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Os sambas de 2012 por João Marcos As avaliações referidas apresentam critérios distintos dos utilizados pelo júri oficial, em nada relacionados aos referidos desempenhos que as obras virão a ter no desfile A GRAVAÇÃO
DO CD: Repeteco da produção do ano anterior, com a diferença de ter
o Jorge Perlingeiro enchendo o saco no início das faixas e um ou outro efeito
de sonoplastia, tipo as guitarrinhas quando se fala em reggae ou rock and roll.
Algumas faixas tem introduções desnecessárias, mas nada que comprometa o todo.
A diferença maior, para mim, é que as escolas parecem dominar um pouco melhor
os sambas, o que facilitou a produção a dar o clima correto para cada faixa. A
safra é muito melhor do que a do ano passado e uma das melhores dos últimos
anos e mostra que os compositores e as escolas começaram a sentir a necessidade
de algumas mudanças, que ainda são tímidas, mas se fazem necessárias. Os
destaques da safra são Portela e Beija-Flor. NOTA 7,0. BEIJA-FLOR
– A Beija-Flor tinha três sambas interessantes em sua Eliminatória – o de
Vinicius Nagem, que concorreu em Maranhão, defendido por Igor Sorriso, e que,
de forma bizarra, não foi nem selecionado como o representante do Estado na
semifinal; e os dois vencedores que compõem esta fusão. Sim, uma fusão, mas,
diferente das fusões mal feitas que tem por aí (e do Grupo B para baixo, o que
pintou de fusão ridícula e que causa angústia e aflição no ouvinte não está no
gibi), esta é bem realizada. Quem fez, sabe o que faz – Laíla mostrou novamente
porque está luz a frente da grande maioria dos diretores de carnaval do Rio de
Janeiro. Os dois sambas tinham qualidades e problemas – o de Samir e cia. era
redondo, mas faltava o grande momento, o trecho genial. Muitos falavam do
“Valeu, João”, mas sinceramente, não me convencia como um momento sublime no
samba. Já a obra do “participação especial”, ao contrário, era um samba que
alternava momentos exuberantes, como o espetacular refrão do meio, e trechos
forçados e sem graça, como o horroroso refrão de cabeça e o inicio da primeira
parte, que parecia desencontrado com o resto do samba. Então, o que o Laíla
fez? Pegou o samba mais interessante, apesar de mais imperfeito, e juntou com o
refrão de cabeça e o início da primeira do samba mais redondo, apesar de menos
brilhante. O resultado é um samba ‘rolo compressor’ como os que a escola
costumava trazer no meio da década passada. Alguns tentam dizer que a fusão foi
mal feita e que a transição dos dois sambas teria gerado uma quebra de melodia.
Estão erradíssimos – ali, existe uma variação melódica ousada, que enriquece o
samba e faz com que a parte do samba do “participação especial” entre com ainda
mais pegada e valentia. A única crítica que eu faço é o finalzinho
da segunda, que é pobre em letra – a parte do ‘reggae do bom’ não fez minha
cabeça. Na gravação, preferia que a bateria tivesse optado por um andamento um
pouquinho mais lento. NOTA: 9,4 UNIDOS DA
TIJUCA – A escola, este ano, vem com um samba menos denso e mais melodioso,
voltando a um estilo que era comum na época em que Wantuir era o intérprete. As
mudanças já são sentidas no refrão de cabeça, que tem uma levada um pouco mais
paulista, como pode ser observado na divisão imposta no último verso. O resto
do samba flui naturalmente, tudo muito bem feito e sem problemas. Talvez falte
um refrão do meio mais forte. Na gravação, o grande momento melódico do samba,
que começa em “bilhou em terra distante”, não ficou bem resolvido. O que me
incomoda um pouco é a letra, que foge um pouco ao espírito mais popularesco do
enredo – as expressões em ‘nordestinês’ não se encaixam no direcionamento
poético do samba, e os compositores, o tempo todo, tentam ter aquelas sacadas,
as famigeradas “aspas”, que se não forem bem usadas, soam
forçadas. Não tem tantos momentos de diferencial, mas mantém uma
grande regularidade, diferente do samba do ano passado, que tinha ‘momentos
chicletes’ estrategicamente espalhados, que contrastavam com outros muito
burocráticos. NOTA: 8,3. MANGUEIRA
– O belo samba Mangueirense pode não ser tão emocionante como o do ano passado,
mas é tão bem feito quanto. Foi muito interessante a opção da produção de
colocar o pessoal do Cacique de Ramos se revezando na primeira passada do
samba. Quando começa a segunda passada, com a bateria, o coral e os
intérpretes, a faixa ganha uma vibração aguerrida que é única no CD. Algumas
sacadas da produção, como o coral sozinho gritando o “Chora!” são golpes de
mestre no coração de qualquer sambista. Mesmo o momento mais fraco, o refrão do
meio, estranho em letra nos dois primeiros versos (parece que faltam palavras
para fechar as idéias), quando entra no bis, tem uma mudança de melodia
interessantíssima. A segunda parte, com a repetição do “sim” é a cara dos
sambas antigos mangueirenses – era um recurso muito utilizado nos sambas do
Hélio Turco no final dos anos 80 e início dos 90. Ótimo. NOTA: 9,0. VILA
ISABEL – Parece que André Diniz resolveu tentar calar os críticos – o samba
deste ano tem ousadias formais e experimentações, como a ausência do refrão do
meio; a letra fugiu das “aspas”, e é mais direta e poética. É um samba com mais
cara de Vila Isabel - pelo menos, da Vila dos anos 90, o início do reinado do
compositor. O refrão de cabeça é excelente. Mas a impressão é que na hora de
fazer um golaço, depois de driblar meio time, passar pelo goleiro... Ele chuta
na trave. Apesar da inexistência de aspas, os vícios de letra ainda persistem,
os exageros, como em “na cor da pele, o negro, fogo aos olhos que invadem”.
