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As avaliações e notas referidas apresentam critérios distintos dos utilizados pelo júri oficial, em nada relacionados aos referidos desempenhos que as obras virão a ter no desfile A GRAVAÇÃO DO CD - Lançados pela primeira vez ainda no mês de outubro, os
sambas-enredo da Série Ouro seguem uma tendência de
queda de qualidade vigente desde 2023, quando as encomendas passaram a
ser um expediente mais comum entre as escolas do Acesso. Para a
temporada 2027, das 17 (!) agremiações da chave, 11 (!)
não realizaram disputas na quadra, optando pela medida que, de
uma forma geral, vem contribuindo para uma pasteurização
dos hinos do grupo. O resultado é mais uma safra
burocrática, com poucos destaques. Numa primeira prateleira,
coloco União da Ilha, Estácio de Sá e Unidos de
Bangu. Aparecem na sequência: Unidos de Padre Miguel, Porto da
Pedra e Arranco. Responsável pela produção do CD
da Série Ouro desde 2022, Macaco Branco mais uma vez nos oferece
uma gravação em que equilibra, de forma exemplar,
bateria, intérprete e coro, superando novamente o CD do Grupo
Especial. O único porém fica por conta das
introduções longas e exageradas no começo das
faixas, com o canto do samba-enredo em alguns casos se iniciando depois
de um minuto. Como curiosidade, no disco da elite do Carnaval Carioca
do distante 1996, os intérpretes de Porto da Pedra e Unidos da
Ponte eram, respectivamente, Wantuir e Serginho do Porto. 31 anos
depois, os experientes cantores voltam a dividir um mesmo álbum
defendendo as suas agremiações de origem.
1 – IMPÉRIO SERRANO – O Império abre com um samba menos denso em relação ao que vinha cantando nos últimos anos. A obra panfletária que exalta a luta contra a ditadura é fruto de uma junção e de fácil memorização. Curiosamente, o que se tornou o refrão principal era a conclusão da segunda parte de uma das parcerias. Tanto que a melodia do verso "Ontem me pintaram de subversivo" não reúne as características de início de refrão, o que pode causar um estranhamento em uma primeira audição. No mais, o valente samba-enredo imperiano é apenas correto em sua sequência, não possuindo trechos de muito destaque. Acostumado historicamente a desenvolver enredos de crítica social, como "Eu Quero" (1986) e "E Verás que um Filho teu não foge à luta" (1996), o samba-enredo para 2027 não se tornará marcante como os citados. Mesmo com as introduções longas que caracterizam o CD, pelo menos se esperava no alusivo uma menção ao clássico "Heróis da Liberdade" de 1969, que está presente tanto no título do enredo quanto na sinopse. Ao invés disso, o bom intérprete Daniel Silva utiliza seu grave vozeirão para bradar um hino de protesto, seguido de um discurso. NOTA: 9,7.
2 – UNIDOS DE PADRE MIGUEL – Sem dúvida, o grande destaque da faixa da UPM é a nova dupla de intérpretes do Boi Vermelho. Lissandra Oliveira e Juan Briggs mostram uma ótima sintonia e defendem com bravura o denso samba, que remete aos anteriores da agremiação de maneira até a causar a sensação de déjà-vu. A obra é envolvente e apresenta refrães fortes para exaltar a ancestralidade das águas, com refrães falsos ajudando a sustentar a melodia. Um dos bons sambas da safra da Série Ouro 2027. NOTA: 9,9. .
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4 – UNIÃO DA ILHA – O melhor samba do ano no Acesso, curiosamente na primeira vez que a Ilha optou pelo expediente de encomenda. Ao cantar a trajetória do compositor Getúlio Marinho, a tradicionalíssima escola insulana mantém a linha de celebrar personalidades outrora esquecidas, como Marietta Baderna em 2025. Para a próxima temporada, a Ilha aposta num samba complexo, com variações arrojadas notadas principalmente na segunda parte marcada por versos estendidos e pesados. O conjunto a partir de "O Macaco é Outro / salve o Dois de Ouro" procura fugir do lugar comum, o que resulta na melhor melodia de todo o CD, ainda que fuja da identidade histórica de lirismo com animação que marca os maiores clássicos da escola. Nem a mudança brusca para a sequência final de uma harmonia mais simples, iniciada por "Pula a fogueira, yayá", tira o brilho do samba, que mantém um alto nível nas demais partes e com uma grande atuação de Temtem Jr, que valoriza ainda mais o hino. NOTA: 10. .
