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HIRAM ARAÚJO

HIRAM ARAÚJO

Oh, meu Brasil
Flor amorosa de três raças
És tão sublime quando passas
Na mais perfeita integração

Ilu Ayê, Ilu Ayê, Odara
Negro dançava na Nação Nagô

Portela
Teu carinhoso tema é oração
Pra falar de quem ficou
Como devoção
Em nosso coração

Vou me embora, vou me embora
Eu aqui volto mais não
Vou morar no infinito
E virar constelação

Vaquejada, boi-bumbá
Vem o gaiola
Vou viajar

Viva o rei
Viva o rei Dom João
O rei mandou vadiar
Na Festa da Aclamação


        Hiram da Costa Araújo é médico-cirurgião e há mais de 40 anos, trabalha em pesquisas relacionadas à história do carnaval carioca. Na década de 60, Hiram foi convidado pelo farmacêutico
Amaury Jório, seu sócio de profissão, para ser membro da Imperatriz Leopoldinense, já que Amaury era um dos fundadores da escola. Lá, ambos fundaram em 1967, juntamente com Ilmar de Carvalho e Fernando Gabeira, o Departamento Cultural e de Carnaval da Imperatriz Leopoldinense, o primeiro departamento cultural já criado numa escola de samba, organizando de forma coletiva os carnavais da agremiação. E foi justamente nesta fase que a Imperatriz começou a se estabilizar no primeiro grupo, sempre mordiscando colocações agradáveis. Hiram ficou na escola de Ramos até 1969. Em 1970, o colega Amaury Jório, que também era o então presidente da AESCRJ (Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) o convida para criar o chamado “Departamento Cultural da Entidade Representativa das Escolas de Samba”. Foi diretor dessa entidade até 1972.

        Vendo o belo trabalho do Hiram para com seus departamentos culturais no carnaval, a Portela decidiu apostar nele para realização do desfile de 1972. Pela primeira vez, a agremiação investia nesse tipo de entidade para preparar um carnaval. A escola havia sido campeã à apenas dois anos antes, com Lendas e Mistérios da Amazônia e estava na crista da onda do mundo do samba. O enredo se chamava Terra da vida, hoje muito conhecido como Ilu Ayê, graças ao inesquecível samba de Cabana e Norival Reis. Tratava-se de tema afro, exaltando a cultura e as tradições negras. Foi um enredo proposto por ninguém menos que Candeia, um dos maiores sambistas da história, que confeccionou o desfile de 72 junto com Hiram. Outra pessoa que ajudou nos preparativos do carnaval foi o cartunista Lan, portelense há muitos anos. Porém Hiram, talvez por egocentrismo ou arrogância, fez com que todos acreditassem que o carnaval seria somente dele, como todas as idéias saíssem apenas de sua mente. Colocou Candeia apenas um colaborador e não como carnavalesco, do mesmo modo que o próprio Hiram era. Isso começou a irritar não só Candeia, como também outros integrantes da Portela. Era o início de uma crise.

        Mas nada tiraria o brilho de Ilu Ayê e a Portela havia mostrado a todos antes do carnaval que havia vindo para brigar seriamente pelo título. E como já era de se esperar, o desfile foi extremamente positivo. O candomblé e todo misticismo africano entravam na avenida com uma garra invejosa, tendo uma comunicação imensa com o público, já que o samba era bastante popular. Hiram e Candeia investiram muito em fantasias rústicas, como a palha e a ráfia, dois materiais que tinham uma relação grande com o enredo. Efeito fez lembrar o futuro Kizomba, a festa da raça, pois unia uma seqüência de materiais primitivos em fantasias e alegorias com um acabamento linear, adaptado ao estilo de desfile, que acabou proporcionando muita aceitação do público e dos críticos. Foi mais um carnaval fantástico da Portela! A escola de Oswaldo Cruz acabou ficando num justo 3º lugar, perdendo para os quase imbatíveis desfiles da Mangueira e do Império Serrano, que foi o campeão.

        Em 1973, Hiram fez o enredo da Portela baseado no poema “Vou-me embora pra Pasárgada”, de Manoel Bandeira, que era uma homenagem ao aniversário de 50 anos da Portela. O desfile fazia diversas alusões ao universo das crianças, trazendo primeiramente diversas alegorias que lembravam muito um parque de diversões, rodeado de sonhos infantis. Também houve várias representações de comemoração do cinqüentenário da escola, incluindo um carro com 50 velas. O carnavalesco usou e abusou de vários adereços de mãos, o que aos poucos viriam a ser uma das principais características de seus desfiles. Mesmo debaixo de chuva, a Portela teve uma bonita passagem, emocionando a todos. O grande problema de 1973 foi um famigerado colapso que a bateria teve no meio de seu desfile na avenida. Ela havia perdido toda sintonia com o samba do estreante David Corrêa, comprometendo seriamente a escola no quesito harmonia. Ainda assim, a Portela ficou em 4º lugar.

        Para 1974, Hiram bolou uma homenagem a Pixinguinha, grande músico brasileiro que havia falecido pouco tempo antes. Porém novamente a sensação de crise mostra as suas garras. O presidente Carlinhos Maracanã chamou a dupla Jair Amorim e Evaldo Gouveia para fazer o samba da Portela e não era de se esperar que os dois ganhassem. Isso foi motivo de revolta! Acontece que, além de estarem quebrando uma tradição de que era proibida a vinda de compositores de fora da escola, ambos eram consagrados nomes do bolero, mas nunca sequer haviam feito um samba-enredo na vida. Isso deixou a Portela completamente dividida. Quase ninguém mais queria obedecer a uma diretoria que esnobava os membros mais tradicionais e só trazia conturbações ao mundo do samba.

        A Portela havia preparado um desfile imenso, de padrões quase atuais, pois a escola tinha cerca de 4.000 componentes. Além disso, Hiram preparou um desfile moderno e exuberante, afastado completamente dos primeiros desfiles de escola de samba, nos anos 30. O seu departamento cultural investiu muito no uso de cores fortes e reluzentes, em especial o dourado. Esse foi um dos melhores desfiles dos anos 70 e uma das passagens mais bonitas da história da Portela. Um dos momentos mais impactantes de 1974 foi uma belíssima alegoria, rodeada de dourado, com uma rosa desabrochando com o busto de Pixinguinha dentro. Tudo resultando num acabamento genialmente feito, de um extremo bom gosto, o que agradou em muito o público na avenida. Foi sem dúvida um dos melhores desfiles do ano! No resultado oficial, a Portela foi vice, perdendo só para o Salgueiro de Joãosinho Trinta.

        Em 1975, a Portela veio com uma garra fantástica, empolgada com a boa colocação do ano anterior. Hiram decidiu fazer um enredo baseado na clássica história de “Macunaíma” de Mário de Andrade. A escola já tinha confiança no estilo de seu carnavalesco, com seus departamentos culturais. A Portela fez um desfile multicolorido, com algumas variações abusivas de prata e azul. E essas colorações deram um charme especial nos seus já característicos adereços de mãos, sempre presentes em vários de seus desfiles. Alguns dos momentos mais marcantes daquele desfile foi o colorido abre-alas com a tradicionalíssima águia e o carro com o Gigante Piaimã, tendo Clóvis Bornay como destaque. Foi um desfile divertido, tendo uma comunicação imensa com o público, aliado ao animadíssimo samba de David Corrêa. Para melhorar ainda mais, a bateria não teve problemas, ao contrário dos anos anteriores. Estranhamente, a escola de Oswaldo Cruz ficou apenas no 5º lugar, mesmo apontado por muitos como campeã, pois aquela foi com certeza uma das passagens mais inesquecíveis da história da Portela.

        Mesmo com a seqüência de bons desfiles que a Portela andava fazendo, crise mostrava-se ainda forte e o estilo de carnavais do Hiram continuava sendo vítima de críticas. A Portela estava sendo modernizada, assemelhando-se cada vez mais com os carnavais luxuosos de Joãosinho Trinta. Segundo os próprios integrantes da escola, ela havia sido apenas um atrativo para inglês ver. Um desfile agigantado e frio não tem coexistência com os padrões tradicionalíssimos de uma escola de samba como a Portela. Hiram achava que o melhor jeito de fazer um grande desfile era trazendo inúmeras inovações para a escola e assim, tornar-la uma agremiação imbatível, pois teria força suficiente para enfrentar qualquer tipo de complicação. Ele ainda teve a sorte de contar com o apoio do presidente Carlinhos Maracanã, que defendia sua tese. Só que quase ninguém tinha a mesma visão que os dois. A Portela ficava cada vez mais dividida e só para apimentar ainda mais a situação, o eterno Natal da Portela vem a falecer, o que viria a desequilibrar por completo o sentimento de louvação dos membros mais tradicionais da escola.  Esses motivos levaram Cadeia e um outro grande grupo de sambistas a fundar a Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo. A Quilombo foi criada apenas com a intenção de valorizar as verdadeiras tradições da cultura negra e do carnaval carioca. Era uma escola comunitária, feita toda por membros da própria agremiação, que lembraria em muitos os velhos tempos do carnaval, voltando às raízes do samba. A Quilombo estava também longe dos desfiles oficiais, pois não competiria com as demais escolas de samba.

        Mesmo com tanta confusão, o carnaval de 1976 estava chagando e a Portela tinha que se preparar. A diretoria dessa vez preparou um desfile de contingente menor, pois o excesso de desfilantes andava atrapalhando a escola. Seria algo mais técnico, ensaiado constantemente para tudo dar certo na hora H. O carnavalesco, que contou com a ajuda de Maurício de Assis, desenvolveu o enredo O Homem do Pacoval, contando as histórias e mistérios da Ilha de Marajó. O desfile foi aberto pela tradicional águia trazendo uma imagem do falecido Natal. Talvez influenciado pela crise do ano anterior, Hiram fez um desfile baseado mais na garra do componente do que no luxo ou na exuberância. Ainda sim, foi um desfile bem-acabado, com uma seqüência de fantasias e alegorias muito bonitas, narrando o enredo com coerência. Foi um momento forte daquele ano, pois a Portela mostrou que ainda sabia fazer um desfile emocionante e tradicional, digno de campeonato. Infelizmente, mesmo com os investimentos técnicos, a agremiação fez um desfile um tanto atravessado, com problemas de desorganização. A Portela acabou ficando em 4º lugar, num ano em que a Beija-Flor sagrou-se campeã com um desfile revolucionário. Mesmo não obtendo um resultado excelente, a Portela acabou faturando o Estandarte de Ouro de melhor escola.

        Em 1977, Hiram decidiu falar da Festa da aclamação, que foi um belíssimo festejo feito no Rio de Janeiro em 1818 comemorando a aclamação de Dom João como rei de Portugal. Era um enredo bem interessante e o samba animado proporcionava chances aos portelenses de brigarem por uma boa colocação. Ao contrário do ano anterior, Hiram preparou um carnaval altamente luxuoso, exuberante, lembrando muito os carnavais de Joãosinho Trinta. Talvez passasse pela mente dele que essa era a única alternativa de deter a ferocidade da Beija-Flor, que viria a conseguir o bicampeonato neste mesmo ano. A Portela desfile majestosamente, com vários momentos de forte impacto. A diretoria também havia contratado recentemente as carnavalescas Rosa Magalhães e Lícia Lacerda para ajudar o carnavalesco na confecção do desfile. Elas utilizaram muito as obras de Debret como base nos desenhos de inúmeros figurinos. Foi um desfile muito bonito, porém havia faltado também algo presente no desfile de 76 e que seria decisivo na apuração do carnaval de 1977: animação. O componente estava sem a mesma garra de sempre, talvez por ficar impactado com a beleza do desfile. A Portela acabou faturando o 2º lugar, perdendo apenas por um ponto da Beija-Flor, o que prova que mesmo assim o resultado foi positivo.

        Para 1978, Hiram decidiu criar o enredo Mulher à brasileira, que seria uma singela homenagem as mulheres de nosso país. Novamente, a diretoria sofreu inúmeras críticas de seus sambistas mais tradicionais. A principal delas foi a escolha do samba-enredo, feito mais uma vez pela polêmica dupla Jair Amorim e Evaldo Gouveia. Acontece que ele era horroroso, até hoje considerado o pior da história da Portela. A escola de Oswaldo Cruz estava mais dividida ainda e o Hiram achava que o único jeito de unir-la novamente era conquistando um campeonato, o que estava, há bastante tempo, difícil de conseguir. Praticamente, não tinha nenhum jeito dela voltar a brilhar com tanta conturbação. Mesmo assim, ela tinha que prosseguir como podia, pois o carnaval de 78 se aproximava. E por incrível que pareça, o samba fraco acabou se tornando popular e ajudou a empolgar o público da Sapucaí. Ele era cantado afoitamente por todos que assistiam à escola e acabou funcionando. Hiram, pela primeira vez em seis anos como carnavalesco, limitou-se a apenas fazer o enredo. Todas as fantasias e alegorias foram criadas pelas figurinistas Rosa Magalhães e Lícia Lacerda. A Portela acabou felizmente fazendo um desfile quente, bem competitivo. Alguns dos melhores momentos daquele ano foram a excelente performance das baianas e a bela águia portelense, rodeada de passistas. Foi uma passagem bonita e empolgante, que acabou sendo muito aplaudida pelo público. Na apuração, a escola acabou ficando apenas no 5º lugar. Logo após aquele carnaval, Hiram Araújo deixa a Portela, sendo substituído pelo brilhante Viriato Ferreira.

        Mesmo com sua saída da Portela, Hiram continuou dentro do meio carnavalesco. Em 1984, assume na Riotur o cargo de Coordenador de Jurados, criando assim o primeiro curso para formação de jurados de escolas de samba da história. Hiram ocupou esse posto até 1986. Logo depois, o então presidente da Liesa e o patrono da Beija-Flor, Anísio Abraão David, o convida para ser coordenador de jurados da Liga, lançando o atual método de julgamento usado pelos jurados dos carnavais atuais. De lá para cá, pouca coisa desse método foi alterada. Em 1994, Hiram criou uma série de cursos profissionalizantes na UERJ baseados no estudo do carnaval carioca. No mesmo ano, ele funda na Liesa o “Conselho Consultivo de Estudiosos do Carnaval”. Em 1996, vira produtor da transmissão de carnaval da TV Globo. No ano seguinte, assume o cargo de assessor cultural da Liesa, posto que ocupa até hoje. Em 2006, Hiram recebe o título de “Professor Honoris Causa”, na Universidade Estácio de Sá. Esse evento marcou a consolidação do Instituto do Carnaval, cujo o objetivo é formar profissionais graduados ao estudo do carnaval e a difusão da identidade cultural do samba. Pela primeira vez na história, o carnaval tem reconhecimento universitário.

        Querendo ou não, Hiram Araújo foi um dos maiores responsáveis pela modernização do carnaval, em especial, da Portela. Hiram sempre propôs idéias de tornar os desfiles de escolas de samba, um negócio financeiro, o que, segundo ele, ajudaria a tornar-los mais fortes e desenvolvidos. Ele foi o responsável por trazer inúmeras inovações ao mundo do samba, fazendo com que o carnaval se padronizasse a era moderna, deixando muitas tradições de lado, na qual muitas são consideradas por ele como “saudosismo”. Além disso, ele é um dos poucos que ainda defendem a estrutura da Liesa no carnaval carioca, o que ele chama de “profissionalismo”. Por isso, Hiram Araújo sempre foi vítima de inúmeras críticas. Mesmo assim, sempre foi notável seu belo trabalho como carnavalesco da Portela nos anos 70 e ainda hoje, ele é uma das pessoas mais influentes do mundo do samba.

*Agradecimentos ao colunista João Marcos por algumas das fontes de pesquisa

HISTÓRICO: Começou criando um Departamento Cultural na Imperatriz Leopoldinense, em 1967
1967 a 1969: Imperatriz
1972 a 1978: Portela
1987 até hoje:
vem ocupando diversos cargos assessoriais na Liesa

MARCA: Uso de adereços de mãos, normalmente feitos com materiais simples, mas que dão uma bela visão, utilizando sempre um variado colorido

CAMPEONATOS: Nenhum

VICES-CAMPEONATOS: Dois ao todo, ambos na Portela: 1974 (O Mundo Melhor de Pixinguinha) e 1977 (Festa da aclamação)

ESTANDARTES DE OURO: Apenas um: 1976 (de melhor escola)

PS: na contagem dos “Estandartes de Ouro”, foram incluídas também premiações que não envolve somente o carnavalesco, mas também a escola como um todo, como “Melhor escola” ou “Comunicação com o público”

FOTOS DO HIRAM 



Hiram, ao lado do carnavalesco Milton Cunha e recebendo o título de Professor Honoris Causa
 

DESFILES DO HIRAM

 

O esfuziante “Ilu Ayê” de 1972 e a belíssima homenagem a Pixinguinha de 1974

 

“Macunaíma”, “Homem do Pacoval” e “Festa da Aclamação”, três passagens inesquecíveis do Hiram na Portela