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Os sambas de 1970

Os sambas de 1970

A GRAVAÇÃO DO DISCO (OU DOS DISCOS) - De 1968 (ano em que foi gravado o primeiro disco de samba-enredo) a 1973, era costume ser gravados dois discos: o oficial da Top Tape e o do Festival de Samba (a capa está logo acima). O disco que eu tenho é o oficial da Caravelle e a capa, diferente da acima, tem fundo branco, com imagens dos desfiles. E é baseado nele que irei comentar os sambas de 1970. Segundo nosso colaborador Cláudio Carvalho, o disco "Festival de Samba" é o melhor para ouvirmos os sambas de 1970, pois no oficial, na maioria das faixas, o intérprete canta praticamente à capela o samba-enredo na primeira passada para depois entrar o coral e a bateria (ou batucadinha) bem animada e harmonizada com o cavaco e a cuíca. Um quase imperceptível pandeiro acompanha o intérprete na primeira passada enquanto ele canta o samba sem acompanhamento. A única vantagem do disco oficial em relação ao Festival de Samba é que ele contém o samba da Mocidade, enquanto que o LP do Festival o substituiu por uma faixa de bateria (segundo relato do meu camarada Cláudio Carvalho). Tenho as versões dos dois discos do samba do Salgueiro: a do disco do Festival (que baixei no site oficial da escola), que o executa de maneira mais animada e  acelerada; e a do disco oficial da Caravelle naturalmente, onde o samba aparece mais lírico e cadenciado (essa é a versão que eu prefiro). 1970 apresenta uma bela safra, com destaque maior para os sambas da Portela e da Imperatriz, os dois melhores do ano na minha opinião. NOTA DA GRAVAÇÃO DO DISCO CARAVELLE: 6 (Mestre Maciel).

Em 1970, lançaram dois LPs de sambas-enredo: o oficial da Caravelle e a terceira edição do "Festival de Samba". Comentarei o vinil que possuo comigo, que é o da Caravelle. Infelizmente, bastou dizer que a produção do bolachões havia melhorado de 1968 para 1969, que a gravação volta a ser pior ainda do que era antes. A bateria tem cara de bateria, porém ainda é completamente limitada, pois na maioria das faixas a gente faz um esforço quase sobrenatural para notar sua verdadeira cadência. Ainda falta aquele alto astral que elas passam nos discos da década de 80, principalmente nos LPs de 1985 e 1988. Apesar disso, muita gente cisma em endeusar esse tipo de gravação precária, algo que, como já disse, discordo completamente. Os bambas alegam que a gravação aproxima os sambas do climão ao vivo passado na avenida. Na minha singela opinião, climão é o recriado, ainda que artificialmente, nos discos de 1985 e 1994, onde a gravadora tenta passar emoção utilizando um som cadenciado, e não uma gravação de má qualidade. Mas o que mais irrita no disco da Caravelle é o fato de que, na maioria das faixas, o intérprete canta o samba completamente à capela, acompanhado apenas por um mísero pandeiro ou reco-reco. As pastoras só entram cantando o samba a plenos pulmões a partir da segunda passada. Essa primeira passada deixa os sambas enjoativos, chatos e irritantes, ainda que, às vezes, o intérprete seja agradável. De todas as faixas, a única que realmente me comove pela gravação rebuscada é a da Portela, onde o coro da escola parece até que está chorando de emoção tamanho impacto que o samba causa. Essa faixa sim merece meu prestígio! Quanto a safra, é típica dos anos 70: três ou quatro obra-primas intercalando com bois-com-abóboras pavorosos. Os grandes sambas do ano que se imortalizaram no carnaval carioca são os da Portela, Imperatriz, São Carlos e Vila Isabel. NOTA DA GRAVAÇÃO DO DISCO CARAVELLE: 3 (Gabriel Carin).

1A - MANGUEIRA - O lirismo do samba mangueirense de 1970 era bem comum naquela época na verde-e-rosa. O samba é bastante longo, com quatro refrões extensos. No disco oficial, é executada toda a longa primeira passada à capela e apenas metade do samba na segunda com o acompanhamento da envolvente bateria mangueirense. Uma pena! NOTA DO SAMBA: 9,3 (Mestre Maciel).

O disco de 1970 é aberto com um típico samba-enredo da Estação Primeira. "Um cântico à natureza", enredo retratando as dádivas que a mãe natureza concedera ao Brasil, possui uma letra muito bonita, recheada de poesia, e uma melodia rica em variações. Porincrível que pareça, o samba da Mangueira possui nada menos que quatro longos refrões, com destaque ao "Rios, cachoeiras e cascatas/Frutos, pássaros e matas/Enobrecem a nação". É um hino muito interessante, que estranhamente não é muito lembrado pelos sambistas. NOTA DO SAMBA: 9,2 (Gabriel Carin).

Ótimo samba. A primeira parte é bem lírica. O refrão depois da primeira é muito bom. E o outro depois dele é melhor ainda. A segunda parte (estou contando o refrão) é boa, mas inferior ao restante da faixa. O refrão principal é maravilhoso, mas me lembra "É frevo, é frevo, é frevo". Lindo samba, um dos melhores da Mangueira. NOTA DO SAMBA: 9,8 (Vitor Ferreira).

Adorável samba da Manga. "Cantico a Natureza" talvez seja um dos mais poeticos sambas a falar das riquezas do nosso país. Bela letra e melodia. NOTA DO SAMBA: 9,5 (Eduardo). Clique aqui para ver a letra do samba

2A - MOCIDADE - Segundo nosso colaborador e colunista Cláudio Carvalho, o samba da Mocidade não consta no LP do Festival, apenas no disco oficial. O LP de capa vermelha e amarela sem dúvida sofre um considerável desfalque, pois "Meu Pé de Laranja Lima" é um samba muito bonito, de melodia clássica aliada a dois refrões maravilhosos. Na primeira passada, o intérprete canta  acompanhado apenas do pandeiro. Na segunda, entra um tradicionalíssimo coral das pastoras que o entoa de maneira bem mais cadenciada, com direito a paradinha do Mestre André no último refrão. O hino de 1970 é um grande samba-enredo da Mocidade que não é muito comentado pelos bambas. NOTA DO SAMBA: 9,6 (Mestre Maciel).

Bonito samba da Mocidade, tentando resgatar a inocência do imaginário infantil. "O meu pé de laranja lima" possui uma melodia simples, mas repleta de belas variações. Contudo, o grande destaque não desse samba não é sua melodia, mas sim sua letra de uma poesia fantástica, onde você nota claramente que os compositores tentaram dar o melhor de si. Nele podemos notar pérolas mágicas como "Não as devemos despertar/Para as tristezas enegrecidas/Dos infortúnios da vida/Oh, como é triste fazer a criança chorar". São passagens impossíveis de serem vistas em sambas-enredo do século XXI. O refrão "Ah, eu entrei na roda/Eu entrei na roda-dança/Eu entrei na contra-dança/Eu não sei dançar" é sensacional! Não é uma obra-prima, como alguns dizem, mas ainda sim é um ótimo samba. NOTA DO SAMBA: 9,3 (Gabriel Carin).

Este samba realmente só consta em um disco, já que tenho os dois. Um pena! É um lindo samba! A primeira parte é maravilhosa. O refrão central também segue a mesma linha. A segunda parte é excelente. Mas o melhor da faixa é o seu lindíssimo refrão. Grande samba, um dos melhores da Mocidade. NOTA DO SAMBA: 9,9 (Vitor Ferreira).

Um dos bons sambas a falar da criança, seu universo, da esperança dos 'pequeninos' no futuro. A letra é muito rica. Destaco o verso "Reis,fadas e rainhas/As estórias contadas pelas dindinhas. "Muito bonito! NOTA DO SAMBA: 9,7 (Eduardo). Clique aqui para ver a letra do samba

3A - VILA ISABEL - No LP oficial, o intérprete canta "Glórias Gaúchas" sem qualquer tipo de acompanhamento: à capela mesmo (não querem que eu considere aquele mísero reco-reco cujo som faço um esforço imenso para ouvir, né?). Depois que entra a bateria bem animada juntamente com o coral. Martinho da Vila emplacava na escola um samba de sua autoria pelo quarto carnaval consecutivo (o popular Zé Ferreira canta junto com o coral na segunda passada do samba no LP oficial). O samba possui uma melodia para lá de cativante, característica peculiar de Martinho. E claro que não pode faltar a cantiga como refrão final. A escolhida da vez não poderia ser mais apropriada: "Prenda Minha". O gaúcho que não souber cantá-la, que atire a primeira pedra... NOTA DO SAMBA: 9,6 (Mestre Maciel).

