PRINCIPAL    EQUIPE    LIVRO DE VISITAS    LINKS    ARQUIVO DE ATUALIZAÇÕES    ARQUIVO DE COLUNAS    CONTATO

Os sambas de 1988 - Acesso A

Os sambas de 1988 - Acesso A

GRAVAÇÃO DO DISCO - O disco tem uma produção bem feita, apesar de a bateria estar muito leve, com uma sonoridade muito artificial. A safra é mediana, tem algumas boas obras e uma porção de bois com abóbora. Foram convidadas a participar do disco duas escolas do Grupo 2-A, a Cubango e a Mocidade Unida de Jacarepaguá, sendo que a primeira contribuiu com a melhor faixa do disco.

Este disco do Grupo 1-B foi o derradeiro da série de discos de sambas enredos da gravadora Top Tape que, durante mais de 15 anos, foi o selo principal dos fonogramas oficiais das escolas de samba. Em 1985, com a criação do selo Gravasamba - comandado pela Liesa - os sambas do Grupo Especial passaram a ser gravados pela gravadora RCA (depois BMG e hoje BMG/Sony). À Top Tape restou gravar o Grupo 1-B até 1988. Logo em seguida, a companhia foi extinta. Talvez isso explique a má distribuição e a dificuldade de se encontrar o disco fora do Rio de Janeiro. No carnaval de 1988, 10 escolas desfilaram pela categoria (Cordovil, Engenho da Rainha, Arranco, Santa Cruz, Jacarezinho, Lins Imperial, Lucas, Tupy de Brás de Pina, Império da Tijuca e Paraíso do Tuiuti). Para o LP ter 12 faixas e elevar a duração de tempo de gravação no disco, os produtores da bolacha convidaram duas escolas do Grupo 2-A que eram promessas de se tornarem futuramente grandes agremiações: a Acadêmicos do Cubango (que prometia causar sensação no carnaval do Rio, após uma trajetória vitoriosa em Niterói) e a Mocidade Unida de Jacarepaguá (ex-Acadêmicos da Cidade de Deus), que vivia uma trajetória ascendente nos grupos de acesso. A qualidade de gravação do disco é muito boa, no padrão costumeiramente apresentado pela Top Tape. As faixas têm uma duração um pouco curta para o gosto dos ouvintes dos sambas, com uma média de três minutos e meio, o que dá somente uma passagem inteira da letra. A gravação deixou acelerados alguns sambas (Lins, Tuiuti, Jacarezinho e Cordovil). A safra é maravilhosa, formada, em sua maioria, por sambas melodiosos, bem elaborados e algumas pérolas, como Lins, Arranco, Lucas, Tijuquinha e Cubango. Ao contrário das co-irmãs do GE que celebraram o centenário da Abolição, as escolas do 1-B diversificaram os enredos. NOTA DA GRAVAÇÃO: 9,5 (Rixxa Jr).

1A - CORDOVIL – A homenagem a Burle Marx rendeu um samba de letra fraca, rimas forçadas e melodia indigente. Para piorar a situação, acompanhando o intérprete César Capricho está um garoto, o Pequeno Grande Roger, que ressalta ainda mais a qualidade “trash” da obra. NOTA DO SAMBA: 5,8 (João Marcos).

Um samba exaltando a ecologia e as realizações do paisagista Burle Marx. Melodia retinha e animada com uma letra politicamente correta. O toque "trash" vai para uma criança que divide os vocais e faz os cacos para o intérprete César do Capricho. NOTA DO SAMBA: 8 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

2A - ENGENHO DA RAINHA – Falando do número sete, a escola apresentou uma marcha agradável, com melodia interessante e uma letra adequada ao enredo. Apesar de não ter mantido o nível dos anos anteriores, não faz feio. Eu quase sucumbi à brincadeira e dei nota sete ao samba, mas devo ser justo no julgamento. NOTA DO SAMBA: 8,7 (João Marcos).

Uma escola que tem na sua carteira um rol de belíssimos sambas errou a mão neste ano. O samba, pouco inspirado, limitou-se a descrever os eventos em que ocorrem o número sete (os pecados capitais, os dias da semana, as maravilhas do mundo, os anões da Branca de Neve, as cores do arco-íris, as notas musicais, etc). Mesmo assim, destaque para a correta interpretação do aposentado(?) César do Valle. NOTA DO SAMBA: 7,5 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

3A - ARRANCO – O Arranco, finalmente, conseguia encontrar sua cara nos anos 80, com um enredo inteligente e um samba animado, com uma pitada de lirismo. “Pra ver a banda Passar” é, inclusive, superior ao samba do ano seguinte, o conhecido “Quem Vai Querer”, que segue mais ou menos a mesma linha deste aqui. Grande momento da dupla Espanhol e Sylvio Paulo. NOTA DO SAMBA: 9,4 (João Marcos).

Uma alegoria lírica comparativa entre a música "A Banda", de Chico Buarque e a realidade do povo brasileiro resultou num felicíssimo samba de autoria da dupla de compositores craques Sylvio Paulo e Juan Espanhol. A obra foi um fator marcante para que a escola do Engenho de Dentro conquistasse o campeonato naquele ano. Há quem defenda que este samba é ainda mais bonito do que o do carnaval seguinte, "Quem vai querer", considerado o mais popular da história do Arranco. NOTA DO SAMBA: 9,6 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

4A - SANTA CRUZ – A bela interpretação de Quinzinho torna um samba comum numa faixa agradável. A letra é adequada e conta bem o enredo, mas o samba em si não tem nenhum momento marcante. Destaque para os agogôs, que dão um molho especial à faixa. NOTA DO SAMBA: 8,6 (João Marcos).

Outro samba correto, linear, sem grandes ousadias. O tema proposto era mostrar as bebidas consumidas pelo povo brasileiro ao longo da história. Samba mediano que nem o competente Quinzinho conseguiu fazer milagre. NOTA DO SAMBA: 7,7 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

5A - JACAREZINHO – Homenageando os apresentadores de programas infantis, a escola fez um belo desfile, apesar do samba horroroso. A letra é um somatório de bordões e rimas fáceis (folia/euforia/alegria). Extremamente marcheado e de melodia simples, a obra chega a ser irritante em certos momentos. NOTA DO SAMBA: 6 (João Marcos).

A Unidos do Jacarezinho chegou ao vice-campeonato do Grupo 1-B com uma marchinha bem alegre, que destacava os apresentadores dos programas infantis da televisão brasileira da época. A homenagem já começava no refrão principal, que dizia "beijinhos, beijinhos, tchau, tchau", numa alusão à Xuxa (no desfile, a loira foi representada pelo travesti Rogéria). A estrofe "Lupu Limpim, Clapá Topo" pode soar estranha para quem tem menos de 30 anos mas era uma referência ao programa homônimo do casal Lucinha Lins e Cláudio Tovar, que era levado ao ar pela Rede Manchete. O nome era formado pelas sílabas iniciais dos apresentadores na língua do P. Já "Oh, meu garoto/ vem com paipai se divertir" fazia menção aos personagens Cascata e Cascatinha, do antigo programa Chico Anísio Show. NOTA DO SAMBA: 8 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

6A - CUBANGO – A melhor faixa do disco. É de autoria, dentre outros, do excelente Flavinho Machado, que tem no currículo inúmeras obras primas na Mangueira e na própria Cubango. O próprio Flavinho interpreta o samba. O enredo, com conotação afro (que é a especialidade da escola), gerou um samba com cara de samba antigo e ótimos refrões. Que bom que a escola, que se encontrava no Grupo 2-A, foi convidada a participar do LP! NOTA DO SAMBA: 10 (João Marcos).

Um samba com a cara da Acadêmicos do Cubango e de seus autores Flavinho Machado e Heraldo Faria! Temas afro sempre foram o forte da simpática verde e branco do Morro do Abacaxi. Pressentindo a decadência do carnaval de rua de Niterói e apostando num currículo de 13 vitórias na cidade, a Cubango foi a primeira escola a atravessar a ponte e tentar a sorte na Marquês da Sapucaí. O samba é um dos melhores da história da Cubango. Neste ano, a escola disputava o Grupo 2-A e chegou em quarto lugar. NOTA DO SAMBA: 10 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

1B - LINS IMPERIAL – A escola passava por uma fase excelente de sambas. Este foi o ganhador do Estandarte de Ouro do ano. Tem uma letra extremamente poética e uma melodia envolvente. O grande momento é a segunda parte, com versos como “Zinco são suas lágrimas / Estrelas no infinito/ E as chaminés rasgando o céu que hoje são / Hostis troféus da evolução” é de chorar de emoção. Celino Dias tem uma interpretação extremamente segura no disco. NOTA DO SAMBA: 9,8 (João Marcos).

Simplesmente um sambaço! A Lins levou para a avenida uma homenagem cheia de lirismo a dois de seus fundadores, os sambistas Jones Machado, o Zinco, e Darcy Knuth Machado, o Caxambu. Como curiosidade, a dupla é autora do samba "Inferno Verde" - da escola de samba Filhos do Deserto, antecessora da Lins -, gravado por Martinho da Vila no disco Samba Enredo, de 1980. Belo momento também de Celino Dias, em início de carreira. O samba é um dos mais populares da escola e conquistou o Estandarte de Ouro para os compositores Celso, Lima, Pezão, Ernandes e Marinho. NOTA DO SAMBA: 10 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

2B - UNIDOS DE LUCAS – A grande injustiça dos anos 80 foi o Galo da Leopoldina não ter conseguido ascender ao Grupo 1-A sequer uma vez. A escola sempre batia na trave, quase sempre chegando entre as quatro primeiras. Este é mais um dos belos sambas que a escola trouxe no período. Em minha opinião, é o melhor do ano no grupo 1-B. A melodia, em tom menor, ressalta a beleza da letra poética, na bela homenagem a Ataulfo Alves. Lindíssimo. NOTA DO SAMBA: 9,9 (João Marcos).

O Galo da Leopoldina presenteou o público carnavalesco com belas pérolas ao longo da década de 80. Esta bonita homenagem ao compositor mineiro Ataulfo Alves é inspirada e rendeu um samba com um gingado irresistível. Bons tempos aqueles em que Lucas era sempre favorita a ascender ao Grupo Especial. NOTA DO SAMBA: 9,8 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

3B - TUPY DE BRÁS DE PINA – A escola fez um desfile muito ruim, já dando sinais de que as coisas não estavam bem. Poucos anos depois, ela enrolaria a bandeira. Em 88, ficou em último lugar e só foi salva por não ter ocorrido rebaixamento no ano. O samba em si é uma mistura de marcha e repente, com letra irreverente (“O Povo já está é P da vida...”) e só a interpretação de Sobrinho salva a faixa de ser uma desgraça total. NOTA DO SAMBA: 6,7 (João Marcos).

Esse samba de melodia complexa tecia críticas à situação política e econômica do país, prática costumeira durante os anos 80. A começar pelo título (uma brincadeira com um poema de Carlos Drummond de Andrade), o "José" seria o presidente Sarney. A letra, datada, citava os termos da época (marajá, ferrovia) e pretendia ser bem humorada. Destaque para a interpretação de Sobrinho (ex-Unidos da Tijuca), voltando a puxar um samba depois de três anos de ausência. NOTA DO SAMBA: 8 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

4B - IMPÉRIO DA TIJUCA – A escola tinha sido rebaixada no ano anterior, depois de uma seqüência de ótimos sambas no Grupo 1-A. Este não está no nível dos anteriores, mas tem bons momentos de melodia e letra. Uma boa homenagem à Sinhô. NOTA DO SAMBA: 9,1 (João Marcos).

Se o Estandarte de Ouro fosse para este samba, ficaria em ótimas mãos. Ao invés de falar sobre o centenário da Abolição da Escravatura, a Império da Tijuca preferiu celebrar a marca de cem anos de nascimento de Sinhô, um dos pilares do samba e da MPB. Maravilhoso! NOTA DO SAMBA: 10 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

5B - PARAÍSO DO TUIUTI – A letra, bem simples, lembra a dos sambas do início dos anos 70. A melodia tem alguns bons momentos, e o refrão de cabeça gruda nos ouvidos. Apesar de suas limitações, é um samba leve, do tipo que faz falta hoje em dia. NOTA DO SAMBA: 8,2 (João Marcos).

A Tuiuti escolheu uma maneira diferente de falar sobre brincadeiras infantis misturada com folclore. E a iniciativa rendeu este belo samba, um pouco acelerado mas que transmite muita animação ao componente. Entre os autores está Bidubi, compositor da "Dança do Caxambu", que fez um incrível sucesso na voz de Almir Guineto uns dois anos antes. Destaque para os belos acordes do cavaquinho na introdução. NOTA DO SAMBA: 9,3 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba

6B - MOCIDADE UNIDA DE JACAREPAGUÁ – Outra escola do grupo 2-A convidada para participar do disco. O samba tem alguns problemas sérios de métrica e a letra confusa dificulta o entendimento do enredo. Ao contrário do samba da Cubango, essa faixa era totalmente dispensável. NOTA DO SAMBA: 7 (João Marcos).

A AESCRJ bancou o convite para a Mocidade Unida participar do disco porque a escola era considerada uma promessa que, em pouco tempo, poderia figurar entre as grandes entidade do carnaval do Rio de Janeiro. O auge da escola, no entanto, ocorreu um pouco mais tarde, entre os anos de 1993-95, quando participou do Grupo A. O samba tem uma bonita melodia e o enredo idealiza um Brasil utópico, imperando cidadania e dignidade aos brasileiros, afinal, era época da Assembléia Nacional Constituinte, em que muita gente depositava esperança e a certeza de um país melhor. Em 2006, a MUJ amargará um desfile no Grupo E. NOTA DO SAMBA: 9 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba