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Os sambas do Grupo Especial do RJ 2027 por Cláudio Carvalho

Os sambas do Grupo Especial do RJ 2027 por Cláudio Carvalho

As avaliações e notas referidas apresentam critérios distintos dos utilizados pelo júri oficial, em nada relacionados aos referidos desempenhos que as obras virão a ter no desfile'

Viradouro: Historicamente, a vermelha e branca de Niterói costuma apresentar sambas impactantes nos anos seguintes às suas conquistas, característica que, desta vez, não se repetiu. O samba de 2027 traz características semelhantes às de “Malunguinho”, composição dos mesmos autores e interpretada pelo mesmo intérprete da versão concorrente. Embora desenvolva bem a narrativa do enredo, a obra carece de passagens mais empolgantes e de momentos de maior explosão musical. As alterações promovidas na melodia também não agradaram, especialmente o caco “dom do saber", que destoa do conjunto da obra. Nota: 9.8

Beija-Flor: Embora não haja incorporação na religião de Zeneida, o samba é de grande qualidade e encontra justamente no verso "incorpora caboclo" um de seus principais trunfos. A composição de 2027 evoca a memória do histórico samba de 1998, que representou uma verdadeira virada de chave na discografia da Beija-Flor. Resgata um pouco daquela atmosfera, com um refrões marcantes e melodia contundente. Jéssica e Nino demonstram, mais uma vez, excelente entrosamento e segurança na interpretação, mostrando-se plenamente à altura da missão de suceder o inesquecível Neguinho da Beija-Flor. Nota: 10

Vila Isabel: Apesar de toda a polêmica que envolveu a escolha, o samba, que marca a anunciada despedida de Martinho da Vila das disputas, cresceu bastante tanto na versão apresentada pela escola quanto na gravação oficial. O refrão introduzido encaixou-se muito bem à melodia e deu mais corpo à composição, desmistificando a ideia de que a junção com outro refrão necessariamente tornaria o samba melhor. A melodia não "cai" um segundo sequer. O velho Martinho venceu a queda de braço em uma obra que está longe de figurar entre seus melhores sambas, mas que, ainda assim, representa um belo epílogo para um dos maiores compositores da história do samba e do carnaval. Nota: 9.9

Salgueiro: Samba de letra contundente, que traduz com propriedade o tom crítico do enredo, propondo uma desconstrução do estereótipo construído em torno de Xica da Silva e assumindo um discurso de denúncia das violências historicamente sofridas por ela e por tantas outras mulheres pretas. É uma composição com a cara do Salgueiro, que mexe com os brios do salgueirense e resgata a força contestadora que faz parte da identidade da escola. Musicalmente, porém, apresenta alguns momentos em que a irreverência e o tom de denúncia dão lugar a uma atmosfera mais excessivamente dolente, o que provoca uma mudança de temperatura ao longo da obra. Nota: 9.9

Imperatriz: O que foi dito sobre a Viradouro em relação a Malunguinho, também se aplica à Imperatriz e seu Itan de Oxalá de 2025. A escola parece ter apostado na mesma fórmula: um samba de letra elaborada, melodia envolvente e que se destaca na safra pela qualidade de sua construção musical. O contraponto está justamente na complexidade da letra, que não é de fácil compreensão. Talvez pela própria densidade do enredo, o samba exija uma escuta mais atenta para que suas referências e significados sejam assimilados. É uma obra que tende a revelar suas qualidades aos poucos, mas que pode encontrar alguma dificuldade de comunicação em uma primeira audição. Nota: 9.9

Mangueira: Provavelmente, o samba do ano. Quem acompanhou as eliminatórias da Mangueira sabe da força dessa obra, que já se destacava desde a disputa. O refrão principal é fortíssimo, com letra e melodia de grande impacto, daqueles que permanecem na memória. A escola encerrará o carnaval de 2027 com um samba à altura de sua tradição e na condição de candidata ao título às vésperas de seu centenário. Um ponto que merece ressalva é a participação do intérprete oficial Dowglas Diniz, que poderia ter recebido maior destaque na faixa. Sua presença acaba ficando um tanto ofuscada pelas participações das gigantes Alcione, Daniela Mercury, Leci Brandão e Maria Bethânia, quando ele merecia ocupar um espaço mais protagonista na gravação. Nota: 10

Tijuca: Depois do grande salto de qualidade em termos de samba e desfile em 2026, a escola do Borel aposta em outra obra literária para repetir o sucesso: o romance "A Cabeça do Santo", da escritora cearense Socorro Acioli. O samba é bem construído, apresenta uma letra adequada ao enredo e tem uma melodia redondinha, que, em alguns momentos, soa um pouco monocórdica. Destaque especial para o show da bateria Estandarte de Ouro do Mestre Casagrande na faixa. Uma dica: ouça com fones de ouvido! Nota: 9.9

Grande Rio: A homenagem da tricolor da Baixada à Gana reafirma a retomada de grandes obras da escola a partir de 2020. A letra apresenta soluções inteligentes, enquanto a melodia aposta em notas longas e variações típicas dos sambas dos anos noventa. Destaque para o refrão principal, que, assim como o do samba de 1993, foi inspirado em um ponto cantado de Umbanda. Samba com pegada nostálgica, cada vez mais rara de se encontrar nos dias de hoje. Estreia com o pé direito de Ito Melodia, que divide com a afinada Anitta boa parte da faixa e só solta seu tradicional grito de guerra no final. Nota: 10

Tuiuti: A composição de Cláudio Russo, Gustavo Clarão e Luiz Antônio Simas mantém o padrão de qualidade apresentado pela escola desde sua chegada ao Grupo Especial, há dez anos. A letra é primorosa e descreve muito bem o enredo sobre Tia Ciata, embalada por um refrão forte e marcante. A melodia, por outro lado, soa um pouco confusa, sobretudo nos primeiros versos, e a obra carece de um clímax que lhe confira maior impacto e emoção. O samba cumpre sua função, mas não chega a empolgar e passa elegantemente despercebido na safra. Destaque para mais uma interpretação segura do já veterano Pixulé. Nota: 9.8

Portela: Um samba que emociona, mas deixa a sensação de não explorar todo o potencial do enredo em homenagem ao Mestre Monarco. A letra é boa, embora apresente refrões pouco criativos, sobretudo o do meio, com o jogo de palavras entre o “A” e o “Que”. Tem o mérito de fugir da tendência de se transformar em uma colcha de retalhos de obras do homenageado, buscando uma identidade própria. A melodia é funcional, mas não chega a empolgar. Por fim, fica a sensação de que Monarco merecia mais, apesar da participação dos baluartes e da boa performance de Bruno Ribas na faixa. Nota: 9.8

Mocidade: Com um enredo necessário sobre a latinidade, a Estrela Guia de Padre Miguel parte em busca de dias melhores após duas penúltimas colocações consecutivas. O samba, que surgiu como azarão na disputa, começa bem, remetendo a antigos clássicos do cancioneiro da escola, mas acaba adotando uma narrativa confusa do meio para o final. A melodia, embora consistente, perde força ao longo da obra, mas consegue se recuperar nos versos que antecedem o refrão principal. Enfim, ainda não foi dessa vez que a escola conseguiu recuperar o sopro de inspiração que marcou seus sambas entre 2017 e 2022. Nota: 9.8

União de Maricá: Debutante no Grupo Especial, a escola da Região dos Lagos homenageia o antropólogo Darcy Ribeiro, que dá nome à passarela do samba, em seu enredo. O samba tem o mérito de se concentrar mais na obra do que na vida do autor, como costuma acontecer em homenagens desse tipo. O refrão principal chama a atenção negativamente pela solução de terminar todos os versos com palavras na terminação “-il-iu”. Uma faixa agradável de ouvir e que cumpre seu papel, embora esteja longe de figurar entre os destaques da safra. Nota: 9.8