Para uns, esse tipo de coisa parece erudição, mas no meu ouvido soa forçado. Há
também umas reciclagens de melodia aqui e ali, como no começo da metade final,
que lembra o “Em límpidas águas, a clareza”, do samba de 2006. Mas tudo isto
seria perdoável se o samba seguisse a força do início. Os ‘contracantos’ ou o
que quer que seja aquilo, podem ser uma ousadia, mas além de terem ficado
melodicamente mal resolvidos, difíceis de cantar, arrastando o samba todo para
baixo, ainda tem um aspecto terrível para a evolução dos sambas enredo – deixa
a coisa ainda com mais cara de teatro, os componentes fazendo um coral
independente, ensaiado, como de figurantes de uma ópera. Não é a manifestação
espontânea, o ‘cantar junto’ – é apenas um enfeite para o tenor. Se der errado,
vai virar uma confusão; e ser der certo, é uma descaracterização do samba
enredo enquanto gênero. Uma pena. Se o samba não fosse tão bom do refrão até o
“Reina Ginga”, a coisa poderia ter descambado para o desastre. NOTA: 8,0. SALGUEIRO
– O samba salgueirense lembra um pouco as obras da escola no início do milênio.
Diferente do samba da Tijuca, o ‘nordestinês’ foi razoavelmente bem usado, a
letra é bem clara e passa todo o enredo. A melodia é que é comum demais, só
ganhando algum destaque no bom refrão do meio. O resto do samba é funcional,
sem grandes ousadias, salvo um trecho na segunda, do Padim Ciço, que lembra
justamente a melodia dos contracantos vilaisabelanos e que fica um tanto solto
em relação ao resto do samba. É simpático, agradável, gostoso de cantar, mas
não vai além disso. NOTA: 7,5. IMPERATRIZ
– Um dos melhores sambas da safra e a consolidação do talento de Jeferson Lima,
talvez o compositor que, nos últimos anos, melhor tenha conseguido fazer sambas
dentro do estilo contemporâneo. Tem uma ótima melodia e uma letra poética e
interpretativa, sem rebuscamentos desnecessários ou citações literais da
sinopse. Passa o clima do enredo com sutileza e força. O meu único senão é o
trecho final, a partir do “ê Bahia”, que deveria ser um terceiro refrão – a
melodia pede isso e, quando entra o refrão de cabeça, parece que ficou faltando
alguma coisa no finalzinho do samba. Mas ainda assim, é destaque na safra.