5 – EM CIMA DA HORA – A azul-e-branco de Cavalcanti segue sua sequência de enredos de temática afro, ao falar da luta da angolana Luzia Pinta contra a escravidão. Estreando na Em Cima da Hora, Igor Vianna forma dupla com Igor Pitta para defender um samba com a pegada que a temática recomenda. A cabeça da obra lembra outras composições de Cláudio Russo, com a primeira parte formada por versos mais curtos. A melodia mais interessante aparece no refrão do meio. Mesmo que a escola utilize o recurso do falso refrão antecedendo o principal, ainda assim é um samba-enredo que carece de explosão, com a impressão depois da audição de que falta algum molho. NOTA: 9,8. .
6 – ESTÁCIO DE SÁ - O centenário da Deixa Falar é celebrado pela Estácio com um verdadeiro sacode no CD, sendo a melhor faixa do álbum e com o samba crescendo de maneira significativa nas vozes de Vitor Cunha e Guto. Com a valentia sendo a marca da melodia do início ao último verso, o hino estaciano para 2027 ganha mais força através do andamento para cima característico da agremiação. O samba não cai em nenhum momento e a faixa é daquelas que dá vontade de repetir seguidas vezes. Tem que respeitar! NOTA: 10. .
7 – PORTO DA PEDRA – O Tigre de São Gonçalo tem um samba forte para falar da histórica turnê de artistas brasileiros em Angola realizada em 1980, denominada Projeto Kalunga. Com mais uma interpretação inspirada do veterano Wantuir, a obra tem uma melodia mais pesada na primeira parte e cresce com o ótimo refrão central, apresentando uma segunda mais pra cima. Faço uma ressalva ao refrão principal, que na minha opinião falta força e apresenta uma melodia irregular no verso "O Tigre é feito de semba", mas que não tira o brilho do belo samba-enredo. NOTA: 9,9. .
8 – UNIÃO DO PARQUE ACARI - O centenário de Bezerra da Silva é o enredo do Parque Acari, com a voz original do saudoso homenageado abrindo a faixa numa fala retirada da música "Eu Sou Favela", do CD "Presidente Caô Caô" de 1992. O samba biográfico sobre o velho porta-voz do morro abre com um refrão fácil em referência ao clássico "Overdose de Cocada". Infelizmente, o hino cantado por Tainara Martins e Thiago Acácio é desprovido da irreverência marcante do sambista, sendo apenas correto. Os compositores optaram por uma melodia mais leve, o que escasseou a obra de trechos mais marcantes. Bezerra merecia mais! NOTA: 9,7. . 9 – BOTAFOGO SAMBA CLUBE - O samba que combate o feminicídio e denuncia a violência contra a mulher deixa muito bem o seu recado em termos de letra. Contudo, a melodia botafoguense num todo é burocrática e não cativa o ouvinte em nenhum momento. O hino defendido por Nêgo conta, na faixa do CD, com a participação da cantora Flavia Saolli na primeira passada. NOTA: 9,6. .
10 – VIGÁRIO GERAL - Para falar sobre os antigos bondes do Rio de Janeiro, a Vigário Geral opta por um samba animado e pra cima. O hino é valorizado pelo bom intérprete Danilo Cezar, cada vez mais identificado com a agremiação. Os dois falsos refrães que servem como fechamento do simpático samba-enredo são o ponto forte da obra, que apresenta versos curiosos como "Arranque pela pata". NOTA: 9,8. .
11 – UNIDOS DA PONTE - A grande atração da faixa da Ponte é o retorno de Serginho do Porto à escola onde iniciou a carreira na década de 90. O veterano intérprete entoa o famoso alusivo que aumenta ainda mais a nostalgia de quem acompanha os discos de samba-enredo desde os tempos do Teatro de Lona da Barra da Tijuca. O hino da escola para 2027 recorda a trajetória de Tibira do Maranhão, uma indígena que seria a vítima do primeiro assassinato por homofobia no Brasil. O samba até tem variações melódicas e refrães interessantes, além de versos coloquiais como "sou a bicha que ensina" (que inspira um hilariante caco "bicha" por parte de Serginho). Porém, a obra carece de explosão e passa despercebida na safra. NOTA: 9,7. .
