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UNIDOS DO BITTE

UNIDOS DO BITTE

PRESIDENTE Alex Ricardo
CARNAVALESCO Everton Santana
DIRETOR DE CARNAVAL João Salles Neto
INTÉRPRETE Ciganerey
CORES Preto, Branco e Ouro
FUNDAÇÃO 01/03/2018
CIDADE-SEDE São Paulo-SP
SÍMBOLO Buldogue

A Unidos do Bitte foi fundada graças a perseverança do presidente Alex Ricardo em participar do Carnaval Virtual. Após tentar duas vezes sem sucesso criar uma escola em parceria, Alex pediu ajuda a João Salles, amigo de muitos anos e que já ajudara diversas escolas a surgir, sendo prontamente atendido. João com toda sua experiência no Carnaval Virtual assumiu a direção de carnaval da escola, organizou a casa, trouxe o Charlton Junior como carnavalesco e o Caio Souza como designer para completar a equipe da escola, com DNA 100% do JIO Folia.

Ano

Enredo

Colocação

2020 A Academia Nordestina de Letras -º (Especial)
2019 Ritual - Um Transe ao Mundo Indígena 4º (A)
2018 A epopeia de Severino de Maria, do finado Zacarias, lá da Serra da Costela, nos limites de Paraíba 3º (B)

SINOPSE ENREDO 2020

A Academia Nordestina de Letras

Sinopse: Heinrich von Bachmann

Abrem-se as portas de um nobre salão. Mocamas devidamente fantasiadas preparam a sala. Em bandeijas, cocadas, acarajés, porções de sarapatel e arrumadinho. As cadeiras se alinham. No mundo fantástico do Unidos do Bitte, hoje é dia de reunir a Academia Nordestina de Letras. Que nos desculpem Machado, o Bruxo do Cosme Velho, o interessantíssimo Mário de Andrade, o passarinho Mário Quintana, o sabiazante Guimarães Rosa, mas hoje é dia atenções voltadas aos literatos da região onde começou o Brasil. Infelizmente não mostraremos todas as cadeiras ocupadas. Mas das seis que mostraremos, esperamos que o folião experiencie cultura, conhecimento, alegria e vontade de vida. Afinal é disso tudo que se constroi o Nordeste.

O dono da cadeira de número 1 da nossa Academia Nordestina de Letras é seu patrono, o primeiro de destaque. Ironicamente, ele não tem ares divinos. Pelo contrário. É o Boca do Inferno: Gregório de Matos, a pena ácida de uma Bahia, segundo ele, natidecadente. Funcionários públicos corrompidos, putas, aspones bajuladores, escravos doentes por estarem em constante contato com esgoto, usura, inveja. Eis o objeto poético de Gregório. Triste, triste Bahia…

No século XIX, o projeto romântico tomava conta do mundo civilizado. A exacerbação do sentimento, o mergulho no ser, o relato da experiência individual em detrimento da universal dão o tom da arte. Em especial, temos a vontade de formação e unificação nacional. Na Europa esse sentimento é representado por muitos, como os irmãos Grimm na Alemanha, Jane Austen na Inglaterra, Balzac na França. No Brasil, o maior nome da prosa romântica vem do Nordeste e está sim na Academia Nordestina de Letras da Unidos do Bitte: José de Alencar.

Em Peri, d’O Guarani, temos nossa versão do herói romântico: belo, perfeito, síntese de nossa nação, símbolo da Amazônia. Iracema, anagrama de América, é alegoria ideologizada da formação do povo brasileiro: o homem branco e a mulher indígena se apaixonam, seu amor gera guerra entre nações. Moacir, filho do improvável casal, é o primeiro brasileiro, filho de beleza, conflitos e miscigenação. Já Senhora trata da lascívia, dos jogos de interesse e da ambição da sociedade carioca. Na trama, Aurélia compra um marido. Para o posto, propositalmente seleciona um homem que a humilhara quando ela era pobre. Manuel Canho, d’O Gaúcho, é homem lutador e arredio. Ama seus cavalos. Amará participar da Revolução Farroupilha. Mais tarde se deixará conquistar por uma bela dama. Peri do Amazonas, Iracema do Nordeste, Aurélia do Sudeste, Manuel do Sul. Alencar, você é de fato cofundador do nosso sentimento de união e de brasilidade.
 
E o que dizer desta cearense viciada em produzir? Rachel de Queiroz foi escritora, jornalista e tradutora. O romance com o qual debuta, O Quinze, discorre sobre a família do sertanejo Chico Bento, que, “sem legumes e sem esperança”, vagueia do sertão para a capital, fugindo da seca de 1915. Presa a mando de Getúlio Vargas, vem do cárcere a inspiração de Raquel para a composição de Caminho das Pedras. A pobre Noemi, mulher valente demais, boa demais para seu tempo e homens ao seu redor, termina, após vários percalços, numa ladeira de pedras. “Mais devagar, companheira”. O menino Daniel se descobre mágico e leva seus novos poderes inclusive para a TV. É incrível. O Menino Mágico consegue chocar ovos com as mãos e dormir em um lugar e acordar em outro. Ainda no mundo infanto juvenil, os dois pintinhos Cafute e Pena de Prata descobrem o mundo e, principalmente, a si mesmos ao fugirem do galinheiro. Além de literatura, Rachel abrilhantou o jornalismo brasileiro. Na coluna Última Página, do jornal O Cruzeiro, discorreu sobre cultura, sociedade, debateu com leitores e até comentou casos policiais. Pra completar na genialidade, até tradução de Balzac e Dostoievski a arretada cearense fez. Não à toa, Rachel foi a primeira mulher na Academia Brasileira de Letras. Fica, portanto, na nossa ANL.

Outra cadeira da ANL, outras deliciosas histórias. Arrisca-se a dizer que Jorge Amado seja o mais conhecido romancista nordestino. Quem não se lembra da sensualidade de Gabriela? Quem não se emocionou com a triste história dos Capitães de Areia, esses brasileiros autênticos, esquecidos pelo poder público e por nós mesmos? Que mulher não se sentiu uma Dona Flor, presa no dilema entre o amor certinho e a sacanagem com o garanhão bom de cama? E quem não assistiu as novelas Porto dos Milagres e Tocaia Grande, inspiraram em obras do nosso genial escritor? Salve Jorge Amado, mestre máximo do retrato da Bahia, que, ao fim e ao cabo, nos desnuda e nos examina no nosso âmago.

Morte e Vida, Severina. João Cabral de Melo Neto mostra, como Rachel, o desalento do migrante que foge da seca, mas em sua obra foca a morte e o renascimento constantes do povo como motor da obra. O rio, o cão e a cidade de Recife em discussão, n’O Cão Sem Plumas. O cão recifense não tem os frufrus do cão paulistano ou carioca, a expectativa de vida de um cidadão recifense era, nos anos 40, a mesma de um cidadão da então miserável Índia. Por quê? E por que “catar feijão é como escrever”? Por que na escrita precisamos nos delimitar a pegar as boas sementes da língua? Em Tecendo a Manhã, a ideia de que o trabalho conjunto nos emancipa sob a luz do sol. João Cabral é outra de nossas cadeiras na ANL do Bitte.

Já que a vida se faz no coletivo, já que um nordestino não é se outro também não for, por que não ter dois grandes poetas dividindo nossa última cadeira? Temos certeza de que Patativa do Assaré e Ariano Suassuna não se importariam, afinal, eram simples e generosos, como João Grilo, protagonista de O Auto da Compadecida, que na sua simplicidade conseguiu levar até mesmo o diabo na conversa. Na obra de Patativa, a roda da máquina de fazer farinha é o centro do universo. Ao seu redor, orbitam a vida do nordestino, seus amores, medos e anseios.
 
Em cada palavra, em cada verso, em cada aspecto da obra de cada um desses geniais escritores, a certeza de que esse lado, nem sempre assistido pelo poder público, encontra na arte a sua emancipação. Viva o Nordeste brasileiro! Viva a Academia Nordestina de Letras do Unidos do Bitte!


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