PRINCIPAL    EQUIPE    LIVRO DE VISITAS    LINKS    ARQUIVO DE ATUALIZAÇÕES    ARQUIVO DE COLUNAS    CONTATO

Os sambas de 1987

Os sambas de 1987

A GRAVAÇÃO DO DISCO OFICIAL - Assim como em 1986, os sambas-enredo do Grupo Especial de 1987 também foram comercializados em dois LP's. A capa da esquerda (com o reclame vermelho da Brahma no canto inferior esquerdo) é o disco oficial, produzido pela BMG, que conta com 11 dos 16 sambas do Grupo Especial e mais uma faixa de bateria, que estaria presente também nos dois discos seguintes. Os cinco sambas restantes do desfile principal se encontram no disco de capa localizada à direita (o de três imagens divididas por um V). Salgueiro, União da Ilha, Jacarezinho, Caprichosos e São Clemente (que desfilaram no Especial) gravaram suas faixas para o disco do Segundo Grupo, o produzido pela Top Tape, visando obter mais lucro. O disco da Top Tape de 1987 (seu último de sambas-enredo do Grupo Especial) produzido pela tradicional gravadora) conta também com os sambas de Unidos da Tijuca e Tradição (campeã e vice do Acesso-87, respectivamente), mais Engenho da Rainha, Lins Imperial, Independentes de Cordovil, Arranco e Unidos de Lucas. Estranhamente, os sambas da Santa Cruz e da Em Cima da Hora, que também desfilaram no Grupo de Acesso de 1987, não estão incluídos no disco (devem ter sido gravados no disco do Terceiro Grupo). Falando do disco oficial (BMG), sua gravação é perfeita. A bateria possui disparadamente o maior destaque, com seu som bem mais alto do que o normal. Chega a lembrar o CD de 2002, mas a diferença é que os tamborins também aparecem muito bem e não só as caixas. No disco oficial de 1987, a bateria está bem empolgada, com um som envolvente, de maneira a dar gosto ouvir cada uma de suas doze faixas. A faixa de bateria presente no lado B, sem exagero, chega a ser melhor do que um orgasmo. Todos os instrumentos da bateria aparecem com destaque, a gravação dos sambas no estúdio se encontrava no auge, pois dava o básico destaque ao samba-enredo e à bateria, que achou a cadência perfeita em todos os sambas. O intérprete canta o samba-enredo sempre acompanhado do coral, nas duas passadas. A duração média de cada faixa do disco oficial é de três minutos e meio (o equivalente a uma passada e meia do samba). Ao lado do disco de 1988, o de 1987 possui a melhor gravação de estúdio de todos os tempos (no Teatro de Lona, a melhor disparada é a de 1994), pois faz um perfeito casamento entre samba, bateria e harmonia, sem essas frescuras dos discos de hoje com instrumentos de corda, teclados e cadência em demasia. Tivemos uma boa safra de sambas em 1987, destacando a total ausência de algum boi-com-abóbora e a presença de alguns clássicos. A partir da faixa do Salgueiro, comentarei sobre a gravação do disco da Top Tape, juntamente com a minha visão sobre os sambas do Grupo Especial gravados nele. NOTA DA GRAVAÇÃO DO DISCO DA BMG: 10 (Mestre Maciel).

Em 1987, houve dois LPs lançados: o da BMG e da Top Tap. A gravação do disco original é muito agradável, típica dos anos 80. A bateria é bem autêntica, aproximando-se bastante de um desfile na Sapucaí. Os tamborins aparecem com um destaque tremendo, assim como a batida das caixas. O cavaco também está presente em muitas faixas. A voz do intérprete ficou muito equilibrada com o batuque de cada bateria. O coro é bem forçado na segunda passada, visto que na primeira o puxador não é tão acompanhado por ele. A safra de 1987 é boa, apesar de não ter tantos sambas fenomenais. Só para citar, temos "Tupinicópolis", "Raízes", "G.R.E.S. Saudade" e "Adelaide, a pomba da paz". Também temos os agradáveis sambas da Beija-Flor, São Clemente e Estácio de Sá. NOTA DA GRAVAÇÃO DO DISCO DA BMG: 10 (Gabriel Carin).

1A - MANGUEIRA - O samba tem um jeito de marchinha! De letra simples e melodia animada (que costuma receber a alcunha de "pra cima"), o samba-enredo está longe de ser considerado um dos melhores da verde-e-rosa. Mas, ainda assim, ajudou a escola a conquistar o bicampeonato, até hoje contestado por muitos bambas. NOTA DO SAMBA: 9,1 (Mestre Maciel).

Samba-enredo bem simples, mas melodia pra lá de adorável. Tem uma letra bem-feita, que explora muito o inteligente tema. Seu refrão central um doce, assim como o "Itabira/Em seus versos ele tanto exaltou/Com amor/Eis a minha verde e rosa/Cantando em verso e prosa/O que o poeta inspirou". Rody, Verinha e Bira do Porto são famosos pela incrível simplicidade de seus sambas, é nem pelo talento. Funcionou muito bem num desfile excelente da Manga, de animação infinita. Outro riquíssimo campeonato! NOTA DO SAMBA: 9,3 (Gabriel Carin).

Este é um samba muito criticado por alguns, mas não me incluo nesta ala. Tudo bem que é inferior à maioria dos sambas mangueirenses da década, mas mesmo assim é envolvente até dizer chega. Sua letra é bem simples, mas conta com clareza o enredo e a melodia é animada. No desfile, foi cantado com perfeição por Jamelão e funcionou muito bem, tanto que as imagens mostram os componentes cantando o samba a plenos pulmões. A Mangueira pode ter feito um desfile inferior à Mocidade e à Portela em plasticidade, mas no chão não ficou devendo graças ao samba contagiante. NOTA DO SAMBA: 9,4 (Fred Sabino). Clique aqui para ver a letra do samba

2A - IMPERATRIZ - Considero "Estrela Dalva" a mais autêntica marcha-enredo da história do carnaval, ao lado do samba salgueirense de 2003. De letra microscópica, com apenas quatro estrofes (sendo que três são refrões), cada passada do samba dura menos de um minuto e meio. A letra mal toca na obra de Dalva de Oliveira, a homenageada do enredo. É um samba animadaço, daqueles que tem cacife para animar qualquer baile de carnaval. O samba é executado muito rapidamente no disco. Eu tinha apenas três anos em 1987, portanto, não me recordo do desfile. Mas posso afirmar que a marcha-enredo, se fosse executada de maneira mais cadenciada por sua bateria, teria menos chances de arrastamento. Aliás, 1987 foi um ano em que os sambas, na avenida, passaram mais cadenciados do que no disco. Agora, a faixa da Imperatriz no disco dá gosto de ouvir. A paradinha da bateria no refrão "zum, zum, zum" é sensacional. Aliás, a bateria dá um verdadeiro show nesta marcha-enredo, que repito umas cinco vezes quando toca por aqui. Como marchinha, o samba é perfeito. Já não posso dizer o mesmo como samba-enredo... NOTA DO SAMBA: 9,2 (Mestre Maciel).

Autêntica marchinha! "Estrela Dalva", samba oriundo do último desfile da história confeccionado por Arlindo Rodrigues, é, na minha opinião, a melhor faixa do bolachão de 1987. Eu realmente me senti humilhado com tamanha magistralidade de Alexandre D'Mendes, que aliado à belíssima atuação da bateria no disco, consegue cativar o ouvinte o tempo inteiro na faixa. Quanto ao samba da escola, trata-se de uma marcha-enredo animadíssima, feita para explodir mesmo, porém creio que seja uma obra um tanto desconjuntada. Isso porque o samba muda do comum para o maravilhoso em questão de segundo. O refrão de cabeça, apesar de dançante, não possui lógica alguma. Afinal, o que você entende de "Zum, zum, zum, zum, zum, zum/A bateria/Zum, zum, zum, zum, zum, zum/É harmonia"? A segunda parte da obra é bem correta tanto em letra como em melodia, porém não possui passagens de êxtase, extrema exceção ao incomensurável "Lá, lá, lá, lauê/É carnaval, vou me perder/Lá, lá, lá, lauê/Vem, meu amor, quero você", a melhor parte do samba, fortíssimo. O refrão final também agrada e tem uma coerência maravilhosa com as bandeiras brancas apresentadas na fantasia das baianas do desfile leopoldinense de 1987. Bom samba no geral. NOTA DO SAMBA: 8,5 (Gabriel Carin).

Como diria Fernando Pamplona, "é uma marchinha, uma marchinha, uma marchinha!!!". Uma marchinha muito bacana de se ouvir, pois tem um balanço sensacional e seus refrões são contagiantes. Mas como a análise é de samba-enredo, a obra fica devendo já que quase não fala do trabalho da grande Dalva de Oliveira, embora sua exaltação seja belíssima. O intérprete Alexandre D'Mendes, que na época era Alexandre da Imperatriz, conduz bem o samba no disco. Na avenida, ele dividiria o carro de som com o excelente Rico Medeiros. Apesar de Rico ser um intérprete mais afeito a obras mais classudas, o samba também rendeu bem no desfile. Por fim, vale registrar o fato de a bateria estar lamentavelmente acelerada demais tanto no disco como no desfile. NOTA DO SAMBA: 9 (Fred Sabino). Clique aqui para ver a letra do samba

3A - PORTELA - Samba Estandarte de Ouro com totais méritos, batendo as obras-primas da Vila Isabel, do Salgueiro, da São Clemente e da Unidos da Ponte. Sua encantadora letra contou com uma singular inspiração de seus compositores. A melodia também é qualificadíssima. Samba-enredo de grande passagem pela Marquês de Sapucaí. Dedé da Portela teve uma grande estréia como intérprete oficial da Águia, após Silvinho do Pandeiro ter deixado a escola. Ah, destaque para o início da faixa, que possui uma paradinha magistral da bateria da Portela. NOTA DO SAMBA: 9,7 (Mestre Maciel).

O que dizer de "Adelaide, a pomba da paz"? Um dos melhores sambas-enredo da Era Sambódromo. Incrível como o carnavalesco Geraldo Cavalcanti consegue fazer um enredo e tirar uma baita colocação com um enredo tão simpleszinho desse. Falar de um mero poema (é um belíssimo poema, mas render um desfile inteirinho só com ele é se dar bem?) e gerar um samba-enredo magistral desses não é pra qualquer um! O enredo fora inspirado na obra de Walmir Ayala. O samba é lindo, de melodia riquíssima e letra perfeita, dispensando qualquer tipo de clichês, comuns em enredos abstratos como esse. A bateria deu um show, assim como Dedé da Portela, que fez jus completo do título de um dos melhores intérpretes da história. Os refrões são show de bola! O trecho "São quatro letras/Que fazem sonhar/É o amor, que se espalha no ar/Neste dia de folia/Sigam o exemplo desta pomba/Desativem esta bomba/Pra ninguém se machucar" dispensa comentários. E acreditem ainda que uns paulistanos cri-cris do Orkut desceram o cacete no enredo, como meu colega João Marcos sabe bem. Acharam tosco! Que absurdo! NOTA DO SAMBA: 10 (Gabriel Carin).

Espetacular! Inspirado no poema de Walmir Ayala, o interessante enredo "Adelaide, a pomba da paz" rendeu um dos melhores sambas do ano. Letra impecável, melodia envolvente, bateria no andamento certo... Enfim, um primor de samba. Dedé da Portela canta bem na sua estréia como intérprete oficial, mas eu gostaria muito de ter ouvido esse samba na voz do grande Silvinho, que deixou a escola após o Carnaval de 1986. NOTA DO SAMBA: 10 (Fred Sabino). Clique aqui para ver a letra do samba

4A - ESTÁCIO - O samba-enredo mais famoso da Estácio tem um quê de marchinha. "O Tititi do Sapoti" é mais um samba daqueles considerados "pra cima" pelos demais comentaristas do Sambario, que serviu como uma luva para a fase da época de sambas animados da Estácio. O hoje romântico Dominguinhos do Estácio estava mais acostumado do que nunca a cantar esses sambas pra cima. Aliás, cada samba composto por Dominguinhos tem uma marca: de ser animado e, ao mesmo tempo, envolvente (lembra muito também os sambas de David Corrêa). Uma certa dupla de compositores tenta, sem sucesso, imitar este estilo do atual intérprete da Viradouro: Lourenço e Adalto Magalha, que não conseguiram emplacar a quinta vitória consecutiva na Tradição com seus ioiôs, iaiás e ai ai ais no concurso para 2005. Voltando a falar sobre o hino de 1987 da Estácio, é apenas um bom samba, não possui nada de extraordinário (a não ser a atuação da Bateria Medalha de Ouro na faixa. Que introdução!). A minha Estácio realmente possui sambas melhores. NOTA DO SAMBA: 9,2 (Mestre Maciel).

De longe, o samba mais popular da escola desde sua mudança de nome. "Tititi no sapoti", apesar de ser uma legítima marcha-enredo, possui uma letra criativa, repleta de bom humor, e uma melodia extremamente cativante. O refrão "Que tititi é esse/Que vem da Sapucaí/Tá que tá danado/Tá cheirando a sapoti" é de um altíssimo índice de animação. Após os resultados do carnaval de 2007, no qual o hino estaciano de 1987 fora reeditado, ficou claro, através de uma análise rápida dos comentários dos jurados da Liesa, como essa fórmula de letra utilizada em "Tititi no sapoti" e em muitas outras marchinhas da década de 80 é burramente confundida, segundo o regulamento da Liga, com falta de inspiração, o que chega a ser absurdo. Trata-se de um efeito simples, entretanto muito funcional, que não merece esse tipo de classificação simplesmente porque conta de forma descontraída, e não pelo fato de ser pobre ou simplório. NOTA DO SAMBA: 9,6 (Gabriel Carin).

O samba composto por Dominguinhos e seus parceiros é meio marcheado, mas não deixa de ser contagiante. Tem uma letra com belas sacadas e um refrão sensacional. Confesso que prefiro outros sambas da escola, como os de 90 a 93, mas não deixa de ser uma obra agradável. Ah, e Dominguinhos, como sempre, é brilhante na interpretação. NOTA DO SAMBA: 9,3 (Fred Sabino). Clique aqui para ver a letra do samba

5A - IMPÉRIO DA TIJUCA - Um samba bastante diferenciado, de apenas um refrão (situado no seu final). Talvez seja o samba-enredo "mais antigo" da década de 80, ou seja, que possui mais características de hinos dos anos 60. Pra começar, o tema é histórico e bastante patriótico (Viva o Povo Brasileiro), contando o nosso trunfo na Guerra do Paraguai. E, pra completar, possui uma letra enorme, e como não possui um refrão do meio (apenas um marcante ôôôôôô, também bem característico dos tempos de outrora), a melodia tem de ser bem trabalhada e qualificada, o que é o caso deste excelente samba da Império da Tijuca. A didática letra possui a peculiar característica dos anos 60 de descrição do enredo, de maneira a contar sua história com início, meio e fim. O samba, de formato antigo (quando a bateria tocava de maneira bastante lenta e o samba era puxado pelas pastoras), até que se encaixou bem no formato contemporâneo da bateria (de cadência acelerada). Uma pena que sacanearam a agremiação, que resolvera fazer um protesto antes de desfilar. Mas a organização começou a cronometrar o tempo do desfile desde o protesto, o que fez a escola se atrasar e perder muitos pontos na apuração. Resultado: rebaixada em último lugar. E não merecia, com esse belo samba. NOTA DO SAMBA: 9,4 (Mestre Maciel).

A letra quilométrica deste samba remete bastante aos saudosos sambas-lençol dos anos 60, quando os sambas costumavam ser gigantescos e abordar todo o enredo de forma altamente didática. Entretanto, apesar da letra gigantesca (ainda assim muito bonita), que, sem dúvida, dificulta não só a memorização como também o canto dos próprios componentes, "Viva o povo brasileiro" possui uma melodia riquíssima, deslumbrante, repleta de variações fantásticas e toda estruturada para prender o ouvinte na audição da faixa sem que ele se sinta enjoado pela grande extensão do samba. O refrão central, dono dos belíssimos "Ôôôôôôs", consegue aliar magistralmente tradicionalismo com empolgação. Já o final ("Viva nós, viva nós/Viva o povo brasileiro"), é daqueles que anima até o bamba mais exigente. Maravilha de samba! NOTA DO SAMBA: 9,7 (Gabriel Carin).

O samba é muito gostoso de ouvir e tem letra e melodia ótimas. Apenas não o considero tão excepcional quanto o do ano anterior, mas mesmo assim é brilhante. Tem características que lembram os clássicos sambas dos anos 60 como um refrão com "Ôôôôôô" e outro bem curtinho no final, além da letra bem longa. A letra, aliás, explica com grande clareza o enredo. O intérprete Pedrinho da Flor, um dos autores do samba, tem atuação muito boa. Diga-se de passagem, para mim sua voz lembra a do cantor Ernesto Teixeira, da Gaviões da Fiel. NOTA DO SAMBA: 9,5 (Fred Sabino). Clique aqui para ver a letra do samba

6A - UNIDOS DA PONTE - É um samba-enredo de letra e melodia simples. Mas ele possui um dom de fascinação imenso! Seu vício de encantamento faz com que eu, particularmente, o considere o melhor samba de 1987 e um dos melhores da década de 80 (e sei que muitos não vão concordar comigo). É curtinho, e sua bela melodia faz com que "G.R.E.S. Saudade" seja o meu hino particular do carnaval. Um grande momento da nossa querida Unidos da Ponte. NOTA DO SAMBA: 10 (Mestre Maciel).

Samba com cara de samba! Tem uma melodia animada, mas com variações fantásticas! Ambos os refrões são magníficos, principalmente o "No gingado da baiana/Dança o sol/E dança a lua/Também dança a velha-guarda/E a vida continua". Em muitos momentos, a obra é extremamente poética, como na parte "Saudade que bate constante/Tão forte dentro do meu coração/O céu está engalanado/O chão todo enfeitado/De recordação". Grillo e a bateria também deram um show na faixa. Sinto que esse samba, assim como o próprio enredo é muito inspirado no da Caprichosos de 1985, como os verso "Meu carnaval é você!". NOTA DO SAMBA: 10 (Gabriel Carin).

A escola de São Mateus tem um dos melhores repertórios da década de 80 e em 1987 isso ficou mais uma vez evidente. Cantado com inspiração por Grillo no disco, "G.R.E.S. Saudade" é um samba extraordinário. Transmite com perfeição o sentimento de saudade que o enredo passa sem ser deprê. O andamento da bateria e a melodia emocionante me fazem escrever que é o samba que eu mais gosto da Ponte - uma escolha difícil, diga-se. Ao ouvir este samba, sem trocadilhos, sinto saudade do tempo em que o desfile tinha no mínimo 14 agremiações e escolas como Ponte, Cabuçu, Lins, Imperinho, Arranco, Leão, entre tantas outras, tinham o seu espaço. Não só tinham espaço como levavam bons sambas ao desfile. Afinal, é, ou pelo menos era, desfile das escolas de... samba. NOTA DO SAMBA: 10 (Fred Sabino). Clique aqui para ver a letra do samba

1B - BEIJA-FLOR - Belo samba, de melodia bem variada e qualificada e, sobretudo, MUITO diferente da característica peculiar da agremiação de Nilópolis e seus sambas de melodia pesada (apesar que, na década de 80, apenas os sambas de 1985 e de 1990 da escola possuem este tipo de melodia). Ainda assim, quase ninguém se lembra deste samba-enredo. Não sei por que... NOTA DO SAMBA: 9,2 (Mestre Maciel).

Na minha singela opinião (sei que muitos discordarão), esse é o melhor samba-enredo da escola nos anos 80. Joãosinho Trinta fez um desfile bem morninho, mas bonito. Obviamente, não agradou como em 1986 (mesmo debaixo de chuva). "As mágicas luzes da Ribalta" é uma obra de melodia levíssima (quem diria, Beija-Flor?) e de letra interessantíssima. Começa muito bem, narrando com perfeição o início de uma peça de teatro numa poesia extraordinária ("Ao descerrar a cortina/O palco se ilumina/Tudo é brilho, luz e cor/Mergulhei na poesia/Drama, riso e fantasia/Num cenário multicor"). Realmente, ele é excelente! Destaque para a divinal nota alongada do trecho "E hoje/Esta beleza infinita/Acontece na Avenida/É a minha escola-sensação". Ele acaba saindo meio assim: E hooooooooooooooooje!!!!! Fantástico! O refrão final não é lá aquela coisa que nem as demais partes, mas também é muito bom. Gosto muito do "E lá no céu/Uma estrela brilhou/Anunciando a alegria/Que a passarela contagia/Com beleza e esplendor", de variações impecáveis. Riquíssimo samba da escola e merece sim mais carinho pelos bambas. Na avenida, o coral feminino "As Gatas" cantou o samba junto com Neguinho. NOTA DO SAMBA: 9,7 (Gabriel Carin).

A Beija-Flor fez um samba muito agradável para falar sobre teatro em 1987. Tem uma construção interessante, com dois refrões colados no final. O trecho "E hoje/Esta beleza infinita/Acontece na Avenida/É a minha escola-sensação" é o melhor da obra. A meu ver só faltou um trecho de mais explosão, tanto que o desfile foi meio frio, apesar da beleza do tema e do samba. Neguinho vai muito bem, como de costume. NOTA DO SAMBA: 9,4 (Fred Sabino). Clique aqui para ver a letra do samba

2B - UNIDOS DO CABUÇU - Letra de singular inspiração dos compositores e melodia bem variada. O Rei Roberto Carlos recebeu realmente uma bela homenagem da Cabuçu que, em 1987, inaugurava a seqüência de homenagens à personalidades (posteriormente viriam Trapalhões, Milton Nascimento, Xuxa e Maurício de Sousa). E não me levem a mal, mas que é tosco o moleque dando o grito de guerra da escola no começo da faixa, isso é... NOTA DO SAMBA: 9,2 (Mestre Maciel).

INTRODUÇÃO RIDÍCULA!!! Mas que o samba é excelente, ah isso é com certeza. Uma belíssima homenagem ao Rei Roberto Carlos. Os dois refrões são foras-de-série! O "E quem sou eu?/Nesta cidade encantada/Sou mensageiro do amor/No esplendor da madrugada" é excepcional! O mais interessante da obra é a enumeração das músicas do cantor. Belíssimo samba-enredo! NOTA DO SAMBA: 9,5 (Gabriel Carin).

Gosto muito deste samba! A melodia é envolvente e a letra conta com perfeição a trajetória do Rei Roberto Carlos, que, quem diria, deu samba e dos bons. Curiosamente, a bela melodia se repete nos trechos "Surgia na manhã o rei sol/Na carruagem que corria o infinito/Apolo dedilhava sua lira/Soavam notas que tocaram a tez de um mortal" e "'Olha', você sabe muito bem/Certos 'Detalhes' de uma vida agitada/O que me vale é a 'Palavra Amiga'/Sempre tão querida do meu camarada". Além disso, a bateria tem excelente andamento, tanto no disco como na avenida. NOTA DO SAMBA: 9,6 (Fred Sabino). Clique aqui para ver a letra do samba

3B - IMPÉRIO SERRANO - Samba longo, e a bateria multicampeã da Império o executa de maneira muito rápida, lhe fornecendo um formato de marchinha. Sua letra, bem coloquial, é a responsável pelo tom animado deste samba-enredo. O sumido intérprete Quinzinho, de quem sempre fui fã, conduz muito bem o hino imperiano de 1987. NOTA DO SAMBA: 9,2 (Mestre Maciel).

Outro clássico da dupla Beto Sem Braço e Aluísio Machado. "Com a boca no mundo, quem não se comunica, se trumbica", enredo sugerido por Fernando Pamplona e desenvolvido pelo carnavalesco Ney Ayan, além de fazer uma homenagem a Chacrinha, conta toda a história dos meios de comunicação no Brasil e no mundo desde a carta de Pero Vaz de Caminha até a contemporaneidade. O samba imperiano de 1987 possui uma letra clara e uma melodia pra lá de envolvente. Embora seja um hino um tanto marcheado, trata-se ainda de uma obra dona de um alto astral invejoso e que contém também inúmeros dizeres do próprio Chacrinha, o que a fez obviamente cair na boca do povo, tornando-se um dos sambas mais cantados nas temporadas pré-carnavalescas. Os refrões são tão bons que parecem competir para ver qual deles é o melhor! Primoroso samba cantado, infelizmente, no último grande desfile da história da escola até então. NOTA DO SAMBA: 9,5 (Gabriel Carin).

O samba dos famosos compositores Beto Sem Braço e Aluísio Machado (e de Bicalho) tem letra longa, sem entretanto deixar de ser de fácil entendimento pelo fato de ser coloquial (mas não pobre), e dois refrões muito agradáveis. Minha única restrição na faixa é ao fato de a bateria estar muito acelerada - na avenida, com mais cadência, o samba me agradou ainda mais. Quinzinho, como de costume, se sai muito bem. NOTA DO SAMBA: 9,5 (Fred Sabino). Clique aqui para ver a letra do samba

4B - FAIXA DE BATERIA - Três minutos e quatro segundos de puro carnaval e pura folia. É difícil de encontrar uma bateria mais envolvente que, numa cadência perfeita (nem tão lenta e tampouco acelerada), leva o bamba e o povo ao delírio nesta faixa. É possível ouvir todos os instrumentos nesta faixa: repiques, caixas, tamborins, cuícas... A entrada do agogô (provavelmente da Império Serrano) é apoteótica. Simplesmente os agogôs dão um show singular e magistral. Momento histórico do carnaval. Uma pena que essas grandes faixas de bateria só perduraram por três anos...

Outra típica faixa da bateria. Os tamborins e agogôs fazem a festa! Além disso, as caixas em geral possuem uma harmonia profunda. Excelente! Três minutos e seis segundos de puro lirismo!

5B - VILA ISABEL - Outro grande momento do carnaval! Martinho da Vila, com um samba-enredo cuja característica principal de sua letra é a AUSÊNCIA DE RIMAS, conseguiu proporcionar à Vila Isabel mais uma obra-prima. Creio que apenas Zé Ferreira consiga aliar uma melodia esplendorosa a uma letra sem rimas (o fenômeno se repetiria em 1993, com Gbala). Martinho da Vila canta, junto com Gera, um samba-enredo envolvente, com uma atuação de gala da bateria. Bom lembrar que Martinho o cantou apenas no disco. NOTA DO SAMBA: 10 (Mestre Maciel).

"Raízes" é um dos melhores sambas-enredo da Vila Isabel, assim como de todos os tempos. É uma obra muito bem-feita, de melodia gostosa e de letra admirável. Além disso, é de animação fascinante. E é obvio que o que mais chama atenção nesse samba é a ausência de rimas. Mesmo assim, Martinho da Vila conseguiu fazer milagre. Ele realmente é um dos maiores compositores de sambas-enredo de todos os tempos, pois consegue fazer uma inovação notável num samba e sem interferir em nada no brilho dele. E o que é mais impressionante: faz isso com uma facilidade tremenda, quando ele bem quiser! Não precisa pensar muito para fazer uma obra-prima. A história de Maíra é muito interessante, fruto de um enredo genial de Max Lopes. Deixa-me ver se entendi a história: o deus kaapor Maíra deu possuía sete deusas de pedra em seu templo, mas deu vida apenas para uma delas, Arapiá. Arapiá fugiu do templo e se apaixonou por Numiá, a mãe dos peixes. Daí, eles tiveram quatro filhos, que eram as estações do ano. Mas o casal começou a brigar pelo poder universal e Maíra os separou, "atirando os dois pro ar". Enfim, é um excelente samba-enredo, mas, por incrível que pareça, eu não gostava dele. Talvez seja a interpretação desafinada de Martinho ou o paupérrimo timbre de voz de Gera nesta faixa. Foi só eu ouvir a gravação da Coletânea Sony para entender porque todo mundo dava nota 10 para ele. NOTA DO SAMBA: 10 (Gabriel Carin).

Só um gênio como Martinho da Vila é capaz de escrever um samba maravilhoso que retrata à perfeição o interessante enredo Raízes sem uma rima sequer. E isto sem comprometer a melodia, que tem variações envolventes. Martinho canta o samba no CD, enquanto o sumido intérprete Gera dá os cacos. No excelente desfile da Vila, Gera o conduz muito bem. Um dos grandes sambas do ano e da história da terra de Noel. NOTA DO SAMBA: 10 (Fred Sabino). Clique aqui para ver a letra do samba

6B - MOCIDADE - Até hoje os bambas insistem que o desfile inovador de Fernando Pinto (a urbanização dos índios) merecia um samba melhor. O laiá laiá que marca seu início não é do agrado de muita gente. A letra, por mais que seja curta e simplória, descreve bem o enredo. A melodia, na minha opinião, é agradabilíssima. Para a crítica, a Mocidade merecia o título, mas a agremiação teve que se contentar com o vice. NOTA DO SAMBA: 9,3 (Mestre Maciel).

Sem dúvida, um dos cinco melhores sambas-enredo da história da escola e o melhor dos anos 80. "Tupinicópolis" é fruto da inteligência insuperável de Fernando Pinto. Quem viu o desfile da escola sabe bem do que eu falo! Os carros em forma de animais nativos, por exemplo, eram de deixar qualquer um de queixo caído. Quem não viu, sugiro que leia a coluna do meu colega Marcelo Guireli aqui no Sambario. A letra é perfeita e melodia extraordinário, de variações mágicas. É só ver o começo da obra, justamente a melhor parte: "Vejam/Quanta alegria vem aí/É uma cidade a sorrir/Parece que estou sonhando/Com tanta felicidade/Vendo a Mocidade desfilando/Contagiando a cidade". É de deixar qualquer um perplexo! Infelizmente, foi a última vez que vimos a genialidade do carnavalesco desfilar na Sapucaí, já que ele falecera nesse mesmo ano num acidente de carro. Até escolheu o enredo de 1988, mas não chegou a desenvolvê-lo. NOTA DO SAMBA: 10 (Gabriel Carin).

A trilha sonora do arrebatador desfile da escola de Padre Miguel teve excelente melodia, mas teria mais impacto se tivesse uma letra mais inspirada em alguns trechos, embora tenha descrito bem o fantástico enredo Tupinicópolis com sua simplicidade. Por exemplo, não gosto do refrão "E a oca virou taba/A taba virou metrópole/Eis aqui a grande Tupinicópolis" e nem dos "laiás" do refrão principal. Não deixa de ser uma obra agradável, mas se fosse melhor, a Mocidade certamente teria conquistado o título para premiar a genialidade de Fernando Pinto. NOTA DO SAMBA: 9,2 (Fred Sabino). Clique aqui para ver a letra do samba

A GRAVAÇÃO DO SEGUNDO DISCO - No disco da Top Tape, a gravação já é bem menos qualificada. A bateria soa de maneira semelhante a do disco do Especial de 1990, com seu som um pouco mais distante. O intérprete canta o samba sozinho na primeira passada, com o coral (que apenas participa no refrão) comandando a segunda passada do samba. Mas a gravação é bem natural, sem os "enfeites" contemporâneos e que honra a tradição dos sambas-enredo. NOTA DA GRAVAÇÃO DO DISCO DA TOP TAPE: 7 (Mestre Maciel).

A gravação da Top Tape também é boa, porém é bem inferior em relação ao da BMG. O coro, quase todo feminino, é bem desafinado. A bateria não é tão harmônica quanto a da BMG. A voz do intérprete ficou meio oca. A cuíca e o surdo são os instrumentos de mais fortes do vinil. NOTA DA GRAVAÇÃO DO DISCO DA TOP TAPE: 7 (Gabriel Carin).

1A - SALGUEIRO - Uma melodia singular, envolvente e emocionante fazem deste samba uma das obras-primas da escola na década de 80. Este samba-enredo de letra bem feita é até hoje muito aclamado pelos bambas. Uma parte muito admirada é o refrão central ("Venham ver felicidade/Salgueirando a humanidade"). Rixxa, o Pavarotti do Samba, estreava como intérprete oficial de uma escola de samba, porém, na gravação, só soltou o grito de guerra e cacos. Quem mandou ver no disco foi um intérprete chamado Dalmir. NOTA DO SAMBA: 9,5 (Mestre Maciel).

O hino salgueirense de 1987 é de autoria de Bala (compositor de outras dezenas de sambas salgueirenses), César Veneno (autor também do fracassado "O Reino do faz de conta") e do grande Didi (maior compositor da história da União da Ilha). O enredo do Salgueiro, criado e desenvolvido pela dupla Renato Lage e Lílian Rabello, fala sobre felicidade e esperança no futuro, o que transfere, portanto, um apelo emocional gigantesco aos componentes da escola. "E por que não" é um samba único na história do carnaval. A começar pela melodia, que é lírica, altamente envolvente e muito bem estruturada. A letra consegue converter toda abstração do enredo de forma poética numa simplicidade inacreditável. Ela, ao invés de narrar rigorosamente o tema da escola, sintetiza todo o enredo exemplificando de forma poética os possíveis caminhos para o encontro da felicidade, como a humildade humana ou o fim das guerras. Os três refrões da obra são maravilhosos, com destaque ao belíssimo "Vai à luta/O que deve ser teu será". Enfim, uma verdadeira aula de bom gosto e elegância. Clássico salgueirense! NOTA DO SAMBA: 10 (Gabriel Carin).

Samba espetacular, que faria enorme sucesso nos dias de hoje, é bom que se diga, sem os famigerados "me leva que eu vou", "vou sacudir", "vou agitar", "vou isso, vou aquilo" presentes nas atuais obras salgueirenses. Além da melodia animada, tem letra poética, conclama o ouvinte a refletir sobre o mundo que vivemos e projeta a felicidade de um planeta melhor. Os refrões são simplesmente perfeitos. Pena que o Rixxa só tenha dado cacos no disco, mas no desfile ele fez a sua estréia com o pé direito. Momento memorável do Salgueiro. NOTA DO SAMBA: 10 (Fred Sabino). Clique aqui para ver a letra do samba

2A - UNIÃO DA ILHA - Com este samba, a Ilha iniciou um ciclo de sambas-enredo irreverentes, que revelaria Quinho, um dos mais populares intérpretes da atualidade. Aroldo Melodia, nos últimos anos de sua carreira, passaria a entoar apenas sambas desta estirpe de levantar a Sapucaí. Bom lembrar que, nos dois anos anteriores, Aroldo cantou sambas bem animados pela Santa Cruz. Pela primeira vez a escola utilizaria uma letra coloquial e bem-humorada, que seria a marca da agremiação nos anos seguintes. Um bom samba! NOTA DO SAMBA: 9,2 (Mestre Maciel).

"Vai União da Ilha! Segura a marimba!" última aparição de Aroldo Melodia na Ilha antes da entrada de Quinho. "Extra! Extra!" é um samba-enredo competente, de melodia rica, apesar da letra esbanjar clichês desnecessários, como "Bafafá", "tititi" e "tatatá". A melhor parte desse samba-enredo (e a mais lírica também) é "Quem tem amor pode dar/Quem não tem vai achar/Quem tem, ama/Você é a chama do meu coração". Infelizmente, ele não tem uma rima final. Mas é um belo samba. NOTA DO SAMBA: 9,2 (Gabriel Carin).

Uma obra animada toda a vida! Repleta de boas sacadas e melodia contagiante, a Ilha contou a história da imprensa com um samba muito agradável, e, como sempre, bem cantado pelo saudoso Aroldo Melodia. Gosto muito do refrão "Oi, brilha emoção/Antes que eu me esqueça/Extra! Extra!/Deu Ilha na cabeça!" e da cabeça do samba: "Amor, acorda pra folia/Vem, desfolha o dia-a-dia/Novamente cruza o mar a alegria". NOTA DO SAMBA: 9,5 (Fred Sabino). Clique aqui para ver a letra do samba

3A - JACAREZINHO - Samba-enredo de apenas um refrão, de melodia simples, de bom agrado e uma boa letra. Porém, esta bela homenagem ao saudoso Lupi não salvou a escola do rebaixamento. NOTA DO SAMBA: 9 (Mestre Maciel).

Belo samba da Jacarezinho cujo enredo é o boêmio gaúcho Lupicínio Rodrigues (muitas de suas músicas foram regravadas por Jamelão). A letra, embora simples, faz uma homenagem sincera ao cantor. É notável também como ela tenta se aproximar ao máximo dos sambas-enredo mais antigos, já que se importa mais em descrever as características sentimentais das músicas do homenageado do que narrar rigorosamente toda sua trajetória de vida. O grande pecado da obra está na melodia, que apesar de suave, não cola nos ouvidos, chegando a ser até enjoativa em alguns momentos. O refrão “Quem ontem chorou/Hoje vai sorrir/Lupiciniando/Na Sapucaí” é simples e bonito, mesmo sem causar grandes impressões. NOTA DO SAMBA: 8,3 (Gabriel Carin).

É um samba com melodia razoável e letra correta, com um refrão final bem bacana "Quem ontem chorou/Hoje vai sorrir/Lupiciniando/Na Sapucaí". Entretanto, foi muito mal cantado no disco, o que provavelmente tirou muito do seu brilho. NOTA DO SAMBA: 8,6 (Fred Sabino). Clique aqui para ver a letra do samba

1B - CAPRICHOSOS - A agremiação de Pilares, na época, se encontrava no auge de seus saudosos temas irreverentes, prosseguindo com o ciclo iniciado com o épico desfile de 1985. Carlinhos de Pilares, como sempre, deitava e rolava, pulava feliz, já que era a vida que ele sempre quis (como diz o refrão central do samba) com um samba-enredo que, evidentemente, era a sua cara. Letra coloquial, bem-humorada, com uma melodia "pra cima" são as características do hino da agremiação de Pilares de 1987. Porém seria meio difícil cantá-lo hoje, devido à frase "Uma poupança cheia de cruzados...", a moeda da época. NOTA DO SAMBA: 9 (Mestre Maciel).

Grandioso samba de Pilares, típico enredo irreverente da época, seguindo a linha de "E por falar de saudade". Excelente mesmo! A interpretação de Carlinhos de Pilares é de deixar o queixo caído. O tema é bem polêmico, sobre a redemocratização do Brasil, já que o regime militar havia recém-acabado. Infelizmente, é incrível como ele consegue ser atual. "Eu prometo!" já é um nome picante, contradição obvia as propostas dos políticos. Veja o trecho "Quem vive de promessa é Santo/E eu não sou Santo, meu senhor/Seu deputado, eu votei/Agora posso exigir/Quero ver você cumprir/Seu lero-lero, blá, blá, blá/Conversa mole isso aí/É papo pra boi dormir". Fantástico! Uma legítima crítica ao governo brasileiro! Para completar, Carlinhos solta um interessante dizer na segunda passada: "Pela amor de Deus! Não vire as costas pro povão!". E realmente a Caprichosos era a voz do povo. NOTA DO SAMBA: 9,5 (Gabriel Carin).

Ótima crítica da escola de Pilares à cretinice dos políticos brasileiros em geral. Apesar de ser um pouco marcheado, é um samba que me agrada muito, pela letra debochada e inteligente e pela excelente interpretação de Carlinhos de Pilares. Quem tiver a oportunidade, procure no Youtube uma impagável vinheta gravada por Carlinhos antes daquele Carnaval com este samba. NOTA DO SAMBA: 9,3 (Fred Sabino). Clique aqui para ver a letra do samba

2B - SÃO CLEMENTE - Mais uma obra-prima da escola, evidenciando seu marcante lema "Olha a Crítica". Este samba emocionante, de protesto e de cunho social, foi composto por Izaías de Paula, o extraordinário intérprete da agremiação da Zona Sul na época. A letra é praticamente uma autobiografia de Izaías, já que ele foi um menor abandonado e, por fim, passou por todas as dificuldades descritas pela letra. Grande momento da São Clemente no carnaval! Até hoje esta mensagem está presente, pois as desigualdades sociais crescem a cada dia! NOTA DO SAMBA: 9,6 (Mestre Maciel).

E quem disse que carnaval é alegria? Não tenho a menor dúvida em dizer: O SAMBA-ENREDO MAIS TRISTE DE TODOS OS TEMPOS! Em 1987, enquanto a Caprichosos fazia uma crítica com irreverência e alegria, a São Clemente preferiu apelar para o lado emocional do ouvinte. Sua letra é fúnebre e a melodia, pra piorar, é pesada. É samba-enredo fantástico! Izaías de Paula uniu a sua experiência de vida (já foi menino de rua quando pequeno) com o enredo crítico do carnavalesco Carlinhos D'Andrade. Os dois refrões são de fazer qualquer um se curvar diante a magistral criação dos compositores. A melhor parte é "Enquanto o filho do papai rico/Desfruta do bom e o bonito/Do dinheiro que o pai tem/Lá vai o menino pobrezinho/Que acorda bem cedinho/Pra vender bala no trem/Muitas vezes é abandonado/Sendo bem ou mal tratado/Na chamada FUNABEM". Maravilhoso! Narra com perfeição as diferenças entre o menino pobre e rico, gerando uma auto-reflexão na mente do ouvinte. Excepcional! Uma pena que o coral feminino seja tão desafinado, jogando fora esta gravação. Na segunda passada, o nível melhora bastante. NOTA DO SAMBA: 9,8 (Gabriel Carin).

É um samba emocionante e que provoca uma reflexão profunda sobre a forma cretina como o nosso país (leia-se autoridades, políticos, sistema, etc) trata o menor abandonado. Um retrato perfeito deste triste panorama que dificilmente terá uma solução. Um samba triste, mas inspiradíssimo em melodia e letra. Uma pena que o Izaías de Paula tenha se afastado dos desfiles, pois seus sambas críticos marcaram época no Carnaval do Rio. NOTA DO SAMBA: 10 (Fred Sabino).

Convenhamos, a São Clemente não foi marcada por grandes sambas-enredo. Mas em 1987, com o enredo “Capitães do Asfalto”, mais um da sua saga de críticas sociais e inspirado na obra de Jorge Amado (“Capitães de Areia”), que contava a saga de menores abandonados nas grandes cidades – no caso do livro, a Salvador da década de 30, a escola traria um dos meus quinze sambas-enredo favoritos de todos os tempos. A partir da idéia de parafrasear o título da grande obra de Amado, trazendo-a para o urbanismo da década de 80, que também serviria para o “Ratos e Urubus”, de Joãozinho Trinta, surgiu um samba-enredo tão triste quanto “Os Sertões” – seguindo a linha cronólogica dos sambas que eu conheço – e reparem no áudio ao vivo como Isaías de Paula (e mesmo no CD) nem precisa fazer cacos, esta é a intenção do samba e ele, como compositor do mesmo, captou perfeitamente o sentido. É totalmente para baixo o samba. Não é raro chorar à sua audição, aliás.

Uma coisa que se deve observar na letra deste samba é o tipo de narrador dos versos em questão. Reparem que nos dois refrãos, há uma participação ativa quando ele se insere no contexto, principalmente no intermediário, virando o próprio capitão do asfalto. Outra ponto curioso desta letra é que o seu refrão que deveria servir como mais forte – onde há o nome da escola –, numa bela valorização de todo o seu texto só se entende a partir da leitura completa dos versos que o precedem. Explica-se: o refrão começa com A São Clemente lembrou do seu existir – o simples verbo lembrança associado à existência de algo ou alguém causa um apelo muito forte, além de causar a questão (”quem é este alguém?”) a ser preenchida adiante –; somos Capitães do Asfalto na Sapucaí – olha a primeira pessoa aí! Quando você cantar este samba da São Clemente, você se tornará um capitão de asfalto, na luta pela valorização da identidade deles. “Mas, ora, se eu não souber o enredo ou o restante do samba, eu nem saberei quem eu sou, afinal, o que são capitães de asfalto?” A São Clemente e você e eu e ela vivemos o menor abandonado, o Pequenino, triste feito cão sem dono.

Tão cansado de viver e sofrer por aí perambulando: o mundo infantil, aquele da Xuxa, da sensação de “como é doce ser criança outra vez” não existe. Não existe, porque a própria vida torna-se um fardo para aqueles que acabaram de nascer. Ela já cansa, pois, de tanto perambular, o menino, sem instrução, já não pode mais ver na vida uma dádiva e, sim, uma obrigação de seguir em frente. É duro acordar mais um dia sem saber onde comer ou dormir, mas é mais duro ainda saber que nem alguém para te ajudar você tem – e ainda há muitos anos pela frente, com muitos perigor por aí. Não teve sorte, seu berço não foi de ouro // Seu pai não teve o tesouro, é triste sua vida a vagar: estes versos são da mais bela poesia, da reafirmação da sentença inicial com a leve introdução da questão órfã (”berço” e “pai”, pois “pequenino” não necessariamente significaria menor de idade). E quantas negações há aqui: não, não, não; e o “triste” novamente. É um canto de melancolia, de amargura, não adianta disfarçar. A São Clemente faz você provar, de maneira linda – que contradição – da tortura.

Seu moço, dê-me um trocado // Eu quero comer o pão // Sou menor abandonado neste mundo de ilusão. Ei, você aí! Exatamente, seu moço, que o ignorou até agora, apesar de tudo que a São Clemente contou e cantou! Dê-me um trocado! Não sabe quem eu sou? Então, serei direto: o menor abandonado neste mundo de ilusão. É curiosa a inserção da palavra “ilusão” na letra do samba, pois muitas vezes o próprio gênero musical – e o Carnaval – nos serviu de ilusionismo fantástico, fabuloso. Já a ilusão que o menino (eu e você, lembre-se) temos neste mundo é a do mundo cruel, esfarrapado. Também me permitam a comparação novamente a “Ratos e Urubus”, quando o samba da Beija-Flor, dois anos mais tardes, colocaria: “é o luxo e a pobreza, no meu mundo de ilusão”. Lado a lado, estão você, capitão do asfalto, e está você, seu moço.

Enquanto o filho do papai rico // Desfruta o bom e o bonito do dinheiro que o pai tem // Lá vai o menino pobrezinho // Que acorda bem cedinho para vender bala no trem. Sabem, de vez em quando, paro para pensar que é muito choro, é muita culpa apontada de um lado para outro e pouca solução prática, isso talvez seja o grande problema da sociedade. Acontece que o samba da São Clemente torna-se um ícone mesmo valorizando unicamente o lado do menino sofrido – e martelando esta idéia ao longo de sua letra, talvez tornando-se até repetitivo. Quando vem para a segunda parte de seu samba, os autores inseriram de imediato um “enquanto”: isto é, há alguém do outro lado da moeda. Um destes é o filho do papai rico, que teve sorte e berço de ouro. O seu pai tem o tesouro, e sua vida é a gastar. Obviamente que nem todos os ricos são assim, porém a observação indireta que é feita já ao consumo das drogas, tão debatido por “Tropa de Elite” etc., quase nem é reparada em prol do menino pobrezinho que vai vender bala, caneta ou o que for em trens, ônibus e ruas. Todavia, a riqueza (aquela do seu moço), logicamente, não é a única das “vilãs”, afinal seria tolice pensar assim. Muitas vezes é abandonado, sendo bem ou mal-tratado na chamada Funabem: os responsáveis – pais e familiares – que abandonam os menores vêem-nos parar numa instituição em que, novamente, a sorte guiará seus destinos. Podem ser bem ou mal-tratados, conforme o sistema ande. Alô, Brasil, felicidade nunca existiu no SAM. Outra crítica a uma fundação, o SAM (Serviço de Assistência ao Menor), atual FIA (Fundação Para a Infância e Adolescência), onde internevam-se mentores infratores. Mais um aviso: nunca houve felicidade em tal instituição.

Se hoje ele é mal-orientado // Será marginalizado nas manchetes de amanhã. E o que a mídia faz? Destrói de vez com a imagem do capitão de asfalto. Depois da péssima orientação que a sociedade lhe dá, são formados os capitães malandros, gatunos, ladrões que vão parar como culpados pelo caos urbano. Sim, é verdade que pode faltar amor aos corações humanos daqueles que cometem delitos. Só que o que é o amor, o carinho para quem só viveu a solidão e a ausência de felicidade, sem rumos, sem pais, sem berço? É possível, enfim, haver uma correção dos valores deles? Ou é preciso corrigir os nossos antes que eles virem nós? Xi, o jeito é fazer como a São Clemente, lembrar do seu existir. E cantar, pois, talvez quem cante seus males espante. NOTA DO SAMBA: 10 (Cassius Abreu). Clique aqui para ver a letra do samba