12 – UNIDOS DE BANGU - A homenagem ao saudoso compositor Marquinho PQD gerou um dos melhores sambas do ano na Série Ouro. Com Freddy Vianna e Pipa Brasey mais uma vez mantendo uma boa sintonia, a Bangu apresenta uma obra de excelentes refrães e levada agradável. Na primeira parte, o sonho do artista é relatado em primeira pessoa, enquanto na segunda são celebrados os artistas que gravaram as suas músicas, com a qualidade melódica sempre mantendo uma boa coesão. É o melhor samba-enredo da agremiação desde 2018. NOTA: 10. .
13 – ARRANCO - A exaltação à música baiana através do Olodum proporcionou um samba animado para o Arranco. O alto astral da obra, que marca mais uma bela parceria da dupla Pâmela Falcão e Rodrigo Tinoco na gravação, tem como cartão de visitas o falso refrão que remete ao clássico oitentista "Madagascar Olodum". Na sequência, o refrão principal utiliza um recurso presente nos hinos atuais da Beija-Flor, com a repetição do primeiro verso: "O Engenho de Espinguela vem fazer seu Baticum". Aliás, é um excelente tributo a Zé Espinguela, enredo da escola em 2023, cuja residência, que sediou o primeiro concurso das escolas de samba em 1932, hoje abriga a quadra do Arranco. A sequência do samba é envolvente, com o início da segunda parte lembrando propositalmente sucessos do axé music. Um dos bons sambas do CD. NOTA: 9,9. .
14 – INOCENTES DE BELFORD ROXO - Depois da Vigário Geral em 2024 e da Acadêmicos de Niterói em 2025, chegou a vez da Inocentes realizar a terceira homenagem para Maracanaú nos últimos quatro Carnavais da Série Ouro. Vivendo uma excelente fase, Charles Silva proporciona uma das melhores interpretações do disco ao entregar uma performance animada para o bom samba, de longe o melhor do trio que celebrou a cidade cearense. O hino tem bons momentos, como na primeira parte em "Há um xodó, forrobodó, marakanã", além do destaque absoluto para o refrão central, o único trecho mais dolente de todo o conjunto melódico. A escola recebe uma nova chance no Acesso, depois de uma penúltima colocação em 2026 considerada injusta. NOTA: 9,8. .
15 – JACAREZINHO - A rosa e branco recebe uma nova oportunidade na Série Ouro logo após um desfile problemático prejudicado por um incêndio e terá um samba forte para o enredo dedicado a Oxumaré. Um dos tantos assinados por Cláudio Russo no grupo, o valente hino do Jacarezinho traz um sentimento de que alguns trechos melódicos já foram escutados em outras obras. Ainda assim, o samba-enredo cantado por Ailton Santos e Matheus Gaúcho possui grandes momentos, como o balanço do refrão principal no verso "Oxumarê lê lê marê ê araká" e na segunda parte, antes do refrão que antecede o principal, em: "No meu ilê, a tua bandeira / Vai ter xirê na terça-feira". NOTA: 9,8. .
16 – SANTA CRUZ - De volta à Sapucaí depois de cinco anos, a Santa Cruz recorreu a um expediente que realizou em 2019, 2020 e 2022, ao encomendar o samba para compositores como Samir Trindade e Junior Fionda. Porém, diferentemente do êxito que estas três obras alcançaram, o hino sobre as guerreiras Agojiê do reino de Daomé não chama tanta atenção, com a melodia parecendo genérica em muitos trechos. Estreando na escola, Rafael Tinguinha tem uma boa atuação no CD, mas a faixa é mais uma a passar despercebida na safra. NOTA: 9,7.
. 17 – SÃO CLEMENTE - Após uma rápida passagem pela Intendente Magalhães em 2026, a São Clemente retorna à Sapucaí beneficiada pela decisão da Liga RJ de promover a vice-campeã da Série Prata, dois meses depois do Carnaval. A tradicional agremiação da Zona Sul desfilará com um enredo e um samba que são a cara da escola. Fruto de uma fusão de duas parcerias, o hino saúda a gambiarra e o jeitinho brasileiro num samba animado e com trechos irreverentes, como o divertido refrão central que possui todo o DNA clementiano. O principal também é bem pra cima, de melodia tradicional e que traz um protagonismo para o Bem-Te-Vi, o novo mascote da São Clemente. As duas partes são valentes, valorizadas pela boa gravação do estreante na escola Chicão, titular de um carro de som pela primeira vez na Passarela do Samba. Será uma obra bem adequada para abrir os trabalhos do Carnaval 2027 na sexta-feira. NOTA: 9,8. | ||