PRINCIPAL    EQUIPE    LIVRO DE VISITAS    LINKS    ARQUIVO DE ATUALIZAÇÕES    ARQUIVO DE COLUNAS    CONTATO

Os sambas de 2011

Os sambas de 2011 por João Marcos

A GRAVAÇÃO DO CD: A produção do CD conseguiu a façanha de deixar os sambas ainda mais mal gravados do que ano passado. Excessivamente acelerados, nivelam por baixo aquilo que já não é um primor de qualidade e originalidade. Só se consegue ouvir os instrumentos nas paradinhas, cada uma mais acrobática do que a outra, muitas vezes quebrando a cadência dos sambas. Eu não entendo como um produto que serve para divulgar as obras utilize recursos que camuflem as melodias, tornem as letras incompreensíveis e deixa tudo igual. E os sambas? A safra é um repeteco dos últimos anos, com exceção da do ano passado, que teve 3 ou 4 sambas acima dos demais. Em geral, é quase tudo do mesmo nível, sem surpresas, sem nada de muito especial. Os bois também estão lá, apesar de mais escondidinhos – basta uma análise mais atenta para se perceber fragilidades graves em algumas obras. No geral ,é um ano sem picos – o melhor samba é o da Mangueira, que talvez fosse o quarto ou quinto melhor concorrente da escola. Enfim, a única sugestão que eu deixo é a autocrítica a todos os envolvidos na festa – sim, porque o nosso papel não é falar mal por falar mal. Nós tentamos, muitas vezes, alertar para o suicídio que os compositores estão cometendo, comprometendo sua arte em busca de conceitos que são mutáveis, como “funcionalidade”, “comunicação com o público”, etc., jogando o jogo sujo de eliminatórias viciadas. Alertamos para o suicídio que as escolas cometem ao cortar pela raiz sambas que fogem dos modelos. Quando será que elas entenderão que o objetivo não é ganhar título, mas gerar paixões - as paixões que levam os CDs a serem comprados, que levam os ingressos das quadras a serem vendidos, que valorizam o espetáculo para o público. E o que gera esta paixão, o que pode durar mais do que 80 minutos, são os sambas. Quando será que entenderão que não é para forçar o compositor a encher as quadras que as eliminatórias são feitas? Que um samba ruim que tira nota 10 NÃO É O SUFICIENTE? NOTA DA GRAVAÇÃO: 1,5 (João Marcos).
 
UNIDOS DA TIJUCA – O enredo confuso não é explicado pela letra, que prefere ser apenas uma série de “deixas” que prepararão o público para o espetáculo visual. É um recurso válido, como outro qualquer, mas, para o meu gosto pessoal, faz com que o samba seja jogado para escanteio, seja dependente, não tenha valor salvo na sua função de trilha sonora. Este é o caminho que a escola adotou nos últimos anos, com maior ou menor sucesso, e, em comparação com o samba do título, este é até melhor. Os refrões são muito bons, em especial o do meio. A versão do CD perde um pouco em energia para o concorrente gravado pelo Tinga, mas começa os trabalhos de forma bem razoável. 
NOTA DO SAMBA: 8,1 (João Marcos).
 
ACADÊMICOS DO GRANDE RIO – É um dos bons sambas da safra, bem superior ao que a escola apresentou no ano anterior. É um samba curto, com boas variações de melodia – que ainda conseguem se sobressair, mesmo com andamento inexplicavelmente acelerado da bateria. A letra é bem clara, conta o enredo todo, e só peca por ter alguns lugares-comuns. Pode perder ponto no verso do “Caldeirão” que não foi antecedido pelo artigo definido, como no “coroa hoje brilha”, da Vila Isabel, em 2009. No mais, parece até um pouco os sambas do início dos anos 90. O único momento que me incomoda é o refrão do meio, que lembra demais Vila Isabel 1997. 
NOTA DO SAMBA: 8,5 (João Marcos).
 
BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS – Uma boa melodia, que não foge das características dos sambas da escola, apesar de bem alegre e gostosa de cantar. É um samba de muitas variações, em especial a linda entrada da segunda parte. A letra possui alguns problemas, como a seqüência de “lás” na primeira, um em seguida ao outro - “ no seu Cachoeiro / E lá vou eu... De calhambeque a onda me levar”. Esses “lá”s repetindo não geram efeito algum dentro do samba e deveriam ter sido evitados. O “botar pra fora” do refrão principal também dá uma impressão ruim, não era o ideal, mas a sua manutenção na letra serviu para manter a rima dentro do verso, que é um recurso interessante. É um bom samba, que aponta novas direções para as composições da escola e é destaque da safra. 
NOTA DO SAMBA: 8,8 (João Marcos).
 
UNIDOS DE VILA ISABEL – Não é um samba que me desagrade, não, pelo contrário. A melodia é muito interessante, apesar do andamento acelerado que é ouvido no CD. Porém, é perigoso para uma escola que passou a escolher este tipo de samba para fazer desfiles mais competitivos. Ele segue uma linha muito parecida com sambas que foram canetados nos últimos anos – na verdade, apresenta quase todos os elementos que levam os jurados a dar notas baixas. Começa pela quase ausência de enredo na letra - a obra é mais uma exaltação e um “desabafo” do que um samba-enredo. Não tem nem metade do enredo. A letra tem umas inversões complexas, como em “Trança a paixão, o nobre fiel /Às lágrimas viu rapunzel mais linda” – a Imperatriz, no ano de Santa Catarina, perdeu por isso, no verso do “Românticas”. Além disso, o “Modéstia à parte, amigo, sou da Vila”, acelerado, é difícil de cantar, pode fazer com que se atropelem as sílabas, o que pode gerar mais descontos. Por outro lado, a melodia tem ousadias interessantes e o “bis” antes do refrão final foi uma solução muito bacana. 
NOTA DO SAMBA: 8,0 (João Marcos).
 
ACADÊMICOS DO SALGUEIRO – A escola apresenta três intérpretes oficiais, que se revezam na faixa. Mas, confesso, as transições são bem feitas, e bem menos brutais do que na faixa da Mangueira. E o samba? Tem suas ousadias, que merecem aplausos. A melodia do início da primeira tem uma variação interessante, que ficou bem pontilhada com o arranjo de cordas audível. Não sei se vai dar certo na avenida – acho que ficou um pouco solto. Além disso, o erro de métrica em “No maior espetáculo da tela” (tem uma sílaba a mais, que faz com que o “culo” seja resumido em uma sílaba) dá uma ligeira má impressão. O samba cresce, com uma melodia bem construída a partir daí, em especial na segunda. A letra é que cai um pouco no final, a partir de “Vi beijo do homem na mulher aranha / E o "King-kong" no relógio da Central.” Esta tentativa de ilustrar o visual do desfile ficou meio forçada, merecia uma solução mais interpretativa. Mas o pior verso é o “Toca o ‘bip-bop’ Furiosa Bateria” que sequer traduz o sentido da sinopse neste trecho. Enfim, é um bom samba, simpático, cheio de boas intenções e alguns erros. Pelo menos, tenta ousar. 
NOTA DO SAMBA: 8,0 (João Marcos).
 
ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA - A introdução de Beth Carvalho, mais do que homenagem a Nelson, é uma homenagem à própria cantora. É bonita e tal, mas não sei se seria mais apropriada para o início do desfile – no CD, depois de algumas audições, fica meio cansativa. Quanto ao samba, é o melhor do ano, mesmo não sendo o melhor das eliminatórias da escola. Coincidência ou não, é de autoria dos mesmos compositores que ganharam na X9, escola de São Paulo onde o intérprete Zé Paulo canta. Tem apenas dois pontos fracos – o “‘Morro’ de alegria, emoção”, onde vemos umas “aspas” desnecessárias, e o fraco refrão do meio. Já a segunda, talvez seja o único momento em todo o CD em que você encontra uma gota de emoção em algum samba. A obra tem a cara da Mangueira de antigamente e o refrão de cabeça é arrasa-quarteirão. Muito bom. 
NOTA DO SAMBA: 9,0 (João Marcos).
 
