalesco pelo Império Serrano) e o sempre infalível "Vou Festejar". A resposta do público foi imediata, levantando a Sapucaí e demonstrando que, mesmo sem tradição acumulada, é possível construir momentos de grande comunicação popular. Nota: 9.9

Naturalmente, esse texto se trata de um exercício lúdico e despretensioso feito por um apaixonado pelo Carnaval. O objetivo é apenas contribuir para o debate e oferecer críticas construtivas sobre um momento tão importantes dos desfiles, que durante muito tempo foi negligenciado, sobretudo pela televisão.

Cabe parabenizar a LIESA pela iniciativa de ampliar o tempo destinado aos esquentas, transformando-os em verdadeiros espetáculos dentro do espetáculo. Também merece destaque o esforço das escolas em resgatar suas histórias, valorizar seus repertórios e proporcionar ao público momentos de emoção, memória afetiva e celebração da cultura do samba.

Se o desfile é a consagração, o esquenta tornou-se cada vez mais a alma que prepara a avenida para recebê-la.

Cláudio Carvalho
claudioarnoldi@hotmail.com