Mágico! Outra obra-prima do mestre Martinho da Vila! "Glórias Gaúchas" tem a cara do compositor, pois possui letra riquíssima, melodia adorável e refrões mágicos. Uma característica marcante das obras desse honrado compositor é o fato da melodia de seus sambas possuirem muitas vezes um animado ar de samba-de-roda. Isso torna a funcionalidade do samba extremamente abrangente, possibilitando o fácil canto da obra tanto num desfile de escola de samba como numa simples roda do pagode. Além disso, outra marca sua, principalmente em seus primeiros sambas-enredo compostos para a Vila Isabel, é a presença de uma cantiga no final. Neste aqui, o belo "Vou-me embora, vou-me embora/Prenda minha/Tenho muito que fazer/Eu vou partir para bem longe/Prenda minha/Pro campo do bem-querer" é quem dá o ar de sua graça. Um samba-enredo excepcional e destaque absoluto da safra de 1970, sem dúvida alguma. NOTA DO SAMBA: 9,8 (Gabriel Carin).

Adoro esse tipo de samba. A primeira parte (os dois refrões) é maravilhosa. A segunda também. O refrão central também é de excelente qualidade. Já do refrão principal não gosto muito, apesar de apreciá-lo... Mas é um dos melhores da Vila Isabel. NOTA DO SAMBA: 9,9 (Vitor Ferreira).

Mais um sambaço da escola de Noel e de Martinho (autor do samba). O samba tem um conjunto esplendoroso de letra e melodia. Figura entre os melhores da escola, com certeza. NOTA DO SAMBA: 9,8 (Eduardo). Clique aqui para ver a letra do samba

4A - IMPÉRIO SERRANO - Samba bem identificado com a Império Serrano de 30 para 40 anos atrás: o larará que introduz o samba, mais uma letra poética acoplada a uma melodia envolvente e bastante tradicional, sem qualquer originalidade. Mas é um bonito samba. NOTA DO SAMBA: 9,3 (Mestre Maciel).

Depois de uma gloriosa sequência de obras-primas compostas pelo mestre Silas de Oliveira, o Império Serrano tentou em 1970 apostar num samba-enredo do mesmo estilo. Lamentavelmente, acontece que os compositores Nina Rodrigues, Aidno Sá e Jorge Lucas (e não é o cineasta!) demostraram uma profunda infelicidade na tentativa de utilizar a mesma fórmula do saudoso Viga Mestre. O resultado foi o que é, na minha opinião, O PIOR SAMBA-ENREDO DA HISTÓRIA DO IMPÉRIO SERRANO!!! "Arte em tom maior" é um samba horrendo em todos os sentidos, entoado ainda num dos piores desfiles da história do Império, o qual a escola quase fora rebaixada pelos inúmeros pontos penalizados em cronometragem. Para começar, o samba é iniciado por um refrão simplesmente horroroso, contendo os piores "laialaiás" da história do carnaval, além de um tenebroso "Tudo isto quer dizer Brasil", que não possui absolutamente nexo algum. Depois, o hino segue enfileirando apelação atrás de apelação, tentando enganar o ouvinte desprevenido com uma falsa poesia. Tal falsa poesia é notável em trechos como "És a natureza em festa/Até parece seresta/A passarada cantando em seu louvor" ou "Essa paisagem tão bela/Que cantamos nesta passarela/O velho mundo conheceu/Usos e costumes em aquarela", onde os compositores amontoam vários adjetivos rebuscados tentando demostrar um vocabulário rico. Outra horrorosidade lastimável é a repetição absurda da palavra "terra" durante o samba, tornando-o mais enjoativo ainda. Para terminar, a letra pavorosa está aliada a uma melodia pobre, irritante, sem nenhuma originalidade, desprovida de qualquer beleza técnica ou emocional. Enfim, é um hino que peca por seu completo mau gosto e até hoje causa vergonha na nação imperiana. Um samba para se esquecer! NOTA DO SAMBA: 3,6 (Gabriel Carin).