MOCIDADE INDEPENDENTE DE PADRE MIGUEL – Daqui por diante, a coisa começa a complicar. O samba da Mocidade tenta repetir a fórmula do ano passado, só que, ao contrário da letra fácil de 2010, a obra deste ano é quase tão incompreensível quanto o delirante enredo da escola. E o grande problema é este – tirando o refrão principal, o resto do samba é marchinha fraca. Nada contra as marchinhas, mas esta não tem um décimo do brilho da do ano passado. A letra tem inúmeros potenciais concorrentes ao Troféu Há Muito Tempo o Homem Deu no Couro 2011, como o belíssimo “O que era gelo se tornou felicidade”. E o que falar do despropositado protesto contra os jurados do verso “De cada cem só não vem um”? É o pior samba da safra. 
NOTA DO SAMBA: 6,4 (João Marcos).
 
IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE – É ruim? Não. Aliás, muita gente gosta deste samba. A sinopse era muito complicada e, eu sinto, a grande preocupação dos compositores talvez tenha sido não criar uma letra trash. Até conseguiram - a letra é explicadinha, apesar de não ter grandes sacadas. O que eu não vejo é a proposta de leveza do enredo e das fantasias - o samba pesa uma tonelada. E, apesar de ter muitas variações melódicas, nenhuma delas chama a atenção. Sendo curto e grosso, o samba é simplesmente chato. Não tem defeitos, mas também não tem mais nada. 
NOTA DO SAMBA: 7,0 (João Marcos).
 
PORTELA – “Lindo como um céu azul / Meu grande amor, gigante Império / para exaltar Itu / Lá vem meu Tigre / Um caso sério”. O refrão é de um samba concorrente do Império de Casa Verde, para 2010. O samba venceu o concurso em fusão com outro. Este refrão não foi utilizado na fusão. O que o Império de Casa Verde dispensou, jogou na lata do lixo, a Portela escolheu para si. Como amplamente anunciado, os compositores de São Paulo autorizaram a utilização do refrão, o que não muda a situação. Continuando – o trecho “Todo medo que havia era a mitologia do mar” está embolado, e o “Nas águas de Iemanjá / Nem pirata aventureiro ou rei podem mandar” tem problema de métrica. E diante desses problemas todos, é o pior samba do ano? Não, e é, inclusive, bem superior ao do ano passado. A parte do “Oi leva mar, oi leva” é sensacional. A letra tem uma escorregada ou outra, mas é didática e o samba está muito bem gravado e ajustado ao intérprete. Enfim, perde pontos do ponto de vista artístico pelo refrão reutilizado e pelos probleminhas apontados, mas tem suas virtudes. 
NOTA DO SAMBA: 7,5 (João Marcos).
 
UNIDOS DO PORTO DA PEDRA – Um samba razoável e simpático da escola. Achei a letra complexa demais para o enredo simples e fácil, escondendo do grande público até quem é a  homenageada. Além disso, a utilização de Liberdade/ libertar, em versos próximos um do outro demonstra falta de recurso. As “aspas” em “Prega uma ‘peça’ à esperança” eram desnecessárias. A melodia é interessante, mas, como é costume nos últimos sambas da escola, quer trazer uma emoção que a letra não exprime, apesar de, desta vez, ter dado um pouco do clima do enredo à faixa. O verso para se tomar cuidado é “Vem no galope o corcel, feito azul do céu” – o canto tende a cair muito por conta da melodia. 
NOTA DO SAMBA: 7,3 (João Marcos).
 
UNIÃO DA ILHA DO GOVERNADOR – O samba da Ilha é o genérico do genérico. A melodia você já conhece e já ouviu em quinhentos sambas do acesso; a letra é fraca, com seus “vai”s e “vou”s. O refrão de cabeça é razoável, mas o do meio, tende a ser difícil de cantar no andamento acelerado que a bateria da escola costuma trazer. Na segunda, a letra fica muito fraca, com direito a “Do alto surgiu diferente / Não sei se é bicho, não sei se é gente?”. Enfim, muito fraco. 
NOTA DO SAMBA: 6,8 (João Marcos).
 
SÃO CLEMENTE – É um samba competente, uma fusão que ficou bem feita, com uma letra bem clara, que explica o enredo. A melodia não tem graves problemas, mas também não marca. O maior problema do samba é que ele venceu o melhor samba concorrente do Grupo Especial do Rio de Janeiro em 2011, assinado por Eduardo Medrado. Quando se compara o que a escola tinha de opção com o que foi efetivamente escolhido, a sensação é de que tudo está errado. Boa estréia do cantor Igor Sorriso. NOTA DO SAMBA: 7,6 (João Marcos).