NOTA: 9,1. MOCIDADE –
Depois da catastrófe do samba-enredo do ano passado, a Mocidade resolveu optar
por uma obra que é o extremo oposto – sai o oba-oba e entra o samba técnico,
que mantém uma certa regularidade o tempo todo. E da mesma forma que a
irregularidade dos dois últimos sambas era um problema sério, a regularidade
deste também é – se para os jurados, talvez este seja digno de notas melhores,
ao lado das demais, esta é a faixa que menos se destaca no CD. Quando digo
isto, não é porque ache o samba ruim, muito pelo contrário – tecnicamente, é
uma obra admirável, sem problemas, com versos bonitos, com uma melodia
redondinha. Mas talvez seja a faixa que menos marque numa primeira audição do
CD. Não tem nada que chame a atenção, não tem uma variação melódica ousada, um
trecho chiclete, um verso memorável. É bem feito, é como uma bela mulher que você
sabe que é uma bela mulher, mas que não tem grande motivação para chamar para
sair. Como diria Austin Powers, falta o ‘mojo’. NOTA: 7,9. PORTO DA PEDRA – Com um enredo complicadíssimo, baseado em uma sinopse cujo desenvolvimento é o terror de qualquer compositor, não existia muita esperança para a escola de São Gonçalo. Era impossível um samba bom, como ficou provado pelas Eliminatórias. Mas, pelo menos, não chega a ser uma catástrofe. Inclusive, tem coisas tecnicamente interessantes, como as rimas no meio dos versos, o que faz a melodia fluir sem grandes tropeços, salvo o refrão do meio, que entra pessimamente e não se resolve. Mas a obra tem até algumas ousadias e variações melódicas bacanas na segunda e é patente que os compositores se esforçaram muito para apresentar uma obra digna. A letra é que é um negócio sério, com direito a ‘poema ao seio jorrando amor’, ‘a fé se envolveu e foi saborear’, ‘alimento vencendo batalhas’ e o fechamento com chave de lata, com o ‘iogurte é leite, tem saúde e muito mais’. É fraco, mas podia ser bem pior, ainda mais com o histórico da escola. NOTA: 6,8. SÃO
CLEMENTE – Uma das minhas maiores expectativas este ano, a escola vem com um
enredo brilhante, com possibilidades estéticas infinitas, e um
samba bacana, leve e divertido. A letra é simples e passa o enredo
claramente. O refrão do meio é ousado, contrastando com a primeira parte, o que
dá efeito muito bom. A segunda é que não está no nível do resto – a letra cita
os musicais de maneira mais desconexa, terminando com um desnecessário “sou
irreverente”, que soa forçado. A melodia cai um pouquinho na segunda também,
mas talvez tenha sido melhor assim, para valorizar o genial refrão de cabeça
que parece ter vindo diretamente do final dos anos 80. NOTA: 8,5. GRANDE RIO
– O enredo sobre superação gerou um samba que até traz um recurso interessante
– a melodia tenta passar uma emoção próxima ao sentimento de alguém que está
buscando uma motivação para resolver um problema e por isso, apesar de ser
marcheada, não tem um astral ‘para cima’. Mas a coisa não ficou bem resolvida -
geralmente, tom menor marcheado faz com que a divisão dos versos fique muito
marcada, sílaba por sílaba, sem muita variação, o que acontece neste samba,
salvo algumas esticadas de sílaba em determinados versos, o que deixa uma
sensação de monotonia na audição. A segunda reforça a sensação e está
claramente longa demais. O refrão do meio é genérico, com aquele esquema
manjado do eu vou/amor. O enredo merecia um samba melhor. NOTA: 6,9. PORTELA
– “(Tem) uma confusão estética que se faz, que é atualmente hegemônica
e é prejudicial ao gênero, e é preciso que se dissipe. Acham que alegria só é
encontrada em notas agudas. Então, se você faz um samba com
determinados trechos melódicos com notas graves, dizem que afunda e perde a
alegria. Tem na história do samba enredo vários sambas antológicos com notas
graves e não são tristes. O samba sem a combinação necessária de notas agudas e
graves fica muito igual, linear” Nesta entrevista a um blog (http://pedromigao.blogspot.com/2011/10/jogo-misto-luiz-carlos-maximo.html) um dos compositores do samba da Portela faz uma crítica muito
pertinente. Tão pertinente que pode ser utilizada na versão oficial deste
samba. Para supostamente melhorar a funcionalidade, modificaram estas ‘notas
graves’. A melodia se desenvolvia, na versão concorrente, com uma lógica
própria, que dava identidade ao samba, lógica esta que não foi respeitada na
versão oficial. Claramente, o samba ficou pior e não é ‘vício de ouvido’ de
quem estava acostumado com a versão anterior. O momento mais evidente é a
entrada de “Portela, cheia de encantos”, que perdeu muito da emoção que tinha.
Lógico que, tirando a reedição de 2004, este é o melhor da escola desde o
fantástico samba de 1998 e é destaque da safra, mas eu prefiro a versão
anterior e não acho que este seja o melhor samba dos últimos anos, apesar de
ser ousado e abrir espaço para novas possibilidades no gênero. NOTA: 9,6 ILHA –
Segue o esquema dos últimos sambas da escola, que apesar de tecnicamente
fracos, vem funcionando muito bem na Sapucaí. Este tem momentos muito bons,
como a excelente primeira parte. Aí entra o refrão do meio e a coisa desanda,
com o molho inglês na feijoada e a mistura de chá com cachaça. Fica indigesto.
O enredo passa a se mostrar confuso, a letra mistura as coisas, perde
cronologia e, no meio da segunda, falando de hippies, rock and roll e futebol,
a pobreza dos versos é patente. Mas é animado e simpático. NOTA: 7,3. RENASCER – É um samba bem inferior ao do título do acesso, que tinha sido um dos destaques de 2011, mas mantém o estilo consagrado na escola em seus anos de Grupo de Acesso. É bem denso, tem ousadias, uma letra de razoável qualidade, mas o todo não convence. As variações melódicas não são usadas como forma de criar momentos memoráveis e parecem pequenas pontes para trechos de melodia que não se encaixam naturalmente. É interessante, mas não chama atenção na safra. NOTA: 7,8.
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