Depois de três pedradas, tava na hora de um samba mediano. Ele começa bem com o lárárá. A primeira parte não apresenta nada demais. O refrão também não. A segunda parte segue a mesma linha. É um bom samba, mas que peca por, em alguns momentos, a letra não se encaixar na melodia. NOTA DO SAMBA: 9 (Vitor Ferreira).

Enredo parecido com o da Mangueira, porém o samba é menos inspirado. Possui um único, e fraco, refrao. Bom samba, e só. NOTA DO SAMBA: 8,8 (Eduardo). Clique aqui para ver a letra do samba

5A - JACAREZINHO - Fundada em 1966, a escola ingressava, apenas quatro anos depois, ao desfile principal pela primeira vez. Porém, nunca conseguiria permanecer dois anos consecutivos na elite. Fora rebaixada em 1970 assim como em 1973, 1987 e 1989, quando também amargou rebaixamentos no Primeiro Grupo. Mas o belo samba de 70, de letra simples e uma doce e adorável melodia, sem dúvida se salva. A característica do samba combina bem com o enredo sobre o circo, principalmente o laralaiá que serve como refrão central e final. Em termos musicais, o Jacaré sem dúvida agradou logo de cara. Destaque para a maravilhosa introdução da faixa no LP oficial, onde o cavaco dá um verdadeiro show acompanhado do pandeiro. NOTA DO SAMBA: 9,4 (Mestre Maciel).

Posso parecer chato, mas eu ainda não vi muita graça nesse samba do Jacarezinho. A letra é até interessante em alguns momentos, no entanto alterna entre passagens de beleza e de apelação. A melodia também não é excepcional, pois ora é agradável, ora é enjoativa. Além disso, os "laralaiás" não colam nos ouvidos. O grande momento deste hino é com certeza o refrão "Trazendo alegria/A milhões de corações/Faz vibrar as multidões". Não é um samba ruim, mas, para mim, passa despercebido no disco. NOTA DO SAMBA: 8,1 (Gabriel Carin).

Outro médio samba, que peca na letra. A primeira parte com o seu refrão é média. O lárárá é muito bom. A segunda também é média, como toda a obra. E depois disso volta ao lárárá. A letra é meio esquisita, e a melodia não é lá grande coisa, não. Não deixa nenhuma saudade, pelo menos pra mim. NOTA DO SAMBA: 8,9 (Vitor Ferreira).

Muito bom samba, contando um pouco da história do circo. Tem melodia contagiante, inclusive no refrao dos lalá laiá... NOTA DO SAMBA: 9,4 (Eduardo). Clique aqui para ver a letra do samba

1B - PORTELA - A obra-prima de 1970 da escola, "Lendas e Mistérios da Amazônia", apareceu muito bem no carnaval de 2004, quando a Portela reeditou o enredo que deu à agremiação o seu último título individualmente (a Portela seria campeã também em 1980 e em 1984, porém dividiria o campeonato com outras escolas). Na versão original de 1970, o samba é entoado de maneira bastante lírica, envolvente e romântica. 34 anos depois, ganhou animação na gravação do CD e ritmo de frevo na avenida (sem comentários...). Já seria clichê considerar o samba de 1970 um dos melhores de todos os tempos (de fato é, mesmo) e mais óbvio ainda o eleger como o melhor samba do ano (sendo que a safra de 1970 é muito boa). Essa é a Portela e seu extenso hall de sambas-enredo lendários! NOTA DO SAMBA: 10 (Mestre Maciel).

Como diz Rico Medeiros, "nossa senhora"! Na minha singela opinião, "Lendas e mistérios da Amazônia" é simplesmente o melhor samba da história da Portela!!! É um dos sambas mais fortes da história do carnaval, pois ao mesmo tempo que é lírico e suave, é valente, heróico e guerreiro, mostrando claramente que o samba agoniza, mas nunca morreu, não morre e jamais morrerá. A letra do samba portelense de 1970 é capaz de traduzir a riquíssima sinopse do saudoso carnavalesco Clóvis Bornay em uma sublime poesia, onde o samba diz tudo mesmo quando não fala absolutamente nada. Talvez jamais veremos versos de uma riqueza cultural tão grande como "Quando chegava a primavera/A estação das flores/Havia uma festa de amores/Era tradição das amazonas/Mulheres guerreiras/Aquele ambiente de alegria/Terminava ao raiar do dia". Realmente magistral! A melodia desse samba é tão mágica, tão solene, tão extraordinária, que, sem brincadeira, não existe palavras para descrevê-la! Basta ouvir o samba que ele já diz tudo! Um hino do carnaval carioca e um marco do samba brasileiro. NOTA DO SAMBA: 10 (Gabriel Carin).

A princípio não gostava desse samba, mas foi me conquistando aos poucos, e hoje, pra mim, é um dos melhores de todos os tempos. A primeira vez que ouvi foi na gravação de 2004... A primeira parte é lindíssima. O seu bis também é muito bom. A segunda parte é maravilhosa. O seu refrão prinicipal é o ponto principal da obra. Lindíssimo samba. NOTA DO SAMBA: 10 (Vitor Ferreira).

Clássico portelense. É um grande samba, com bastante variações melodicas, e contando com um dolente e lindo refrao central! Particularmente prefiro a versão da reedição de 2004, mas esta gravação aqui tambem é muito boa. NOTA DO SAMBA: 9,8 (Eduardo). Clique aqui para ver a letra do samba

2B - IMPERATRIZ - A dupla Mathias de Freitas e Carlinhos Sideral repetiria o sucesso do extraordinário samba de 1969 compondo, para o carnaval seguinte, uma obra-prima que em nada deve ao samba anterior. Se "Brasil, Flor Amorosa de Três Raças" é um samba romântico e um dos mais líricos da história do carnaval, "1922, Oropa, França e Bahia" já é um de melodia mais envolvente e cativante, de excelentes variações. A gravação no disco da Caravelle é sensacional, tanto que eu prefiro a original em relação à regravação do samba na Coletânea Sony da escola feita em 1993 por Alexandre D'Mendes. Pra quem pensa que a qualidade do repertório musical da Imperatriz Leopoldinense é algo recente, necessita voltar um pouco mais no tempo. NOTA DO SAMBA: 10 (Mestre Maciel).

Outro clássico, que ganhou uma interpretação fantástica no LP. "Oropa, França e Bahia", enredo com base na Semana de Arte Moderna de 1922, gerou um samba extremamente envolvente. Sua melodia alterna entre momentos de lirismo e animação, sendo cantado ora em tom baixo, ora em tom alto. Isso faz o samba crescer muito a cada a variação melódica, cativando o ouvinte até despontar no magistral refrão "Parece o lamento da prece/A voz derradeira da porta-bandeira/Morrendo de amor" e ser finalizado apoteoticamente em deliciosos "Ô ô ô ô". A letra é uma verdadeira aula de poesia, com destaque a trechos que passam uma miscelânea de suspense e emoção, como o sensacional "Vibrante, surgiu da lenda um bandeirante/Sob a luz dos pirilampos/Perdidos nos campos/A procura do mar/Sem saber voltar, sem saber voltar". Não a dúvida que Mathias de Freitas e Carlinhos Sideral, também autores do samba do ano anterior, sejam dois dos melhores compositores da história da Imperatriz. Curiosidade: Carlinhos Sideral ganhou esse apelido pelo fato ser estudioso de OVNIs (objeto voador não-identificado). Perdoem-me pelo trocadilho, mas não é a toa o fato do talento desse compositor ser realmente de outro mundo. NOTA DO SAMBA: 10 (Gabriel Carin).

Mais uma obra-prima. Sambaço. Até hoje não entendi o enredo, mas tudo bem... A primeira parte é belissima. O refrão central é um dos pontos fortes da obra. A segunda parte também é maravilhosa. O refrão principal é a melhor parte do samba-enredo. O ôôô é um dos melhores da história. Queria muito que reeditassem esse samba, mas acredito que irá ser difícil... NOTA DO SAMBA: 10 (Vitor Ferreira).

Considero a primeira grande 'pedrada' do disco. O samba até começo meio 'despretensioso' mas estoura a partir do inspiradissimo refrao central, e vai crescendo. Grande obra,um dos grandes sambas da Imperatriz. NOTA DO SAMBA: 10 (Eduardo). Clique aqui para ver a letra do samba

3B - SALGUEIRO - Numa entrevista a Sérgio Cabral, o lendário carnavalesco do Salgueiro na época Fernando Pamplona considera o samba da escola de 1970 fraco. Bem, tá certo que ele é muito inferior aos anteriores da agremiação, mas que é um samba agradável de se ouvir, isso é! "Praça Onze, Carioca da Gema" é um samba-enredo de fácil canto. Sua primeira parte possui uma melodia tradicional. Já na segunda a animação prevalece, pois os dois refrões em forma de cantiga proporcionam o convite para cair no samba. O mesmo "Abre a roda meninada que o samba virou batucada" seria utilizado sete anos mais tarde pela Vila Isabel. NOTA DO SAMBA: 9,3 (Mestre Maciel).

Um dos piores sambas do Salgueiro! Não é de se admirar que Fernando Pamplona, rabugento como só ele, não tenha gostado do samba que sua própria escola compôs. "Praça Onze, carioca da gema", um enredo interessante que poderia ter gerado um belo samba, fora traduzido numa das primeiras (e piores) marchas-enredo da história do carnaval. Trata-se de um sambinha fuleiro, de letra paupérrima e melodia irritante, aliada a um refrão principal pavoroso. Os salgueirenses viram a funcionalidade maravilhosa do samba de 1969, que rendeu um importantíssimo campeonato a Academia, e decidiram utilizar a mesma fórmula para tentar fazer outro desfile tão magistral quanto "Bahia de todos os deuses". Creio que houve uma influência muito grande do próprio Fernando Pamplona, que muitas vezes se mostrou contra os típicos sambas-lençol dos anos 60, algo chamado por ele mesmo de "letra-sobrando" ou "encheção-de-linguiça". O Salgueiro, portanto, tentou fazer um samba animado, livre, de fácil canto, feito para todo o público se empolgar. Entretanto, se por um lado o samba é leve, por outro é horroroso, contendo trashezas como "Tia Ciata/Era bamba pra valer" e outras pérolas do gênero. Simplesmente horrível! NOTA DO SAMBA: 4,5 (Gabriel Carin).

Adoro este samba, apesar da letra... A melhor parte com certeza é o seu refrão "Abre a roda, meninada / Que o samba virou batucada". Seu outro refrão também me agrada bastante. Não é uma obra-prima, mas gosto muito desse samba. NOTA DO SAMBA: 9,2 (Vitor Ferreira).

Outro sambão de 1970. A letra inspirada sobre o samba, citando Tia Ciata, explode em dois refrões que da vontade de sair pulando! NOTA DO SAMBA: 10 (Eduardo).  Clique aqui para ver a letra do samba

4B - SANTA CRUZ - A história da Acadêmicos de Santa Cruz é bastante semelhante a do Unidos do Jacarezinho, pois assim como a agremiação do Jacaré, a Santa Cruz nunca conseguiu se manter por mais de dois carnavais na elite. Fundada em 1959, faria seu primeiro desfile apenas quatro anos depois. Em 1966, participava pela primeira vez do desfile principal (sendo conseqüentemente rebaixada). De volta em 1970, voltaria para o Grupo 2 rebaixada em último lugar. E o descenso sempre seria a amarga parceira da verde-e-branco nos demais carnavais em que desfilou entre as grandes (1985, 1990, 1992, 1997 e 2003). Sobre o samba, seu formato é bem tradicional e antigo, com uma letra didática e extensa aliada a uma melodia lírica (daquelas que, nos desfiles de hoje, a óbvia tendência seria o arrastamento), sem muitas originalidades em suas variações. Mas sambas assim são belos e, sem dúvida, despertam saudade no bamba de ouvir algo semelhante nos desfiles contemporâneos. A bateria aparece na segunda passada (no LP oficial) com um excelente balanço e paradinhas bem arrojadas. NOTA DO SAMBA: 9,2 (Mestre Maciel).

Um dos piores sambas já cantados no Grupo Especial! Os compositores da Santa Cruz, tentando fazer um samba-lençol poético e emocionante, acabaram criando um hino lastimável, onde sequer a "qualidade trash" dos sambas do Império ou do Salgueiro está presente. O samba é ruim pelo simples fato de ser, sem exagero, uma das músicas mais chatas que eu já ouvi na minha vida. Para início de conversa, a obra possui uma letra quilométrica, que tenta abranger todo o enredo da escola, mas infelizmente torna sua audição algo extremamente cansativo. Depois, vem a melodia, que é completamente retilínea, sem um gingadozinho sequer, fazendo do samba um hino tão insosso, que a faixa fica parecendo mais uma leitura de atestado de óbito do que o canto de um samba-enredo carioca. Para finalizar, o samba (se é que podemos chamar isso de samba) possui alguns lugares comuns quase explícitos, como, por exemplo, no trecho "Independência e Abolição/Foram os fatos mais importantes desta nação/Quando os negros envaidecidos de alegria/Comemoravam a libertação". Observando atentamente, vemos um terrível discordância histórica, pois os negros, além de festejarem a Abolição, também comemoraram a Independência? Se não, por que se envaideceram de alegria? E afinal: o que isso tem a ver com um enredo sobre mulheres brasileiras? Some toda essa horrorosidade a um refrão de cabeça pavoroso e a uma interpretação precária do puxador no vinil, que você encontrará esse boi-com-abóbora horrendo. NOTA DO SAMBA: 3,8 (Gabriel Carin).

Não gosto muito desse samba. fala, fala, fala... e não diz nada. A primeira parte é só para encher lingüiça. O refrão central é chatíssimo. A segunda parte até que dá para ouvir. Concordo com o Gabriel, o que aquela parte tem a ver com o enredo? O refrão principal é médio, mas a paradinha da bateria é muito boa. Samba médio. NOTA DO SAMBA: 9,2 (Vitor Ferreira).

Se Mangueira e Império falaram do Brasil e suas riquezas, a Santa Cruz veio falando da MULHER brasileira e seus feitos em seu enredo. Porém, a letra se perde um pouco deste propósito, além da melodia ser arrastada em alguns momentos. NOTA DO SAMBA 8,4 (Eduardo). Clique aqui para ver a letra do samba

5B - SÃO CARLOS - Mais um samba maravilhoso da escola oriunda do berço do samba: o bairro do Estácio. De melodia envolvente e um refrão contagiante ("Oi maracatu, maracatu..."), o hino da São Carlos de 1970 ganharia, 23 anos depois, uma regravação magistral de Dominguinhos da Estácio para a Coletânea Sony da escola. "Terra de Caruaru" é um excelente misto de samba com maracatu, como diria o mestre Jorge Ben Jor em "Mas que Nada". NOTA DO SAMBA: 9,6 (Mestre Maciel).

Genial! "Terra do Caruaru" é um samba delicioso, de letra simples, mas de melodia realmente mágica. O grande marco da Unidos de São Carlos nos anos 70 são esses fantásticos hinos, que conseguem mixar inúmeros fragmentos de músicas folclóricas com o próprio gênero de sambas-enredo. O resultado normalmente são clássicos primorosos como este aqui, que mistura maracatu com samba de forma magistral em seu deslumbrante refrão "Oi, maracatu, maracatu cantarei/Oi, maracatu, maracatu gingarei". Briga com "Rio Grande do Sul na festa do preto forro" e "Festa do Círio de Nazaré" pelo título de melhor samba da história da escola. NOTA DO SAMBA: 10 (Gabriel Carin).

Ótimo samba. A sua primeira parte (e única) desse samba é de excelente qualidade, só acho que poderia ter menos palavras terminadas em "eiros". O refrão principal é maravilhoso. Um ótimo samba da São Carlos, um dos melhores de sua safra. Um samba que não ganha tanta importância no disco, porque está cheio de grandes obras (Mangueira, Mocidade, Vila Isabel, Portela, Imperatriz e São Carlos). NOTA DO SAMBA: 9,8 (Vitor Ferreira).

Samba cheio de variações em sua melodia, extremamente inspirado em sua letra. Seu único refrão é excelente. Bela obra da escola. NOTA DO SAMBA 9,7 (Eduardo). Clique aqui para ver a letra do samba