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Os sambas de 1990 - Acesso A

Os sambas de 1990 - Acesso A

GRAVAÇÃO DO DISCO: Depois da extinção da gravadora Top Tape em 1988, a Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Aescrj), entidade que controla o desfile do Grupo 1-B passou a não ter um selo fonográfico definitivo com a responsabilidade de gravar o disco oficial da categoria, ao contrário das co-irmãs do Especial. Mas LP produzido na gravadora Continental não faz feio. A qualidade é boa, nítida, com destaque para o naipe de tamborins e as peças de percussão agudas (repique, agogôs, chocalhos e caixas de guerra). As cordas também foram contempladas na mixagem, valorizando o trabalho de instrumentistas do naipe de Wanderson Martins (cavaquinho) e Jorge Simas (violão 7 cordas). A competente produção ficou com o veterano Bira Hawaii. O LP tem 12 faixas, sendo as 10 escolas que desfilaram no Grupo B, e mais Cabuçu e Lins Imperial, como convidadas. Explicação: em 1989, o regulamento do desfile do Especial determinava que as 5 piores classificadas seriam rebaixadas para o Grupo 1-B. Apenas a campeã do 1-B subiria, no caso, a Acadêmicos de Santa Cruz. No entanto, a Lins Imperial, segunda colocada no 1-B, ingressou com uma ação na justiça reivindicando o direito de acesso ao Especial em 1990 e ganhou a causa. Por este motivo, a Liesa decidiu pelo não rebaixamento da 14° colocada (Unidos do Cabuçu). A safra, na média, é boa. Mescla belíssimos sambas com alguns escorregões de marchas-enredo. NOTA DA GRAVAÇÃO: 9,5 (Rixxa Jr).

1A - GRANDE RIO (Por que sou carioca) – O disco abre com uma faixa de impacto. O sambão “Por que sou carioca” é um excelente cartão de visitas para quem não conhecia a então emergente Acadêmicos do Grande Rio. A escola teve uma ascensão meteórica. Foi fundada em 1988, com a fusão de duas escolas, a antiga Grande Rio e a Acadêmicos de Duque de Caxias. No ano seguinte, ganhou o campeonato do Grupo 2 e apenas dois anos depois de sua fundação, a agremiação conquistou o vice-campeonato no Grupo 1-B. A escola já começou com bala na agulha, contratando o puxador Dominguinhos da Estácio que dividiu a interpretação com o então desconhecido Wantuir. O tema é bastante surrado, apelando para o bairrismo e ufanismo carioca. Porém, o samba (ah, que samba!) é de autoria de três craques da Baixada (Adão Conceição, Barbeirinho e G. Martins, os mesmos autores de “Águas Claras para um rei negro”, de 1992). O hino é um primor de empolgação, com dois refrões fortes. O único senão é a estrofe “matas virgens e o Rio Carioca”, de difícil entonação para o componente cantar. Fora isso, é um belíssimo momento da Grande Rio. NOTA DO SAMBA: 9,8 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

2A - TUIUTI (Eneida, o pierrô está de volta) Um samba muito empolgado, que no disco teve um a ndamento um pouco acelerado. A interpretação, do grande compositor Bidubi (autor de Caxambu, sucesso de Almir Guineto), apesar dos problemas de dicção é eficiente. NOTA DO SAMBA: 9,0 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

3A - TRADIÇÃO (A Coroação) – Após cinco carnavais desfilando com sambas compostos exclusivamente pela dupla João Nogueira e Paulo César Pinheiro, a Tradição se rendeu à criação de uma ala de compositores e promoveu, pela primeira vez, uma disputa de samba enredo, no qual saiu vencedor este. O samba fala dos ritos folclóricos brasileiros em que os reis negros são protagonistas como folia de reis, congada, maracatu e festa do divino, mas é precário ao repetir clichês já ouvidos em outros sambas. Bela interpretação do precocemente aposentado puxador Kandanda. NOTA DO SAMBA: 8,5 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

4A - UNIDOS DO CABUÇU (Será que eu votei certo para presidente?) – A escola brincou com um momento político do Brasil falando da primeira eleição direta para presidente da República após 25 anos de ditadura. O samba tem uma melodia simples e previsível, mas com o refrão principal bem marcante. Destaque para a bela voz do veterano e hoje sumido Di Miguel. NOTA DO SAMBA: 8,0 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

5A - ENGENHO DA RAINHA (Dan, a serpente encantada do arco-íris) – Onze anos depois de ser homenageado pela Imperatriz Leopoldinense, o orixá Oxumaré voltou a ser enredo na Sapucaí. Assim como em 1979, o samba composto foi de respeito, esta vez narrando uma lenda envolvendo a divindade africana. Ao contrário do que geralmente acontece, esse samba com temática afro resultou numa melodia leve e de facilidade no cantar. Com este samba, a Engenho da Rainha conquistou seu terceiro Estandarte de Ouro em sete anos desfilando no Grupo 1-B. Boa condução de Ciganerey, na época em que ainda se chamava Paulinho Poesia ou Paulinho do Engenho da Rainha. NOTA DO SAMBA: 10 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

6A - LINS IMPERIAL (Madame Satã) – Taí mais um samba daqueles que não se fazem mais. E olha que se passaram apenas 15 anos!!! Um samba daqueles com “S” maiúsculo, com melodia e letras primorosas. O samba é todo ele rimado e o ritmo é irresistível. Na primeira parte da letra, os autores traçam o cenário da Lapa, berço da malandragem nas primeiras décadas do século 20. “a lua vem brilhando cor de prata/ pra iluminar a Lapa/ dos sambistas e seresteiros/ que ao trocarem a noite pelo dia/ divulgavam as melodias/ do nosso cancioneiro”. Mais lírico que isso, impossível. Na segunda parte, a escola fala sobre a vida do homenageado, Madame Satã, negro, pobre e homossexual. A frase do refrão final “Satã é mais um anjo/ que o inferno acolheu” bem que poderia ser o epitáfio de João Francisco dos Santos e estar gravada em seu túmulo. NOTA DO SAMBA: 10 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

1B - CORDOVIL (Cantares ao meu povo, Solano Trindade) – Maravilhoso samba da Independentes de Cordovil, em homenagem ao poeta afro-brasileiro Solano Trindade. Um dos últimos belos sambas do Dragão da Leopoldina, que nos anos 90 recebeu a pecha de ser fábrica de sambas trash. Ao meu ver, esse samba concorria com o da Engenho da Rainha para Estandarte de Ouro. O refrão “Eta nego, quem foi que disse/ que a gente não é gente/ quem é esse demente/ se tem olhos não vê” é simplesmente fabuloso. NOTA DO SAMBA: 10 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

2B - UNIDOS DA PONTE (Robauto, uma ova) – Para um tema bem humorado e jocoso, a Ponte escolheu um sambão. A primeira parte, em tom menor, mostra que é possível misturar irreverência com inteligência. NOTA DO SAMBA: 9,5 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

3B - ARRANCO (Do leite de cabra ao silicone) – Samba simpático e eficiente, apesar do andamento marcheado. A letra é bem humorada e bem sacada, narrando os exageros da vaidade e as peripércias que as mulheres fizeram ao longo da História para se tornarem mais bonitas. NOTA DO SAMBA: 9,0 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

4B - UNIDOS DE LUCAS (O magnífico Niemeyer) – Levar para a passarela do samba um tema sobre a obra de Oscar Niemeyer, ícone da arquitetura nacional e mundial, foi uma ousadia da Unidos de Lucas. Mas o pior mesmo foi o samba. Ao invés de um hino épico e respeitoso, a escola preferiu um tom galhofeiro. O refrão de duplo sentido quero ver Cuba lançar é um bom exemplo disso, sem falar na medíocre rima Gorbachov/ chove. Autêntica marcha-enredo, com o refrão principal de difícil entonação para o componente, por ser cantado muito rápido. O samba ficou audível tão somente ao grande Marcos Moran, em sua última gravação em um disco oficial de samba enredo. NOTA DO SAMBA: 7,5 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

5B - JACAREZINHO (Iuro-pari, a voz da mata) – Este belo samba do Jacaré é uma pérola escondida. Samba com um andamento mais lento e bonita melodia, ganhou força na voz de Alexandre da Imperatriz. NOTA DO SAMBA: 9,5 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

6B - VIRADOURO (Só vale o escrito) – Apesar de não ser um samba do potencial daqueles do início da década de 80, como “Amor em tom maior”, “Mutou muido kitoko” e “Acredite se quiser”, este “Só vale o escrito” foi bem eficiente para a proposta da Viradouro, que foi contar como o papel se transformou em documento e virou este instrumento de burocracia que atormenta o cotidiano das pessoas. Na gravação, o puxador é o limitado Torino. No desfile da Sapucaí, foi Quinzinho. A letra mescla momentos de bem-humorados ao citar documentos como certidões de nascimento, casamento, receitas de médico, contas de luz, aluguel, adiplomas de faculdade, apontamento do jogo do bicho e o atestado de óbito, embutido na expressão “baile das caveiras”. NOTA DO SAMBA: 9,3 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba